Eduardo Rangel

«No mundo dos negócios, a gente não pode trabalhar por dinheiro»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

Com um sorriso estampado, abriu-nos a porta da sua casa. Simples. Educado. Exímio. E sempre pronto para falar. Eduardo Rangel tem uma história, como tantos outros. Cresceu do nada, em Valadares, Portugal, mas do nada fez muito. O pai era sapateiro e a mãe costureira. O avô, agricultor, não sabia ler nem escrever, mas foi o primeiro exemplo de sucesso do neto, tornando-se numa referência profissional na sua vida. Foi ele quem o ajudou a entrar para a Alfândega do Porto. Rangel ainda guarda, com carinho, o relógio de ouro que o avô trouxe do Brasil. «E no dia da minha comunhão solene ofereceu-me», recorda. O empresário trabalhava na Alfândega como despachante, mas não se sentia realizado. Por isso mudou. Saiu desse ofício e montou um negócio, com mais três colegas. Assim criou a primeira empresa dedicada à atividade transitária. E ninguém o parou. Hoje, é o rosto do grupo Rangel, em 2000 criou a holding - uma das mais fortes do país -, incluindo todas as empresas associadas. Sonhou com muito. E tudo isso conquistou. Agora que passou parte da 'pasta' ao filho quer ver se daqui a três ou quatro anos não tem mais que se preocupar com o trabalho. Se bem que, e daquilo que podemos ver, atrevemo-nos até a dizer: Eduardo Rangel não parará! 

«Ainda hoje, continuamos a ganhar dinheiro em Angola»

Em 1980 decidiu arriscar. Criou a sua primeira empresa dedicada à atividade transitária. Não teve medo?

Por acaso é engraçado. Na minha vida empresarial, um dos momentos em que tive medo foi naquela noite em que me despedi do meu antigo patrão, para montar a minha empresa.

Trabalhava na Alfândega do Porto...

Trabalhava, era ajudante despachante. Tinha um colega, que era muito meu amigo, e eu dele, mas que eu achava que não tinha grande futuro ali, porque não era um homem aberto a novas ideias, era muito fechado. Decidi eu…

Arriscar?

Decidi. «Vou eu, você não quer ir, vou eu!» Tinha juntado algumas economias. Na altura, lembro-me de que tinha 250 contos, que não sei quanto é isso em euros, mas são uns 1000 ou 1250 euros. Naquele tempo era muito dinheiro, valia muito mais. Com esse dinheiro montei a minha empresa. Trouxe um colega lá do escritório e decidi fazer transportes internacionais e despachos. Montei a empresa na Rua da Restauração. As pessoas não fazem ideia, mas, naquele tempo, para arranjar um telefone fixo para um escritório era preciso esperar três ou quatro meses. Não havia telefones. Mas a primeira vez que abri o escritório, utilizei logo o do escritório ao lado, que era uma escola de música.

36 anos depois, como é que olha para o seu percurso? Foi sempre tudo tão fácil?

Não, mas também nada é fácil na vida. Todos os projetos para terem sucesso têm de ter dificuldades, porque se for muito fácil, não têm sucesso. Isto não é jogar à bola, pois se soubesse jogar à bola ia para futebolista, e podia ser um Cristiano e ficar muito rico, sem saber fazer mais nada. Numa empresa não, é preciso ter um espírito de sacrifício grande, é preciso trabalhar muitas horas. O sucesso de uma empresa deve-se muito à capacidade de trabalho, muito mais do que à inteligência. A inteligência é importante, mas, sobretudo, é preciso trabalhar muito. As pessoas acham que não é assim. Lembro-me de que durante muitos anos eu trabalhava o Sábado todo o dia e ao Domingo a partir das quatro da tarde. Durante a semana até às nove, dez ou onze horas da noite, dependendo do trabalho que tivesse.

Desdobrava-se...

