Maria do Céu Quintas

«Não podemos ver o país por igual»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia ©PMC

Não! Não! Não! Assim lhe exige que seja o papel profissional que assume. Sentada na secretária onde, muitas vezes, o «Não» soa mais alto do que a vontade de dizer «Sim», Maria do Céu Quintas, Presidente da Câmara Municipal de Freixo de Espada à Cinta, conversou connosco sobre a sua passagem por Moçambique, terra onde nasceu, e de onde guarda belíssimas lembranças, e falou, ainda, sobre a sua vida política. Ela é exigente. Simpática. Cativante por natureza. Sempre de sorriso nos lábios. Maria do Céu está na vanguarda de uma das autarquias do interior do país e, enquanto se faziam as perguntas, era facilmente percebível como esta Mulher estima o desafio político que tem pela frente.   

«Se alguém quiser um sítio para descansar, para sair da cidade, é vir para Freixo de Espada à Cinta»

É natural de Moçambique.

Nasci em Moçambique. Estive lá até aos 11 anos.

Que recordações guardou de lá?                         

Boas, muito boas (risos). Nasci em Vila Pery – atual Chimoio – e, aos três anos, fui viver para a Manica, que ficava muito próxima da fronteira com a Rodésia. Fiz a escola até ao 1.º ano do ciclo (agora é o 5.º ano). Vim para Portugal em 1974.

Alguma vez voltou a Moçambique?

Não. Mas gostava muito de lá voltar, de mostrar à minha família onde é que estive.

Lembra-se de brincar com os meninos de lá?

Lembro. Há muita coisa que está, ainda, bem presente. Dá é uma tristeza ir ao Google tentar ver aquilo e perceber que está muito estragado, que as ruas não têm alcatrão… Ao contrário do passado. Era uma vila tipo Freixo, pequenina, mas que tinha tudo.

E depois veio para cá (Freixo)...

Quando cheguei cá, eu e os meus pais fomos para Lagoaça. E, ao entrar naquela aldeia, ao ver todas aquelas casinhas baixinhas, todas em pedra, a minha reação foi muito má. Assim que cheguei à entrada daquela aldeia, disse ao meu pai: «Eu não fico aqui!».

Hoje, já não pensa assim?

Não, nem pensar! Não trocava isto por nada. Mas foi o choque, o contraste, não tinha nada a ver. Depois, durante muito tempo, e ainda hoje, não falo muito da minha infância, porque as pessoas não entendiam muito bem. Havia aquele estigma do «é retornada…». Não sou retornada, seria refugiada, retornada não – porque eu nasci lá –, mas eram todos apelidados assim, de ‘retornados’.

O que a levou a tirar o curso de gestão?

Tive a influência, desde miúda, em Moçambique, de uma senhora que trabalhava num banco. O meu pai mandava-me ir ao banco, com os recados dele, e eu adorava ir. Trabalhavam lá essencialmente homens e uma moça solteira que era a Luísa, e eu, não sei porquê, olhava-a e imaginava-me ali, como ela. Lembro-me de uma noite o gerente do banco, o senhor Ferreirinha, estar lá em casa (Moçambique) e eu lhe dizer: «Quando for grande quero ir trabalhar para o banco como a Luísa», e o meu pai a dizer que não, e eu a dizer que sim! Fartei-me de chorar porque o meu pai me estava a contrariar.

«O mercado espanhol dá muita vida a Freixo»

Mesmo contrariando o seu pai, seguiu gestão?

Fui bancária. Quando estava em Freixo a dar aulas abriu um concurso para a Caixa Geral de Depósitos, concorri e entrei. Fui seleccionada entre os 48 concorrentes.

Viu-se no papel da Luísa (do banco em Moçambique)?

Sim, porque era a única mulher ali no meio dos homens.

O que lhe dizia o seu pai?

O meu pai ficou muito contente, porque eu cheguei onde queria e ele tinha um orgulho muito grande em mim.

A Maria do Céu mostrou-lhe que conseguiu...

Sim… (emociona-se).

Sai da área da banca para a política...

Nunca me imaginei a chegar à reforma sempre a fazer a mesma coisa. No entretanto, há alguns anos, numa transição de mandatos, pensei no que ia acontecer «este presidente vai estragar tudo». Porque até ali a Câmara tinha uma área financeira muito boa e, depois, começou a dar-se cabo de tudo (o novo presidente). Começou a parte financeira da Câmara a ficar muito mal, e agora a recuperação vai demorar muito tempo. Foi esse estado, e a vontade em fazer, que me entusiasmou para a Política. Nas eleições autárquicas de 2009, o candidato do PSD convidou-me a integrar a lista à Câmara Municipal, embora eu não tivesse ligação partidária, e à época estivesse do ‘outro lado’. Nestas circunstâncias, tive de tomar uma decisão, mas sempre numa postura honesta quer para com quem me convidou, quer para com os que integravam a lista a que pertenci. Fui perentória «Tenho um convite e vou aceitar». Toda a gente me apoiou. Concorremos. Não ganhámos, e estive quatro anos a fazer oposição.

E depois?

Depois candidatei-me a Presidente da Câmara! O anterior candidato e Presidente da Concelhia informa-me que não seria recandidato. Nesse contexto fui clara: «se não és, tu, sou eu! Fui, e ganhei!»

