Tanoaria Josafer

A arte do saber construir barris

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©Daniel Camacho

Alguma vez se questionou como são feitos os barris do Vinho do Porto? À primeira vista parece uma coisa simples, mas não é. O processo de fabrico dos famosos pipos ‘tem muito que se lhe diga’. O primeiro passo é comprar a madeira de castanho bravo, sobretudo das zonas altas de Portugal, Serra da Estrela. Vai-se ao local, observa-se a floresta, analisa-se e avança-se para a compra. Depois, extrai-se a madeira, leva-se para o estaleiro, fica a secar vinte e quatro meses, apanhando sol e chuva e, posteriormente, corta-se a mesma por medida, sendo serrada em aduelas, na serração (a madeira com 80 centímetros dá para fazer pipos de 100/125 litros, e a madeira de um metro dá para pipos de 225 litros). 

Exportam para Holanda, Bélgica, Alemanha, Escócia, China, Tailândia, Japão, Índia.

Depois de cortadas à medida, as aduelas, avança-se para o segundo passo: limpar e dar formato redondo às aduelas, na parte superior e inferior. A terceira fase é ‘esquibir’ (juntar a madeira): pega-se na aduela, que está direita, e dá-se-lhe ‘chanfro’, para que ela comece a formar uma circunferência. Depois, passa-se à etapa seguinte, que é parear a madeira (com 30 aduelas, todas devidamente identificadas por número): o pipo nunca pode ser feito com aduelas da mesma largura - não vai ficar uniforme, nem redondo -, logo, tem de levar sempre uma aduela mais larga, seguindo-se uma mais estreita. Desta forma, obtém-se o corpo do barril (as aduelas por número), e os tampos, à parte (são aduelas mais largas). Depois, pareia-se com um arco de molde e começa-se a levantar aduela por aduela, dando uma forma de cone ao barril... Vai-se molhando a madeira, com um esguicho de água, leva-se à fogueira para aquecer, e o calor e a água farão a moldura na madeira (com a ajuda de uma corda de aço). Lentamente vai-se formando o arco, até o pipo fechar completamente. Amassam-se as aduelas, por dentro e por fora, com a ajuda de uma marreta... BUM, BUM... são os sons que se ouvem!

Terminando, o pipo é arrunhado: faz-se um rebordo para encaixar o tampo, depois vai à máquina e começa-se a rapar/limpar a madeira; leva o tampo, cravam-se os arcos novos, e, de seguida, o pipo vai à água, a 80ºC, para verificar possíveis fugas. Após tudo isto, escoa-se a água, seca-se e é polido. Et voilà, está pronto! 

Hoje, o segmento de negócio é direccionado para a decoração e para a indústria de estilheira. 92% da produção é para exportação.

Esta é a explicação que ouvimos dos irmãos, Sandra Fernandes e Filipe Octávio Fernandes, que nos receberam na sua tanoaria, em Esmoriz, no concelho de Ovar. A tanoaria Josafer – que se dedica à produção das famosas pipas de barricas, onde é colocado o vinho a estagiar – foi criada em 2012 pelo pai de ambos, que mais tarde deu sociedade aos filhos. Mas foi nos anos 60 que tudo começou, naquele mesmo lugar. O avô deste jovem casal de irmãos, Joaquim Dias Ferreira, trabalhava numa das 40 tanoarias existentes na freguesia, que já funcionava desde os anos 20.

À data, chegavam a trabalhar, na mesma empresa, pais e filhos (isto porque não tinham salário e eram pagos à peça). Esmoriz vivia o auge na produção de barris. Salazar, em tempos de guerras, de Angola e Moçambique, sabia da necessidade dos barris para transportar o vinho para os combatentes. Quase todos os barris eram fabricados em Esmoriz, numa tanoaria da qual hoje apenas restam as ruínas e onde trabalhavam 600 funcionários. Após o 25 de Abril, o avô foi adoptando o conhecimento e resolveu criar uma empresa do mesmo ramo, juntamente com outros colegas. E assim cria a tanoaria junto à estrada, onde ainda hoje se encontra o espaço. De todas as tanoarias existentes na região, daquela época, hoje apenas duas delas estão em funcionamento, e uma delas é esta que viemos conhecer.

Muitas crises atravessaram. O avô deu a sociedade da empresa aos dois filhos. Produziam, sobretudo, no inverno, para vender na altura das vindimas. Havia anos fabulosos, vendiam a revendedores, que depois vendiam nas feiras em Portugal, por todo o país e na zona das Astúrias, em Espanha. Com o fim da guerra deixou de haver o mesmo poder de comprar, as caves do Vinho do Porto deixaram de fabricar, passou-se a fazer mais reparações de pipas usadas. Passaram a existir as cubas de inox (mais uma crise para o ramo da tanoaria). Com o negócio já nas mãos do pai de Sandra e Filipe (Filipe trabalha na empresa há dez anos, e é o responsável de Produção e Vendas; Sandra está há dois anos e é a responsável de Recursos Humanos e Marketing), a tanoaria teve de se reinventar. Procuraram um mercado onde pudessem internacionalizar a empresa, e assim começaram a vender para Inglaterra, em 1994 (produzindo pipos para decoração, como os garden center). Em 2005 o negócio expande para a indústria de Whisky. «Os escoceses consideram que as pipas usadas de Vinho do Porto são de extrema qualidade. Andaram a abastecer-se, durante muitos anos, em Gaia, nas caves, mas isso acabou. Então começaram a ter necessidade de comprar a tanoeiros». 

Em 2012 mudam o nome da empresa, passa a designar-se Josafer (nome do pai, José António Fernandes).

E os jovens irmãos não desistem do sonho de criar uma tanoaria mais desenvolvida tecnologicamente. Revelaram-nos até que, em pequenos, lhes diziam: «vocês estudem, vão para a escola e sejam doutores, pois a tanoaria vai acabar», mas, ambos quiseram incorporar a equipa desta casa e dizem não estar «arrependidos».

Unicamente sentem tristeza quando pensam que podia haver mais união entre as empresas de tanoaria existentes no país, pois «se nós tivéssemos um equilíbrio, se todos lutássemos pelo mesmo, creio que a tanoaria em Portugal estaria mais acessível, mais forte, mais equipada», realça Filipe.

Neste momento têm 13 funcionários. Por dia produzem cerca de 40 pipos. O trabalhador mais jovem tem 38 anos e o mais velho tem 66. Como precisam de mão-de-obra qualificada e não há muitos jovens a querer trabalhar este ofício, são obrigados a manter trabalhadores já reformados. «É um facto que antigamente isto era muito, muito pesado, e continua a não ser um trabalho leve, mas já adquirimos muita maquinaria que facilita e, claro, daqui a dez anos, a meu ver, um tanoeiro vai ganhar o dinheiro que quiser, dois ou três mil euros», enfatiza Sandra.

Sandra e Filipe cresceram aqui, no meio da tanoaria. Filipe procura estar a par do avanço da tecnologia, faz viagens a negócios, pois quer evoluir empresarialmente. Até há cinco anos o chão da tanoaria era todo em paralelos, «lembro-me de ser miúda e ainda havia poças de água aqui dentro, terra batida», recorda Sandra. Contou-nos, ainda, que a Josafar foi incluída no núcleo museológico de Ovar - que tem uma série de locais que se podem visitar. A Josafer também recebe visitas guiadas na Tanoaria. O grande desejo destes jovens empresários é a possível criação de um museu, em tempo real, na freguesia.

Isto é uma arte! 

Sandra Fernandes, esquerda; Filipe Octávio Fernandes, direita

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