Jaime Pereira

«Há um apetite crescente pela economia portuguesa»

\\ Texto Carolina Xavier e Sousa
\\ Fotografia Nuno André Santos

Licenciado em Economia pela Universidade Católica Portuguesa, Jaime Pereira cedo ingressou na consultora Arthur Andersen, que o levou para Angola por mais de uma década, tendo sido responsável pela revisão das contas de uma parte muito importante da banca angolana. Foi lá que conheceu Fernando Teles, que viria a convidá-lo a deixar a então Deloitte para abraçar um novo desafio: o Banco BIC Português. Nome forte da instituição nos dias de hoje, Jaime Pereira soma aos cargos de vogal do Conselho de Administração, vice-presidente da Comissão Executiva e CFO do Banco BIC Português, assento no Conselho de Administração das restantes entidades bancárias do universo BIC, designadamente em Angola, Cabo Verde e Brasil. Lembra que o Banco BIC Português tem honrado escrupulosamente os compromissos que assumiu quando da compra do ex-Banco Português de Negócios (BPN), reconhecendo os sinais positivos da economia nacional e o apetite que volta a suscitar. «Notamos uma procura crescente de investidores estrangeiros por ativos portugueses», admite Jaime Pereira, salientando a relevância da instituição no fortalecimento das relações económicas entre Portugal e Angola.

O Deutsche Bank prevê que a economia da Zona Euro cresça 0,7%, mas que a economia portuguesa cresça 1%. Como vê a evolução da economia nacional?
Esses números têm sempre alguma volatilidade, mas têm de ser lidos como um indicador positivo, porque mostram que estamos a crescer um pouco mais do que os nossos pares e o importante é manter essa tendência de convergência. Nos últimos tempos, Portugal passou por um ajustamento muito forte. Hoje, embora não se possa dizer que a situação está folgada, há alguns sinais positivos: o nível das exportações, uma certa estabilização / redução da taxa de desemprego, o próprio crescimento que se tem verificado nos últimos tempos, ainda que modesto. Aqui no banco notamos uma procura crescente de investidores estrangeiros por ativos portugueses. É sinal de que há um apetite pela economia. Portugal nasceu em 1143 e já passou por situações muito mais complicadas do que esta e sempre conseguiu dar a volta. Como tal, estou convencido de que vamos ultrapassar esta situação.
 
O caso Banco Espírito Santo veio abalar a credibilidade do sistema financeiro português e a confiança dos investidores estrangeiros?
O que aconteceu ao Banco Espírito Santo, uma instituição financeira de referência, nunca é bom para o sistema financeiro nem para nenhum país. De qualquer modo, acho que há uma diferença entre a perceção internacional do desempenho da economia portuguesa e do setor financeiro como um todo e um caso isolado, perfeitamente identificado. Enfim, os efeitos finais ainda estão por apurar; naturalmente que vão implicar um esforço grande, mas acho que esse esforço, por maior que seja, não vai pôr em causa os nossos fundamentais.

«Um dos principais desafios da banca em Portugal passa por manter o seu papel efetivo de intermediário financeiro»

    Quais são os desafios que a banca portuguesa terá de enfrentar nos próximos tempos?

Os desafios da banca portuguesa não são diferentes dos do país, porque a banca faz parte integrante da sua economia. Penso que os principais desafios da banca em Portugal passam por manter o seu papel efetivo de intermediário financeiro; procurar reajustar-se a uma situação que passou primeiramente de um excesso de liquidez em que os mercados estavam disponíveis para nos emprestar dinheiro a juros baixos, para uma situação de uma contração muito grande e, neste momento, uma nova abertura significativa em termos de liquidez; encontrar boas empresas e particulares que se queiram desenvolver e avançar com novos projetos, para poder continuar a desempenhar o seu papel; acredito também que vai ter de enfrentar alguns desafios em matéria de consolidação do setor. Existem bancos de matriz internacional que estão a abandonar o país ou a reduzir muito as suas atividades. É possível que algumas instituições financeiras nacionais possam ter de seguir o mesmo caminho. Outras existem que ainda têm de fazer um esforço grande para ultrapassar todos os seus problemas.
 
O Banco BIC chega a Portugal em 2008, altura em que a conjuntura económica não se revela propriamente favorável. Seis anos depois, como analisa a atividade do Banco BIC no país?
Temos uma história pequena, mas uma história de sucesso da qual nos orgulhamos bastante. O Banco BIC em Angola é um banco absolutamente fundamental no sistema bancário angolano. E a razão da existência do Banco BIC [Português] começa por este relacionamento entre Portugal e Angola. Acreditamos que temos conseguido ter um papel muito importante no apoio aos agentes económicos que trabalham em ambos os países. O facto de existir um banco forte em Angola e um banco que hoje em dia em Portugal cobre a totalidade do território nacional com uma matriz comum facilita em muito toda a vida das empresas e dos particulares que estão nos dois países.
Quando o Banco BIC nasceu em Portugal, em 2008, éramos um banco muito pequeno, claramente focado na banca de empresas, principalmente naquelas que tinham um relacionamento importante com Angola; desenvolvemos ainda o papel de banco correspondente de bancos angolanos para a zona Euro; e um terceiro segmento de mercado tinha a ver com a área de Private Banking para cidadãos nacionais e angolanos em Portugal. Esse foi um modelo de negócio que só fez sentido porque existia um banco muito sólido, o Banco BIC Angola, que permitiu que andássemos, de alguma forma, em contraciclo face ao resto do setor em Portugal. Apesar de pequeno, o banco teve uma evolução muito agradável: tivemos resultado positivo logo em 2009 (embora modesto), em 2010 (2,4 milhões de euros) e em 2011 (5,1 milhões de euros). Em junho desse ano acordámos com o Estado português a aquisição do ex-BPN, que se concretizou em março de 2012, tendo em dezembro do mesmo ano sido concluído o processo de fusão, dando origem ao novo Banco BIC Português. Em resultado da absorção do ex-BPN, tivemos em 2012 um resultado líquido negativo de oito milhões de euros, mas o rendimento integral do ano foi marginalmente positivo (75 mil euros). 2013 foi o ano da viragem em termos de resultados, em que tivemos um resultado líquido positivo de 2,5 milhões de euros.

PARTILHAR O ARTIGO \\