E como é que tem sido a experiência?

Tinha plena consciência do estado em que estava a Câmara, mas entendia que tinha de fazer alguma coisa...

 O seu compromisso para com a Câmara está a ser honrado?

Sim. Já descemos a dívida em cinco milhões. As receitas desta Câmara quase que se circunscrevem ao FEF (Fundo de Equilíbrio Financeiro). E 86% do FEF é para vencimentos e empréstimos e, mesmo assim… Quando iniciei funções sabia que a situação financeira da Câmara estava mal, sabia, mas tínhamos de inverter o caminho da gestão financeira.

De que forma estão a apostar na dinamização de Freixo?

Através de eventos que percorrem praticamente o ano todo. Reformulámos conceitos, como a Feira Transfronteiriça integrada nas «Amendoeiras em Flor» e as Sopas e Merendas, um evento gastronómico alicerçado na cozinha mais tradicional do concelho, e criámos três eventos de raiz: o Mercado Medieval (2016), o FFIL (Freixo Festival Internacional de Literatura), iniciado em 2017, caso único que se realiza no interior, e um dos quatro eventos do género que se realiza no país. E finalmente a Feira Ibérica dos Vinhos, aliada às Jornadas Gastronómicas do Bacalhau. Este evento, eno-gastronómico, envolve a presença de vinhos de Regiões Demarcadas, designadamente Douro Superior e Espanha. A ideia é promover a marca Freixo através do que é endógeno e da cultura. Com esta estratégia e mentalidade de gestão, Freixo tem-se afirmado!

É uma forma de trazer pessoas cá e de mostrar que o interior não está esquecido?

Aqui há muito para dar, aqui é que há qualidade de vida. Se alguém quiser um sítio para descansar, para sair da cidade, é vir para Freixo de Espada à Cinta. São as paisagens, o património, a gastronomia, o vinho...

Imagina, por exemplo, a vinda de uma cadeia hoteleira para a região?

Esse apelo faço-o a toda a hora. Temos muitas casas degradadas que gostava de ver recuperadas. A Câmara não tem como fazê-lo. Isso era uma boa aposta para os investidores que viessem de fora.

Que outras atracções existem cá para os visitantes?

A seda, por exemplo. Freixo é o único território peninsular onde se produz seda artesanal, desde a criação dos bichinhos, passando pela extração do fio, até à tecelagem. Acredito que a seda pode ser uma mais-valia em Freixo. Que as pessoas possam extrair rendimento desse produto. A acrescentar, temos a arte das famosas Botas de Freixo, feitas à mão, e em processo artesanal. Pretendemos, igualmente, ensinar a arte a novos aprendizes.

Do panorama nacional e político, o que nos tem a dizer?

Não podemos ver o país por igual. Não é que ninguém seja mais do que ninguém. Não me sinto menos do que aqueles que estão em Lisboa. Mas o país tem de ser olhado conforme a realidade que ele é.  Não podem querer que, em Freixo, os impostos sejam idênticos aos dos que estão no litoral. Assiste-se a uma obsessão por um modelo aritmético, que leva a que a função do Estado seja esquecida, ou até mesmo desprezada! Não há população suficiente para gerar receita? Fecham-se serviços! Isso é que não pode acontecer. Quando, na realidade, muitos serviços que estão localizados em Lisboa podiam ser descentralizados para o interior. Impera uma mentalidade centralista e práticas centralizadoras, diria mesmo Pombalinas! Nesse ponto, o poder central tem muita culpa pelo estado a que isto chegou! Portanto, como é que o interior se pode defender e desenvolver? Eu diria que o caminho, embora insuficiente, é este: as pessoas que o Estado nos tira com o esvaziamento ou retirada de serviços, compensamos com o que oferecemos em oferta turística e de lazer! Somos resilientes!

É preciso dar melhores condições às pessoas, é isso?

No nosso concelho, 93% do território pertence ao Parque Natural do Douro Internacional. E todos esses serviços estão sediados em Braga. Como é que é possível?!

Que papel devem assumir e exigir, por exemplo, as autarquias do interior?

Os municípios deviam participar mais nas decisões que são tomadas.

O vosso município tem uma boa relação com o país vizinho, Espanha?

Excelente! O mercado espanhol dá muita vida a Freixo. Todos os dias recebemos Espanhóis! Procuram o comércio, consultas de medicina dentária, e toda a oferta gastronómica e de lazer: património histórico e natural.

E o futuro o que pode esperar, ainda, de si?

Não sei. O futuro faz-se com os nossos objetivos de vida, com os «amanhãs que cantam» e com o que porventura as pessoas esperam de nós. Não desisto de fazer. A nossa utilidade social não se esgota no que está ancorado a deveres de mandato. Uma certeza eu tenho: ajudarei sempre esta terra e estas gentes.

Antes disso, quer deixar as contas em ordem na Câmara?

Sim. Enquanto houver os empréstimos... Não são mais quatro anos que vão inverter a situação financeira. Toda a gente sabe o que se passa. Não escondo nada a ninguém. E, às vezes, tem de se saber dizer ‘não’!

A Maria do Céu está sempre com um sorriso?

Sempre. Mas não é por isso que não levo as coisas a sério (risos).

 

PARTILHAR O ARTIGO \\