Atelier des Créateurs

O savoir faire dos fatos

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

O edifício, considerado Património Artístico e Arquitetónico pela Câmara Municipal do Porto, que data ao ano de 1900 e chegou a ser a sede da Associação Cristã da Mocidade, foi totalmente recuperado e adaptado para albergar um novo projeto de alta-costura - o Atelier des Créateurs. O número 95 da Rua José Falcão, no centro do Porto, prendeu imediatamente à cidade um de dois investidores franceses – José González, nascido em Espanha, mas residente em Paris, França – e fê-lo apostar na mão-de-obra portuguesa (algo que lhe faltava em Paris). Neste prédio, de três pisos, revestido de azulejos verdes na fachada, adquirido no ano 2007, nasceu uma alfaiataria moderna, onde os produtos – que são os fatos para homem e, também, alguns para senhora –, refletem o ambiente requintado do espaço criativo. Desde a aquisição do edifício, até ao funcionamento pleno da atividade, passaram cerca de três anos. Os sócios, José Gonzáles, que tinha uma rede de lojas em Paris, e Gilles Zeitoun, tunisino, que trabalhava na área financeira (hoje já vive na cidade do Porto), tinham dificuldade em encontrar fornecedores qualificados que respondessem a todas as suas exigências. «Enquanto a indústria alemã diz que não faz, e não faz, a indústria portuguesa diz que não faz, mas até dá um jeitinho, se for preciso», salienta Ricardo Conceição.

Em Portugal o nicho de mercado ainda é reduzido muito por causa dos valores.

Depois de apresentações feitas, fomos conhecer todo o edifício. No piso inferior é onde se encontram os mais variados tecidos dos clientes, já com o seu nome e medidas associados na etiqueta. Ao contrário de uma indústria normal, em que a peça é produzida e segue para as lojas, no Atelier des Créateurs todas as peças são feitas por medida e por encomenda. Chegam e já têm um destino – 80% das peças encomendadas vão para França, o restante vai para Inglaterra e Espanha e, por vezes, seguem para o mercado da Noruega e da Alemanha.

Aquela imagem do alfaiate, que risca com o giz e corta à mão, não é tanto o modo de trabalho deste atelier. Aqui, é tudo igual, mas de forma digital. Escolhe-se o tecido e o modelo, adaptam-se as medidas que vêm do cliente ao software e essas informações são comunicadas à máquina de corte. Cada peça é cortada à unidade, isto porque cada uma delas é direcionada para um cliente, logo não é possível cortar em quantidades. Uma parte do trabalho é feita pela máquina, outra pelo humano. Dividem-se as peças, identificam-se todas, com os dados do cliente, e enumeram-se. 

No terceiro piso do edifício encontra-se a sala de provas para os clientes particulares.

Cada casaco é tratado com dedicação: amaciador, crina de cavalo, linho e algodão fazem a diferença destes casacos. Esta técnica permite ao casaco ganhar a forma, a chamada caixa de peito. «Esta crina está a reagir com o calor do corpo e vai-se moldando, é por isso que, um casaco de alfaiate, quanto mais se usa, mais ajustado parece», explica Ricardo Conceição, diretor de operações.

O ritmo é acelerado. A ficha técnica, que acompanha a peça, corre a linha de produção. À medida que a peça vai passando, de mão em mão, vai ganhando forma. Montam-se os forros, depois os bolsos, os interiores e, depois, as frentes e as costas do casaco unem-se – nesta fase já começa a ter aspeto de casaco. Ao fundo da sala de produção de casacos estão os alfaiatas, como o Sr. Ernesto, que, de forma mais clássica, mais artesanal, dão os retoques finais a algumas peças. Já no piso superior (2.º andar) são produzidas as calças dos fatos. A existência desta divisão deve-se aos processos de criação serem completamente diferentes. «Separam-se. Costumo dizer que, mesmo numa indústria ‘à séria’, nunca vi casacos e calças ‘tudo junto’», diz Ricardo, em tom de brincadeira. 

Os cerca de 80 funcionários, divididos entre a produção de casacos, calças, acabamentos, verificação de material, pregar botões à mão, produzem mais de 30 peças diariamente. Duas semanas depois da encomenda, o produto será entregue. E se o cliente tiver, eventualmente, algum problema com o artigo, o Atelier des Créateurs dá assistência. Cada detalhe é fundamental. «Se a encomenda chega cá com 15.3cm terá de sair daqui com essa medida», reforça Ricardo Conceição.

Ainda no segundo piso é onde as peças são passadas a ferro e colocadas em linha de saída. Estão prontas! Peças que podem ir dos mil aos três mil euros, em função do tecido. Não tem limite. Há tecidos a custar em média 50, 60 euros o metro, e outros a custar entre 300 e 600 euros o metro. Logo, se um fato gasta, em média, três metros e meio de tecido, é só fazer as contas!

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