Rui Moreira

«I do everything intuitively and think about it only afterwards»

\\ Texto Sónia Gomes Costa
\\ Fotografia 1© Nuno André Santos; 2, 4, 5 © Miguel Angelo Guerreiro; 3 ©Laura Castro Caldas

Depois de três meses em exposição no museu MUDAM do Luxemburgo e de expor na Galerie Jaeger Bucher, em Paris (que o representa), Rui Moreira tem os seus desenhos em duas mostras em Guimarães e está agora a fazer dois trabalhos para uma que decorrerá a partir de 24 de março nas caves do Museu do Louvre, em Paris. Com mais eventos em carteira, o pintor espera fazer uma grande exposição em Lisboa e outra maior em Guimarães, no próximo ano. Desde criança que adorava fazer desenhos. Estudou artes na escola António Arroio e depois na ARCO. «Não me imagino a fazer outra coisa», diz. Mas, se fizesse diferente, trabalharia num circo ou seria um cavalo, como desejava quando em criança, porque gosta da liberdade: «Se não formos livres, não conseguimos fazer nada».

 

Para este pintor esquerdino que desenha com a mão direita, o ato da criação nada tem de transcendente e é como qualquer outro trabalho que exige dedicação e muita disciplina. Pinta todos os dias à mesma hora e segue uma rotina diária: «As pessoas acham que a vida de artista é só glamour? a minha, pelo menos, não é». Levanta-se e deita-se cedo, e segue o mesmo ritmo, desde a preparação das tintas, passando pela escolha da música, tudo faz parte da criação: «O que acontece resulta de muito trabalho». E esse processo passa sobretudo pelo corpo e pelas suas sensações. Por isso assume que o corpo é o seu principal instrumento de trabalho, e não os pincéis porque são «os ritmos do corpo que alteram o desenho e a perceção», explica.

O corpo é o principal instrumento de trabalho de Rui Moreira.

Rui Moreira gosta de viver experiências intensas e prioriza a sua intuição face ao intelecto: «Faço tudo por intuição e só depois é que penso». O trabalho de investigação é feito através das viagens e da música, e só depois dos livros. Nas primeiras vezes não desenha. Diz que não pode «começar a desenhar sem conhecer, sentir e integrar». Só depois de «ter acesso à essência, que é única através da experiência», é que parte para o desenho. O trabalho deste pintor é uma súmula que frutifica das suas experiências. Já foi ao deserto de Marrocos para lá de uma dezena de vezes, onde pintou de sol a sol para «ver o que sentia com aquela luz, aquele calor, e com aquela lonjura de vista, como o meu corpo reagia e se transformava no desenho», que, diz, é bem diferente e mais difícil do que estar a pintar no atelier. O pintor assume que gosta de vivenciar experiências físicas intensas, como desenhar na natureza, porque alteram a sua perceção e o próprio corpo. Já foi à Índia três vezes, e vai muito a Trás-os-Montes, onde guarda memórias infantis. Voltou lá há uns anos para fazer um trabalho sobre os Caretos, e chegou a encarnar a personagem para sentir na pele o êxtase desse ritual.
«Não posso estar consciente de que estou à procura porque senão não encontro nada. Tenho que me esquecer de mim, para encontrar? tal como no amor? quando andamos à procura nunca dá certo. O inusitado é quando tropeçamos em alguém na escada? e é esse o momento. O mesmo me acontece com o desenho e na vida». E Rui Moreira não separa o trabalho da vida. «As coisas misturam-se». É a vida que o inspira. Assim como Bosh, ou a visceralidade de Bacon, ou os vermelhos de Rothko. David Lynch, Tarkovski, Werner Herzog, António Reis, João César Monteiro são também referências. No trabalho do pintor misturam-se ainda imagens criadas através das bandas sonoras ou de outras músicas que ouve, desde a clássica ao punk rock.
E Rui Moreira vai pintando obras em guaches vermelhos, azuis e pretos, paisagens de sonho que se materializam em telas de papel de algodão de grão fino. Porque, conta, «sonhar é agir para que se concretize na matéria. E eu não tenho qualquer interesse em só sonhar. É a concretização que me motiva». Assim É.

The Machine of Entangling Landscapes VII, 2011 | Guache sobre papel | 160,4 x 240 cm | Cortesia Galerie Jaeger Bucher / Jeanne-Bucher, Paris | Collection Société Générale, Paris

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