Piedad y terror en Picasso: El camino a Guernica

A obra-prima nascida da tragédia espanhola

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia ©Joaquín Cortés/ Román Lores

Guernica, 26 de Abril de 1937. Era dia de mercado e a cidade basca fervilhava de gente. Espanha estava a braços com uma guerra civil que opunha nacionalistas e republicanos. Por isso, quando o sinal de alerta de bombardeamento irrompeu no ar, todos procuraram abrigo. O que se seguiu foi, no mínimo, maquiavélico. Um solitário bombardeiro largou as suas bombas e desapareceu. E quando, pouco a pouco, os civis saíam dos seus refúgios, uma nova vaga de bombardeiros investiu sobre a população. Foram detonadas 40 toneladas de cargas explosivas, incendiárias e de fragmentação, enquanto outros aviões metralhavam os que, em total pânico, tentavam escapar.

O ataque da Legião Condor alemã, que contou com a ajuda da Aviazione Legionaria italiana, tinha o nome de Operação Rügen. Na altura, as autoridades falaram em 1654 baixas e 889 feridos. Contudo, recentemente, investigadores garantem terem sido, no máximo, 300 vítimas. Em todo o caso, o bombardeamento de Guernica foi algo nunca visto no Ocidente, com a matança a servir de teste aos bombardeamentos aéreos que viriam a acontecer durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

PICASSO | MANDOLINE ET GUITARE (MANDOLINA Y GUITARRA), 1924


\\ Fotografia ©Sucesión Picass. VEGAP,2017

PICASSO | BUSTO DE MUJER CON SOMBRERO DE RAYAS, 1939


\\ Fotografia ©Sucesión Picass. VEGAP,2017

PICASSO | FIGURAS AL BORDE DEL MAR, 1931


\\ Fotografia ©Sucesión Picass. VEGAP,2017

Mas antes da tragédia, em Janeiro do mesmo ano, Pablo Picasso recebeu uma encomenda por parte do Governo da II República de Espanha. Queriam uma peça para integrar a Exposição Universal de Paris, em França. Consta que, à época, o pintor estava a atravessar uma época de jejum criativo, que viria a reverter-se após os acontecimentos em Guernica.

Profundamente tocado pelas imagens da tragédia espanhola que fizeram capa de muitos jornais, o artista decidiu transpor para a tela a sua repulsa pelos conflitos bélicos. Guernica começou por ser um quadro grande (de 349,3cm de altura por 776,6cm de largura) para se tornar num grande quadro.

A 4 de Julho, depois de estar trancado no seu atelier por um mês, Picasso mostrou ao mundo a sua obra maior. O próprio viria explicar que Guernica «não é uma pintura de bom gosto para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra um inimigo terrível chamado fascismo».

Foi por esse motivo que, respeitando o desejo do autor, a obra só viria a ser devolvida a Espanha quando o ditador Francisco Franco morresse e a democracia fosse restaurada, em 1981.

80 anos depois da criação do quadro, o Museu Reina Sofia, em Madrid (Espanha), organizou uma grande exposição sobre a obra de Pablo Picasso, que coincidiu com os 25 anos da chegada da obra.  «Piedade e terror em Picasso: o caminho até Guernica» – Piedad y terror en Picasso: El camino a Guernica – terminou no início de Setembro. A mostra levou ao público cerca de 180 obras do artista, da colecção do museu e de mais outras 30 instituições de todo o mundo, como o Museu Picasso e o Centro Georges Pompidou, de Paris; a Tate Modern, de Londres; os museus de Arte Moderna e o Metropolitan, de Nova Iorque; entre outros, assim como da colecção privada de Claude Ruiz-Picasso.

A exposição narrou o caminho criativo que resultou no Guernica, revelando a metamorfose de Picasso (1881-1973) na iminência da guerra e do nazismo. O conflito viria a marcar de tal forma o pintor, que se pode dizer que existia um Picasso antes e depois do bombardeamento que deu mote ao quadro.

PARTILHAR O ARTIGO \\