Museu da Seda

Casulos dourados, por terras de Seda

\\ Texto Maria Amélia Pires
\\ Fotografia ©PMC

Freixo de Espada à Cinta é o único município onde se continua a trabalhar integralmente a seda artesanal. Em tempos, este ofício era produzido noutros lugares. Hoje, já não. Atualmente, grande parte da seda que é transformada em Portugal é importada do Brasil e da Turquia. Mas, em Freixo, isso não acontece. Todo o processo de fabrico é artesanal. Desde os ovinhos do bicho-da-seda, passando pelo processo de extração, até à tecelagem.

No Centro de Artesanato, tivemos a oportunidade de conhecer, de mais perto, esta belíssima tradição. Assistimos a uma demonstração da extração da seda, que tivemos a oportunidade de observar e registar. Explicaram-nos que é na Primavera que o bicho, em forma de lagarta, se transforma em borboleta. Mas, antes disso, é importante referir que os ovos ficam, sempre, guardados até à Primavera do ano seguinte. São conservados no frio. Depois, quando chega a época primaveril, que é quando começam a aparecer as primeiras folhas de amoreira, retiram-se os ovos do frio e colocam-se a uma temperatura ambiente que oscila entre os 24º e 26º C. Logo mais, os ovos eclodem e nascem os bichinhos-da-seda.

O bicho-da-seda só come folhas de amoreira, frescas e sem qualquer humidade. Passa, aproximadamente, trinta dias a alimentar-se dessa folha. E, todos os dias, come mais 70% do que no dia anterior, daí que, no início, eles tenham cerca de 3 mm e depois cheguem a atingir 8 cm – aquando da idade adulta. Passados os trinta dias, os bichinhos deixam de comer, afastam-se para a berma do tabuleiro, onde é colocado o rosmaninho – local onde os bichinhos entram –, e cada um vai formar o seu casulo.

O único território em toda a Península Ibérica onde ainda se trabalha a seda de forma 100% artesanal é em Freixo de Espada à Cinta.

Todos os anos são recolhidos das borboletas os ovos que vão dar origem às lagartas. Como elas não se desenvolvem todas ao mesmo ritmo, passa a ser fundamental a separação por grupos de desenvolvimento para, depois, ser mais fácil a perceção de quando será a altura de criação do casulo. As lagartas, através do líquido que expelem e estando em contacto com o ar, vão produzir a seda, que vai formando o casulo, e que as vai proteger durante a metamorfose (um período de cerca de quinze dias).  Demora, mais ou menos, uma semana a fazer o casulo. Depois, fica uma semana parado. É quando nascem as borboletas, ao fim de duas semanas, sensivelmente. Então, deixa-se nascer as borboletas para o ano seguinte. Dos restantes casulos não se deixa nascer a borboleta, porque, ao nascer, a borboleta vai furar/romper o casulo e já não se consegue extrair o fio de seda contínuo. 

Produzir seda de 1.ª qualidade implica, indiscutivelmente, ter de sacrificar as borboletas dentro do casulo. Dos casulos que são rompidos, faz-se a seda de 2.ª qualidade – designada como ‘maranhos’. Cada casulo produz um fio entre 800 a mil metros de comprimento. Um fio muito fininho. Uma borboleta põe entre 300 a 800 ovos. Como não se sabe se dos ovos vão nascer borboletas macho ou fêmea, deixa-se uma quantidade razoável. E, quando nascem umas 50 a 100 borboletas, tiram-se os casulos e interrompe-se o ciclo com um choque térmico. Antigamente fazia-se através do sol. Eram estendidos ao sol, por alguns dias, e o sol, sendo intenso e quente, matava o bichinho lá dentro. Agora, é mais fácil. É na arca frigorífica que eles levam o choque térmico e acabam por morrer.

A produção de seda, em modo artesanal, será, cada vez mais, um marco da história nacional.

Assim, fica pronta a seda para ser extraída. Já na fase de extração, é numa tina de cobre com água quente que se vai desenrolar o fio dos casulos. A água está a uma temperatura de 90º, a vassoura feita de carqueja vai tocar nos casulos e vai colher os vários fiozinhos de seda (cerca de 20), que vão passando pela fieira enquanto são enrolados no sarilho. Os fios vão colando. Este processo exige a presença de duas pessoas a trabalhar. Sempre que o fio é extraído, no final do casulo vê-se lá dentro o bichinho morto.

Depois de retirada a seda do sarilho, esta é colocada na dobadoura e inicia-se o processo de enrolamento, torção e extensão.  A seda fica com um aspeto tipo palha. Depois, dobra-se o fio da seda em pequenos cartões, que, por sua vez, vão ser juntos a outros vários fios daqueles (normalmente são dez) e são enrolados no rodeleiro (cilindro de madeira) que dará a grossura suficiente ao fio de seda e torná-lo-á possível de se trabalhar no tear. Para o fio ser resistente, é necessário torcê-lo – quanto mais torcido e esticado estiver, mais resistente e sedoso será.  Depois, a seda é cozinhada, durante cerca de duas a três horas, em água e sabão. E, assim, o aspeto da seda passa do amarelo para o branco.

Finalmente, sedosa, branca e seca, ela passa a estar pronta para o tear. Para se produzir um quilo de seda sedosa são necessários cinco quilos de casulos. É em função de um desenho que a artesã, no tear, vai criando peças únicas. Muitas vezes, são precisos quatro dias, só a tecer, para concluir uma peça com 1 metro (por exemplo uma écharpe). Isto fora o trabalho que dá o tear a ser montado (demora uma semana, entre fazer a teia, montar os lisos, meter no pente...). No dia da nossa visita foi Júlia (artesã há mais de trinta anos) quem nos demostrou esta arte.

Se há quem tenha a curiosidade em saber mais, nada melhor que visitar o Museu da Seda e do Território, em Freixo, e ver de perto toda a tradição em volta do bicho-da-seda. O acervo é único, o espaço é atrativo e as gentes são maravilhosas. Visitem!

 

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