André Jordan

«O país merece um ministro de muita categoria para o turismo»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

Não foram precisos muitos segundos para observar a beleza humana deste homem. É detentor de uma inteligência única. Um dos maiores conhecedores de Turismo, em Portugal e no Mundo. André Jordan, Chairman do André Jordan Group, cujas linhas no rosto expressam a sua sabedoria, é reconhecido como o ‘Rei do Turismo em Portugal’ e o ‘Pai da Quinta do Lago’. Recebeu-nos no Belas Clube de Campo e, de forma singela e simpática, falou-nos da vida, do turismo, dos seus países e dos seus amores. Autointitula-se meio polaco, meio brasileiro e meio português, contudo, é um homem completo. A Polónia viu-o nascer, o Brasil acolheu-o   si e ao seu pai, e Portugal foi o destino que escolheu para passar a sua vida, desde 1970. A vida viu-o concretizar vários projetos. Nela, não mudaria nada, apesar dos erros cometidos. E o que é que a vida tem de melhor? «Viver é um milagre», nas suas palavras. Gosta das pessoas que ama e das que gostam dele. No passado, lia livros de ficção, agora lê sobre política e biografias, e gosta de se manter informado. Caminha, nada, faz ginástica e adora estar com os filhos e netos. E porque fala com a Lua? – «Porque ela é o astro dos amores».

«Os portugueses são gente boa»

A sua vida foi dividida entre três países (Polónia, Brasil e Portugal). Se pudesse voltar no tempo, o que mudaria em cada um deles?

Isso é uma pergunta muito profunda. Diria que não teria a capacidade de mudar nada, porque mudar a natureza dos povos é muito difícil. Às vezes até brinco dizendo: Portugal muda, mas os portugueses não mudam.

Então o problema está nas pessoas?

As pessoas não mudam, tendem a manter as suas características. Por exemplo, aconteceu muita coisa em Portugal, para acabar ou diminuir a burocracia, mas continua tudo igual. Agravado pelo facto de que, em regimes consolidados, há uma autoridade central, e, agora, nesta última fase da democracia portuguesa, nos últimos 20 anos, não tem havido muita autoridade. Cada pessoa que chega a um lugar tem a sua própria política, não quer saber o que era antes e o que será depois.

O senhor André Jordan é conhecido como o ‘Rei do Turismo em Portugal’ e como o ‘Pai da Quinta do Lago’. Gosta de ser reconhecido como tal?

Admito que tenha contribuído para a criação de um padrão, de uma referência de qualidade, não propriamente ser o ‘pai’, mas ter fixado um patamar de qualidade que penso que tem muitos reflexos: no golfe, na restauração, no planeamento urbano e na promoção. Para ser o ‘pai’ é preciso encontrar a mãe. (risos)

No n.º 1 da Villas&Golfe, há 16 anos, o senhor André afirmava: «Não existem situações desesperadoras, existem cavalheiros que se desesperam». Hoje, ainda pensa assim? O André Jordan nunca desespera?

Não, não desespero, porque é assim: ou a situação é feita pelo homem, causada por alguém, e há sempre uma maneira de se consertar, ou de confrontar a situação; ou então é da natureza e não há nada a fazer. Quer dizer: assiste-se agora às inundações, na Flórida e no Texas, por exemplo, e não há nada a fazer. Enquanto a chuva não para e as ruas não desafogam, não podemos fazer nada. Não adianta desesperar. Pelo contrário, quanto mais a gente mantiver a calma, mais hipótese há de confrontar a situação.

Sabemos que veio para Portugal em 1970.  Não mais largou este país. O que o prendeu, e ainda prende, aqui?

Acima de tudo as pessoas. Os portugueses são gente boa. Gente correta, generosa, com sentimentos; não são muito de dinheiro, porque normalmente os portugueses são económicos.

Gosta de trabalhar em Portugal?

Não é fácil trabalhar aqui: pela burocracia, pelo exercício da pequena autoridade, não é fácil, mas as pessoas são honestas. E temos esses casos excecionais, que têm acontecido nestes últimos tempos, de grande corrupção, seja do sector público ou privado.

Em Portugal um aperto de mão ainda prevalece?

