Entre a Verdade e a Mentira

Bagão Félix

Economista

Estamos num tempo em que a verdade é suplantada pelas múltiplas formas da mentira: a meia-verdade, a notícia falsa, o rumor, o exagero, a incoerência, a agora chamada pós-verdade e outras formas capciosas de falsificar a fatualidade. Para além destas, há a mais insidiosa forma de eliminar a verdade fatual, não a negando, mas omitindo-a. O silêncio que transporta é, não raro, uma forma sibilina de esconder, falsificar, suprimir, reduzir o que se passa.

A omissão deliberada ou consentida em meios de comunicação social tem-se revelado cirurgicamente como uma forma perversa e não democrática de «fazer notícias» ou «alinhar noticiários». Em liberdade, não há lápis azul, mas há esta poderosa forma de censurar sem lápis, num aparente jogo democrático de escolhas, subliminarmente ditatorial, preconceituoso, covardemente anónimo e não escrutinável quanto à decisão (e decisor) da omissão.

Aparentemente, estamos perante uma contradição. Há mais informação, a notícia corre célere, a imagem documenta até em excesso, e, todavia, o boato e o rumor florescem, a cada instante, em toda a parte e convivem bem com a sociedade de informação. O boato refugia-se no anonimato, forma perversa de (a)responsabilidade. O boato tem a força que resulta de ser informe, insidioso, larvar. Por isso, o seu desmentido perde no confronto, porque, ao contrário, tem de ser rigoroso na forma e exigente na substância. O rumor é o mensageiro da mentira, da insinuação torpe, da meia-verdade, sem rosto. Veja-se o que por aí vai nas redes sociais, onde se junta o progresso social do seu benefício com o retrocesso ético do seu malefício. Como escreveu Jean Cocteau «Uma garrafa de vinho meio vazia está meio cheia. Uma meia mentira nunca será uma meia verdade».

A verdade é uma prova de fundo, uma espécie de maratona na nossa consciência. A mentira é uma modalidade de velocidade rápida, quanto muito de meio-fundo, às vezes perigosamente de estafeta. O problema é que, não raro, ganha na secretaria o que perde na corrida. Sobe ao pódio, escarnece da verdade e recebe medalhas de ouro.

A mentira é, agora, uma espécie de nova especiaria comportamental. Lamentavelmente…

 

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