Tinha de fazer de comercial, financeiro, recursos humanos. Fazia tudo. Ainda por cima tinha de estudar, porque eu não era um expert. Tive de aprender. Foram muitos anos a trabalhar. Quando cheguei aos 40 anos de trabalho eu tinha trabalhado 60. Isto porque trabalhava sempre 14, 15, 16 horas por dia. O sucesso está aí, não está em mais nada. Não me saiu a sorte grande. Ninguém me deu nada. Fiz tudo arrancado a ferros. Nasci a ferros!

Alguma vez já parou, olhou para si e disse: «olha no homem em que me tornei?»

No mundo dos negócios, a gente não pode trabalhar por dinheiro. Nunca tive essa aspiração. Se por acaso viesse a ser rico era uma sorte, porque não era isso que eu queria. Eu queria era ter uma empresa grande, ter muitos colaboradores, dar muitos empregos, ter muitos clientes, fazer muitos negócios. Às vezes os novos empresários acham que começam com uma empresa e vão ficar ricos. Às vezes ouço pequenos empresários que dizem: «estou a montar uma loja e vou fazer isto e depois vou fazer dinheiro e não sei quê», e eu digo: «isto não é assim tão fácil».

2000 foi um ano de viragem. Criou a Rangel Invest, SA, a holding do grupo...

Nunca trabalhei para esse tipo de objetivo. O meu objetivo era: quero fazer aqui o que eu sonho...

Fala em sonhos, que sonhos tem, ainda, para o seu grupo?

Hoje o grupo está muito diversificado. Até já vendemos produtos farmacêuticos. Temos uma parceria com uma tabaqueira, por causa do «iqos», que é um equipamento de fumar sem combustão. Temos a empresa de obras de arte. Tenho um sonho que é fazer logística hospitalar, e estamos a apostar nessa área. Claro que nos deparámos com problemas, porque nos hospitais privados é mais fácil, mas nos hospitais públicos as coisas não são assim. Depois as pessoas não têm ideia do número de interesses que se relacionam por trás. Nunca fui muito de ambientes pouco claros, embora dissessem: ah, ele dá-se muito bem com políticos, com isto e com aquilo...

Sabe separar as coisas?

Não há nenhum político que diga que me fez um favor. Posso ser amigo, conhecido, fruto até da posição que assumo hoje, na relação das empresas, na sociedade, mas não lhes peço nada. 

Foi eleito comendador, gosta de ser conhecido e tratado como comendador?

Não. Todos os políticos gostam de me chamar comendador. Para eles o comendador é uma pessoa que se assemelha mais ao político. Dever ser, para eles, mais interessante (risos).

«Não há nenhum político que diga que me fez um favor»

Os jovens de hoje estão tão preparados como os da sua era?

Não, os jovens de hoje, primeiro, não têm espírito de sacrifício. Não vamos agora inventar que os jovens de hoje em dia se sacrificam muito, trabalham muitas horas, se for preciso, e que deixam os fins-de-semana para trabalhar. Hoje é preciso muito mais. Talvez tenham outra formação. A minha formação, mesmo académica, fi-la a trabalhar.

Aliás, a Rangel começou com três pessoas...

E hoje somos 1600.

O que o levava a acreditar num projeto novo?

Se a gente não acreditar nisso então o melhor é fechar. As empresas não podem ficar paradas, portanto, sempre procurava desafios novos e acreditava, desde que tivesse a noção de que era um serviço, que tinha mercado. Também não sou louco para me meter em coisas que não tivessem futuro. A indústria farmacêutica é um fenómeno para nós, porque foi assim de um dia para o outro que começámos.

Fale-nos do desafio de Angola...

Foi um desafio curioso, porque estávamos em 2006, e havia aqui algumas expectativas sobre Angola. Sócrates, ainda como primeiro-ministro, foi lá com uma comitiva grande de empresários, eu também fui. Só que há muita gente que nunca fez nada e outros iam com a intenção de fazer coisas, como eu. O nosso projeto em Angola nasceu pela ambição de expansão do grupo. Angola, nessa altura, estava bastante bem. Ainda hoje, continuamos a ganhar dinheiro em Angola. Claro que temos dificuldade na transferência de divisas, e outras dificuldades mais específicas, mas de resto, a nível de funcionamento, continua a funcionar bem.

