Maria de Belém Roseira

«Estamos nos lugares de passagem»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Nuno André Santos

Não foram precisos muitos minutos para perceber que Maria de Belém é de uma simpatia contagiante, mas também uma pessoa muito determinada. Nasceu no norte, mas foi na capital que passou a maior parte da sua vida. Ainda hoje é conhecida como a «Ministra da Saúde», mas passou também pelo Ministério da Igualdade, tendo à cabeça a defesa dos direitos das mulheres. Foi ainda presidente do Partido Socialista Português, até novembro do ano passado. Recebeu vários louvores e prémios e foi condecorada com a Grã Cruz da Ordem de Cristo. Pelo caminho lançou um livro intitulado Mulheres Livres. Apesar de licenciada em Direito, a sua carreira foi passada em pastas ligadas à função pública, integrando assim vários gabinetes do Governo. As causas sociais sempre estiveram presentes na vida desta deputada. Atualmente é assessora principal no Ministério do Trabalho e Solidariedade Social. É na Assembleia da República, numa breve e franca conversa, que Maria de Belém nos mostra o lado mais profissional e nos dá a conhecer a sua visão atual do país.

 

De todos os cargos que já exerceu qual foi o mais desafiante para si?

Penso que os cargos que exerci na função pública, quer na Misericórdia de Lisboa, onde fui vice-provedora, quer no Instituto Português de Oncologia - IPO de Lisboa, que nos ensina a ter as corretas prioridades da vida, foram, do ponto de vista da realização, muito importantes. A pasta da Saúde foi muito estimulante. Foram quatro anos de dificuldades financeiras em que se introduziram grandes alterações na organização. A da Igualdade também permitiu fazer um novo patamar da tensão política, que até então era encarada com preconceito, do ponto de vista político, económico e social. O cargo mais improvável e mais prestigiante foi quando estive como presidente da Assembleia Mundial de Saúde.

 

Em 2011 foi eleita presidente do Partido Socialista. Como foi estar a exercer esse cargo?

Foi uma grande honra, evidentemente. Quando há mudanças é bom que mudem também os cargos dos dirigentes. Não sou nada defensora de que as pessoas considerem que os lugares são seus. Nós estamos nos lugares de passagem. Essa postura é fundamental para que possamos estar bem no nosso desempenho e deixar de estar quando chega a altura.

 

Considera que o seu contributo, enquanto presidente do PS, foi positivo?

Foi muito positivo! Desde logo pelo facto de o PS, durante tanto tempo, ter lutado para ser um dos primeiros partidos a integrar, nos seus órgãos internos, a questão da igualdade de género. Foi o primeiro partido a apresentar uma proposta de Governo para a participação das mulheres na vida política. Fui sempre um rosto do PS, quer enquanto ministra para a Igualdade, quer como deputada. Cargo que o PS considerava que deveria ser representado por uma mulher, que neste caso era eu.

Como vê, a curto prazo, a situação do país? 

Vejo-a com muita preocupação. Nós estamos num período em que já terminou a aplicação de um programa de assistência financeira, mas vamos ficar com ele, em cima da nossa cabeça, durante muitos anos. Concordo com o que muitos analistas dizem, que até os próprios conceptualizadores deste tipo de programas do FMI, Banco Mundial à OCDE, todos eles vêm dizendo que estes programas foram feitos com base em pressupostos errados, com consequências muito mais graves. A curto prazo vejo um país com enormes dificuldades. A situação do desemprego é alarmante, basta pensar nos 300 mil desencorajados, que já não estão inscritos no centro de emprego, nos mais de 300 mil que emigraram, nos últimos três anos, parte deles jovens, nas pessoas entre os 45 e os 65 anos que já caíram no desemprego de longa duração... O encurtamento na proteção no desemprego, que está a levar a um crescimento no número de pobres, crianças pobres, que pela primeira vez ultrapassou o número de idosos pobres. Houve um recuo na Segurança Social, na Saúde, e a questão da Educação também está à vista, ora veja-se pelo próximo orçamento que aponta para um corte de 700 milhões de euros! Portanto, eu não vejo, a continuar por este caminho, que nós tenhamos qualquer futuro. Deve-se melhorar o nível de vida das pessoas, e não é apenas a nível económico, é em termos de desenvolvimento humano, o nível de rendimentos, a esperança de vida à nascença e a capacitação das pessoas. Porque gente inculta é gente que não participa    

«Eu não vejo, a continuar por este caminho, que nós tenhamos qualquer futuro»

Quanto ao Orçamento do Estado, o que tem a dizer?

O último Orçamento do Estado é um mau orçamento. Não tem nenhuma ideia estratégica para o país. É um orçamento que continua a cortar naquilo que é mais essencial. E, como dizia o relatório da Cáritas Europa deste ano, continuam os pobres a pagar uma crise que não causaram. É uma tragédia.

 

Primeiro foi o caso BPN, PT? agora a TAP. Como se justificam tais processos?

O BPN foi um caso de criminalidade. Infelizmente ainda não temos um fio jurídico para este problema, mas temos os prejuízos a serem pagos pelos contribuintes portugueses. A questão da PT é um caso que nos demonstra que o Estado gere mal e as empresas privadas é que gerem bem. Como é que uma empresa que era um orgulho de Portugal, uma marca de prestígio a nível mundial, pode ter ruído de uma maneira tão estrondosa? A TAP corresponde agora a uma prensa do Governo que ninguém entende. Porquê avançar agora para a privatização da TAP? Uma empresa de bandeira, que tem a ver com a nossa relação com as comunidades, com a projeção de Portugal no mundo. Como é que um processo desta natureza está a começar e continuar tão mal? É absolutamente inaceitável, não é solução. Ninguém conhece o caderno de encargos para a privatização. Ninguém sabe porque é que o Governo quer agora, sem nenhuma concertação com o partido de oposição, com o conselho económico-social, com os sindicatos que representam os trabalhadores das empresas, com as forças vivas da sociedade, avançar para um processo tão delicado. No meu entender é abusivo    

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