Rui Massena

«Preciso de me estar sempre a pôr à prova»

\\ Texto Carolina Xavier e Sousa
\\ Fotografia Manuel Teixeira (Hotel da Música)

O seu talento musical, a sua inquietude e o prazer que retira em estar em contacto com outras pessoas têm dado um lugar de destaque a Rui Massena no panorama cultural mundial. Nasceu no Porto, onde hoje vive, tendo passado já por Lisboa, pela Madeira e por Guimarães ? onde liderou a programação musical para a Capital Europeia da Cultura 2012 ? e por muitas outras paragens que o levaram já a dirigir mais de 30 orquestras além-fronteiras. Sem batuta, mas com a descontração que o caracteriza, o maestro abriu o seu coração antes de se sentar ao piano para tocar Dia Dsingle que marca o seu «desembarque» enquanto compositor e que integra o álbum Solo, que dará a conhecer na íntegra em janeiro de 2015.

 

Como começa a sua relação com a música?

Começa aos seis anos quando os meus pais me puseram a estudar piano com o compositor César de Morais na casa dele, por sugestão da minha educadora. Depois fui para a Academia de Música de Vilar do Paraíso e fiz o estudo através do Gosto pela Música, uma escola onde as pessoas construíam amizades com a música como ponto comum. Portanto, desenvolvo o meu gosto pela música em paralelo com o meu gosto pelas pessoas e de fazer música em conjunto. Acho que é esse gosto que me leva à direção de orquestra, uma formação que redimensionou em mim o lugar das pessoas e o lugar da música. A minha vida gravita muito à volta de gostar de tocar nas pessoas e de gostar que as pessoas me toquem; tenho uma relação quase de intimidade com aqueles com quem faço música.

 

Que tipo de maestro se considera?

Tenho uma escola francesa de rigor; sou bastante rigoroso na abordagem ao texto. Sou também bastante respeitador, ou seja, enquanto intérprete acho que estou a servir o compositor. Enquanto gestor de recursos humanos, sou um bocadinho disciplinador, gosto de um ambiente de trabalho muito limpo e isso às vezes é entendido como autoridade. Mas acho que a autoridade é criar-se um ambiente de trabalho em que seja possível fazer música e, para isso, também é preciso silêncio. A música começa do silêncio e o ambiente de trabalho também tem de começar no silêncio.

«Desenvolvo o meu gosto pela música em paralelo com o meu gosto pelas pessoas»

Que compositores ou músicos destacaria entre os seus preferidos?

No âmbito da música mais sinfónica, Stravinsky pela questão rítmica, Mozart pela conjugação harmoniosa de tudo, Wagner pela capacidade que tem de nos levar com ele. Gosto também muito do Ravel, porque representa o início do século XX em Paris. Há também compositores de um universo clássico mais contemporâneo, ligado à minha atividade atual, de que gosto muito: Nils Frahm, Ludovico Einaudi, Rodrigo Leão, Yann Tiersen, Hiromi?

 

Dia D marca a sua estreia enquanto compositor. Inspira-se na efeméride do desembarque das tropas aliadas na Normandia. É um tributo seu à liberdade?

É uma bela forma de o pôr. Este desembarque é sobretudo uma metáfora pessoal: de que eu estive em «guerra» comigo durante muitos anos para poder acreditar que podia compor, porque fui educado toda a vida para ser um bom intérprete. Talvez por ter conhecido obras tão grandes, acho que me fui apagando. Felizmente, no final de 2013, senti-me com a confiança necessária para dar este passo. Aos 40 anos permiti-me abraçar o meu mundo e dar-lhe dimensão. É preciso fazer coisas disruptivas para nos obrigar a sair da nossa zona de conforto! Em janeiro lanço o meu primeiro álbum, Solo, constituído por 15 canções ao piano. Estou ansioso por poder tocá-lo e estar em contacto com as pessoas. Enquanto maestro, tenho vivido de costas para o público nestes últimos anos e sinto falta do contacto face to face.

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