Ainda, e não só. Os brasileiros vêm para cá obcecados com a segurança, como eu vim. Recentemente começámos a ter clientes brasileiros e enfatizávamos a segurança, mas não foi preciso porque eles rapidamente descobriram que Portugal era seguro. Nunca fui assaltado, nem aqui, nem em lado nenhum, mas, como já tenho dito, não é chique em Portugal ser bandido e desonesto, fica mal socialmente. 

«É fundamental que o turismo esteja na mesa das decisões»

Desde que cá chegou, até ao momento, o que é que mudou no turismo português?

Tem havido uma grande evolução. Vou começar pelo que não mudou: ainda não houve o reconhecimento da importância estratégica do turismo para a economia e para a sociedade portuguesa. Tivemos recentemente pessoas no turismo, em Portugal, e no governo que não tinham a menor noção do que se tratava.  Tem gente que está lá uma semana e pensa que já sabe fazer tudo. A evolução foi quase espontânea; o investimento foi praticamente todo privado; o que houve de mais importante, e venho dizendo há décadas, foi o Portuguese Style – é simples, é despretensioso, é confortável e elegante, e é de bom gosto. Há pessoas que não gostam, vão para o Dubai, Ibiza, mas os que gostam de uma vida elegante e tranquila, de comer bem, de ser bem tratado, adoram Portugal. Todas as coisas que eram criticadas, mesmo pelos estrangeiros, agora são a fonte do sucesso.

Se, neste momento, por uma força maior, tivesse de escolher um país para passar o resto da sua vida, qual seria a escolha?

Não preciso de ir, nem vou a lugar nenhum, estou lá.

Veio para ficar...

Vim para ficar, e é aqui que vou estar. Comecei, agora com a idade, a pensar para onde é que quero ir no fim. A minha mãe foi cremada (uma prática bárbara), o meu pai está num túmulo, no Rio de Janeiro – o cemitério está no sítio mais feio do mundo, não tem uma árvore. Então pensei: lá também não quero. Passei metade da minha vida no município de Loulé. Fui feliz. Então quero ficar aqui, mas, então, entrou a burocracia. Fui falar com o Presidente da Câmara, depois com o Presidente da Junta, mas havia um problema: o cemitério estava lotado e a extensão em construção estava em litígio com o empreiteiro. Passaram uns quatro anos, finalmente, encontraram um túmulo para mim. Assinámos o contrato. Pedi a um arquiteto meu amigo para desenhar um túmulo, onde coubessem sete pessoas. Uma coisa simpática, moderna, tranquila, nada exuberante, com uma cúpula transparente em cima.

O senhor Jordan é um homem com um conhecimento surpreendente sobre turismo – palavra esta que tanto anda na moda. Que turismo temos em Portugal?

É indiscutivelmente o seguinte: Portugal precisa, a economia portuguesa precisa do turismo, e precisa do turismo também que vem colado ao imobiliário. O turismo é essencial, não há uma estratégia coordenada no sentido de fixar o turista. A estratégia passa por eventos, por atracões regulares, para além de ‘visitar’. Não há promoção coordenada entre os empresários – tinham de se juntar em grupos para fazer programação de eventos regulares e promoção internacional, todos os anos –, em toda a Europa há isso.

Como é que a pessoa vem a Lisboa e não tem um sinal dos Descobrimentos, não há nada da História? E as pessoas reclamam porque é uma coisa que elas sabem sobre Portugal. Temos de ter um Conselho Estratégico, de Promoção Turística, não executivo, mas sim consultivo, composto de pessoas, que não são do sector, mas que são interessadas pelo sector e têm grande experiência. Por exemplo, há um senhor, Ricardo Monteiro, que era Presidente da Agência Havas – uma das maiores do mundo – e que adora o turismo. E há o Carlos Melo Ribeiro, antigo Presidente da Siemens, também um entusiasta sobre este tema como sendo fundamental para o desenvolvimento de Portugal, além de estrangeiros como o Jean-Claude Baumgarten, ex-Presidente do World Travel & Tourism Council – WTTC, um organismo que reúne as principais empresas do mundo nesta área. Com ele criámos a Cimeira Mundial de Viagens e Turismo, que junta os grandes empresários do sector com as autoridades governamentais do Turismo de tudo mundo. O primeiro evento foi em Portugal e hoje é o principal fórum do turismo mundial, acontecendo a cada ano em outro país, com o apoio da UNWTO.  É fundamental que o turismo esteja na mesa das decisões. 