E como surge Moçambique, em 2011, nos seus planos?

Quando entrámos em Moçambique, não teve o mesmo volume de Angola. Moçambique era diferente, nós entrámos não com a área da logística, mas só com área de transporte internacional e aduaneiro. Temos uma organização mais pequena e temos desafios para fazer mais.

«Sou muito mais importante como Eduardo Rangel do que como comendador»

Sente mais orgulho quando o tratam por Sr. Rangel?

Ah sim. Não quero que a minha imagem seja ofuscada pelo facto de ser comendador. Sou Rangel e sou muito mais importante como Eduardo Rangel do que como comendador, porque comendador é um reconhecimento que agradeço, e me foi dado pelo Cavaco Silva, mas é um reconhecimento com base no que fiz.

Custou-lhe passar a ‘pasta’?

Não é uma coisa fácil. A gente está sempre com aquele anseio de que quem nos sucede não é capaz de fazer como nós, de fazer o mesmo. É evidente que tenho a vantagem de ter um filho que se encaixou no modelo de gestão. Só é sucessor, não porque é meu filho, mas sim porque tem qualidades.

As pessoas olham para si como o rosto daquela empresa...

Eu sou o sábio do assunto.  Eles pensam: «ele estava lá, ele montou isto, logo deve saber melhor que ninguém, como se faz». Por isso quando o Nuno diz alguma coisa, procuro não dar a minha opinião sobre o assunto, mesmo que seja importante, porque assim obrigo o Nuno a participar. Ainda estarei por aqui mais três ou quatro anos.

E depois desses três ou quatro anos... a que se vai dedicar?

Viajar mais. Viajei tanto na minha vida, mas nunca vi nada. Há cidades a que fui, entrei por uma porta e saí por outra. Gostava de as ter visto.

Já escreveu um livro: A Legislação Europeia e a Legislação Nacional.

Era a integração, na altura, na Europa. Foi um livro que, durante anos, foi uma bíblia nas alfândegas. Houve funcionários, críticos, polémicas e atritos, porque ninguém aceitava que eu é que era o cérebro daquilo.

O que mudou nas leis desse tempo para o de agora?

Às vezes até fico desanimado, porque acho que há tantas coisas não legisladas! Continuo a achar que a Europa se meteu numa grande encruzilhada, e, no meu ponto de vista, da libertação de mercadorias, dos processos, etc., porque criou o código aduaneiro comum, que é a legislação comum para todos os países da Europa. E os países não são todos iguais. Enquanto na Alemanha um funcionário da alfândega tem um diploma, faz uma análise transversal e sabe distinguir o que é importante do que não é, às vezes, em Portugal, na Espanha, levam aquilo à linha, não sai do sítio, porque a mesma lei feita para um alemão não serve para um português. Eles estão a tentar manter a união aduaneira sem sair da Europa, porquê? Porque, de facto, as alfândegas, não quero dizer todas, têm muitos funcionários que são práticos, são objetivos, e outros que não são. Mesmo as leis feitas hoje são piores do que as que li em 80.

Negócios e políticas à parte, o que faz o Eduardo Rangel nos tempos vagos?

Agora tenho muitas preocupações. Neste momento tenho três netos e gosto de estar com eles um dia por semana. É uma das minhas diversões. Depois ando nas preocupações do trabalho, obrigam-me, ainda, a fazer leituras de dossiês, com algum volume. Também passeio por aqui, esta zona é muito bonita (Foz do Porto). Saio com os meus amigos, outras vezes vou passear a pé.

É um lifestyle?

Gosto muito de socializar. Sinto-me bem.

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