Paulo Ossião

Além do olhar

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Direitos Reservados

Pedimos-lhe para se descrever. Em poucas palavras confessou: «Sou muito igual a todos. Procuro no quotidiano sentir a realidade e autenticidade das coisas simples. E, por vezes, vejo-me a viajar num tempo diferente, num mundo que me obriga a parar para pensar, e talvez imaginar, ou sonhar, o que existe do outro lado desta superfície...». Paulo Ossião procura a envolvência das formas e das cores para criar obras de arte. Gosta do seu trabalho, que nunca está acabado. É uma «feliz insatisfação!», nas suas palavras. Gosta de pensar numa árvore plantada no meio de um deserto... «Estranho! adoro árvores, mas existem poucas nas minhas aguarelas...», reflecte. «Não serei eu complicado, mas, sim, o sentido das coisas?!...», acrescenta o artista. Não sabemos. Contudo, nesta edição fomos conhecer um pouco mais de si e do seu trabalho em aguarela. 

Vários livros já foram ilustrados com aguarelas de Paulo Ossião.

O mundo das formas e cores que nos rodeia, e as pessoas no seu quotidiano: nas esplanadas, na intimidade, as silhuetas, os segredos e a cidade, são a inspiração de Paulo Ossião na hora de criar. «Existirá um equilíbrio nas transparências e cores – expressões que a pintura com aguarelas nos poderá provocar?!...», questiona o artista, um dos rostos nacionais portugueses que trabalha a técnica em aguarela. Para ele todos os artistas o inspiram. Desde jovem visitava museus e exposições. Sempre procurou sentir, conhecer, perceber o que existe além do olhar. Perguntamos-lhe: «Porquê a aguarela?» Porque a aguarela o fascina e tem uma capacidade atractiva (um fascínio das transparências), o branco do papel, a simplicidade.

A técnica de produção de Paulo Ossião implica «a luta constante com os papéis, a confusão entre pincéis, água, misturas de tintas, secar, molhar, raspar, pensar, deixar-se envolver, sofrer, viver, irritar-se, usufruir». O pintor utiliza isto tudo. Mas sempre com o desenho, um desenho inicial.

Paulo frequentou a Faculdade de Belas Artes. Teve como professor Lagoa Henriques. Não terminou o curso. Na altura, também trabalhava como funcionário público. Por isso, não conseguiu conciliar as coisas. Contudo sempre foi criando. A sua primeira exposição colectiva foi no ano 1981, no Palácio Foz em Lisboa, onde lhe foi atribuída uma menção honrosa. «Para grande surpresa minha», diz. Desde essa altura, dedicou-se a viver a pintura «os 365 dias do ano».

No início da sua carreira artística, chegou a produzir dois, ou três, trabalhos a óleo, com materiais que a sua mãe também usava – ela gostava igualmente de pintar. Mas sempre foi a aguarela e o desenho a carvão e a grafite que o fascinaram.

Paulo pretende que quem vê as suas obras «se procure também identificar na forma de sentir as coisas, ou se reveja, e, no fundo, se sinta bem com elas». O artista já expôs as suas obras em exposições internacionais: Londres, Dublin, Belfast, Antuérpia, Haia, Bruxelas, Luxemburgo, Viterbo, Paris... sempre sentindo o desafio. Os mundos são parecidos, mas diferentes, por isso, Paulo tenta «tocar as pessoas» de realidades diversas. A sua primeira exposição individual foi numa pequena galeria – que já não existe –, em Cascais. «Acho que fiquei doente, de tanta expectativa», diz-nos o autor. Agora, já lhe têm dito: «já não tens razão para estar nervoso...», mas enfim... «a responsabilidade é sempre maior, uma nova exposição ‘deverá’ sempre ser diferente». Neste momento, tem em exposição, na Galeria AP’ARTE, no Porto, até 6 de Janeiro, várias pinturas e esculturas.

É na procura pelo sentir, pela expressão do traço, pela vibração da cor, do claro e escuro, que Paulo transmite sensações.

PARTILHAR O ARTIGO \\