«O alojamento local foi uma falha de coordenação de interesses»

Com este boom turístico, o turismo de qualidade também passa pelo Alojamento Local?

O Alojamento Local foi uma falha de coordenação de interesses, pois deveria ter sido negociado entre três partes: o turismo em si, o sector imobiliário e o sector turístico. Uma coisa que eu sugeri, e que agora estão a mudar, é o facto de o Alojamento Local ter de pagar um pouco mais de condomínio do que o residente permanente. Isso já atenua muitas coisas. Enfim, tem de haver regras.

Mas, por exemplo, há muitas reabilitações que estão a ser feitas sem grande qualidade. O erro está em não haver quem controle?

O lobby dos construtores conseguiu do Governo a liberalização das regras normais de segurança. Há projetos com qualidade, mas alguns aproveitam-se do grande aumento da procura, o que pode causar problemas. 

Portugal é cada vez mais seguro, estável, tem um excelente clima, resorts, campos de golfe... No seu entender vai continuar esta procura excessiva no ramo imobiliário e turístico?

Portugal teve, realmente, as suas virtudes descobertas: paz, clima, segurança e boa comida. Precisaremos de empreendimentos na medida em que os estrangeiros, que vieram inicialmente só pelo Turismo, vêm agora também pelos negócios. É uma coisa para a qual esse tal conselho estratégico deveria olhar e deveria aconselhar como fazer. Deveria haver escritórios de apoio para empresas que se transferem para Portugal, de forma a ajudá-los a integrar-se. Vai haver mais construção, mais procura de empreendimentos. Vejo, por exemplo, no Arco Sul do Tejo, uma potencial zona de desenvolvimento de empreendimentos.

Recentemente lançou o Lisbon Green Valley, no Belas Clube de Campo.  É um projeto especial?

Temos aqui um clube de campo, que oferece lazer e habitação e está a 15 minutos do centro de uma capital (Lisboa). Não há no mundo nada igual. Eu próprio morei cá, fui para Lisboa e, agora, estou a voltar. Aqui não há poluição, não há barulho, e é muito perto.

Esteve envolvido na construção de vários campos de golfe. Temos bons campos de golfe ao nível mundial. Ainda assim, estão centrados no Algarve e em Lisboa.  Não devíamos estender os campos ao nível do país, por exemplo, no interior?

Não. Vou explicar porquê. No Algarve, 90% dos golfistas são estrangeiros, e, em Lisboa, 10% são estrangeiros. Há muito poucos nacionais. Infelizmente não tem havido a união dos promotores com o Estado e com a Federação do Golfe para desenvolver o golfe nacional. No interior não há jogadores, e os turistas não vão para um lugar que tenha um único campo, querem jogar em vários campos centrais. Para haver, tinha de existir uma cultura de golfe, que não existe.

Na vida, como no golfe, sempre deu as tacadas certeiras?

Não. Dei tacadas em mim próprio. Cometi muitos erros. A gente, para estar certa, também tem de estar num estado emocional que permita o raciocínio funcionar. (risos)

O que nem sempre acontece?

Nem sempre. Quando vim para cá, depois de uma vida atribulada e da morte do meu pai, o turismo já existia, já começava a ter sucesso. Eu contribuí também para que os empreendimentos turísticos do Algarve não fossem nacionalizados. Naquela altura, propusemos ao Governo um plano para apoiar os empreendimentos, para sobreviverem e não serem nacionalizados. O Governo aceitou, mas depois os sindicatos e os bancários quiseram apoiar o plano, mas exigiram que as administrações fossem postas na rua.  Para salvar o empreendimento e os empregos então fomos para a rua. Elaborámos uma procuração da administração da nossa empresa para a comissão de trabalhadores gerir a empresa, porque senão a empresa afundava por falta de receitas. Uns anos depois, fomos chamados para retomar. Salvou-se o turismo.

É um homem de centro esquerda. O que acha da ‘geringonça’?

Sou social democrata; sou a favor da livre empresa, e ao mesmo tempo de medidas de apoio social. Acho que a ‘geringonça’ é um recurso político que veio incorporar o arco do poder. Dois partidos influentes, mas sem capacidade de aceder ao mesmo. Porém, sou a favor de um acordo geral, com todos os partidos, de um programa nacional de desenvolvimento e consolidação económica. A política ideológica morreu, acabou, tanto assim que nós elegemos um Presidente pós-ideológico. O Marcelo é o primeiro Presidente do Mundo que, mesmo que tenha ideias ideológicas, abandonou-as por razões práticas. Ele é um exemplo, curioso e inesperado, de um político pós-ideológico. 

De um lado, temos o homem com preocupações sociais, do outro lado temos o empresário. Como é que ‘gere’ as ideias políticas?

Já tive situações de estar num jantar ou almoço – por exemplo, da eleição do Mário Soares e do Diogo Freitas de Amaral, de quem fui e sou amigo – e todas as 40/50 pessoas serem a favor de Freitas de Amaral e, quando eu disse que era Mário Soares, o mínimo que disseram foi «Você não é português». Ficaram todos furiosos, só faltou expulsarem-me. Há pessoas, do meu sector social, que são muito da direita e muito conservadoras, e acham que qualquer pessoa que não é assim é comunista.

Não é verdade?

Não, claro que não. Sempre fui muito independente.

Acredita que o turismo em Portugal continuará a ser a principal atividade / receita económica do país?

Já é. Não é reconhecido. Podemos ter as novas tecnologias, as indústrias, como as dos tecidos, dos sapatos, etc., a contribuírem para a economia do país, mas a única atividade que pode gerar realmente grande volume de receita é o turismo e o imobiliário turístico.

Que medidas devem tomar o Estado e os empresários?

Depende de uma maior coordenação de estratégia entre o Estado e o sector privado, de analisar, com muito cuidado, o lado fiscal, para ver que medidas se podem tomar, sem prejudicar o país. O país merece um ministro de muita categoria para o turismo.

Concorda com a taxa aplicada em Lisboa aos turistas? Também querem implementar no Porto. No seu entender, deveria abranger o país?

Concordo. O país inteiro não interessa porque, fora Lisboa, Porto, Algarve, Madeira e Açores, não há receita.

Foi a favor?

Fui. Era do Conselho Consultivo da Associação da Hotelaria de Portugal, quando Fernando Medina foi lá propor a taxa. Houve uma grande gritaria, toda a gente a dizer que era contra, mas o Medina ouviu, ouviu e quando chegou ao fim disse: «Ah, mas eu vou aplicar a taxa de qualquer maneira». Tem sido um sucesso gerido por um grupo composto pela Câmara, o Turismo de Lisboa e a AHP.

Já foi galardoado com prémios de melhor Promotor Imobiliário Turístico. É um homem orgulhoso do seu percurso. Algum prémio o marcou mais?

É uma boa pergunta, nunca ninguém ma fez. O Presidente da Câmara de Loulé deu-me uma medalha de ouro de Loulé e disse-me: «Isto para si não quer dizer nada, você tem tantos prémios». Respondi: «Ser reconhecido pelo povo deste lugar… acha que não me diz nada?» Claro que sim. Cada prémio tem o seu valor. Eu adoro recebê-los.

O que é que a vida tem de melhor, no seu entender?

Viver é um milagre. Viver a vida com todos os seus lados bons e maus, mas o melhor mesmo é o amor. O amor inclui a amizade, porque amizade é uma forma de amor. A gente quando chega a certa altura da vida dá muito valor. Dou muito valor às pessoas de quem eu gosto, que eu amo, e que gostam de mim.

Que livros gosta de ler?

Sou um leitor compulsivo, mas há muitas décadas não leio ficção. Li, na minha juventude, toda a ficção inglesa, francesa, alemã, brasileira e americana. Leio muitos livros sobre política, biografias e sou viciado em informação. Leio jornais, leio revistas, vejo na internet, vejo a televisão, tenho de saber tudo. Sei mais da vida do Trump do que ele. (risos)

Ocupa assim os seus dias?

É uma das coisas principais. Passo muito tempo sozinho e se não tiver informação fico nervoso. Adoro caminhar, adoro nadar, faço alguma ginástica, converso e estou com os meus filhos e com os meus netos.

Última. Também na 1.ª entrevista à Villas&Golfe foi-lhe questionado: «O que sentiria André Jordan se estivesse sentado sozinho na Lua a ver a Terra no céu?». Hoje, o que responderia? Como olha para o Mundo, para a Terra?

O que é que eu respondi na altura?

A sua resposta foi, passo a citar: «A Lua está dentro de mim»

Oh, que bonito!, mas, eu falo com a Lua, porque ela é o astro dos amores.

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