Mafalda Mendonça

«Sinto a pintura como uma extensão de mim própria»

\\ Texto Carolina Xavier e Sousa (com a colaboração de Tiago Feijóo)
\\ Fotografia Manuel Teixeira

«A força dos meus sonhos é tão forte Que de tudo renasce a exaltação E nunca as minhas mãos ficam vazias». As palavras são de Sophia de Mello Breyner Andresen, embora as reconheçamos no dinamismo e na determinação que movem Mafalda Mendonça. Apesar da sua tenra idade, sabe como conciliar três paixões ? pintura, dança e arquitetura ? em dias sobejamente preenchidos, mas felizes. Se tem presente o momento em que a dança entrou na sua vida e em que se interessou verdadeiramente pela arquitetura, o mesmo não pode dizer em relação à pintura. «Sinto que a pintura é algo que faz parte de mim desde sempre», revela Mafalda. A doçura da sua voz não esconde o rigor e a disciplina que guiam a sua vida, porém, transparece a sensibilidade e a delicadeza das suas telas: odes ao movimento, à leveza, à suspensão e à consciência corporal.

1. Ode Aos Envergonhados2.Para Lá Das Nuvens

Nasceu a 23 de março de 1988 em La Coruña, Espanha, apenas porque decidiu vir ao mundo um mês mais cedo do que o previsto. De resto, sempre estudou e viveu em Vila Nova de Gaia, cidade onde nos abriu as portas do seu mundo e da sua história.
Complementando o ensino regular com formação artística em dança, Mafalda lembra o grande gosto que sempre nutriu pelo desenho e pela pintura. Uma caixa de lápis de cor ou de marcadores faziam as delícias da menina, muitas vezes oferecidas pelo avô, cujo valioso contributo agora reconhece na orientação dos seus desenhos; da mãe, psicóloga, colheu o alento necessário para explorar a sensibilidade e divergir o seu leque de interesses. Frequentava ainda a segunda classe quando se recorda de ter pintado o seu primeiro quadro. Pouco mais sabia do que o nome do autor daqueles girassóis que tanto a fascinavam. Era Van Gogh, hoje uma das suas maiores referências, a par de Freud, Paula Rego, Frida Kahlo e da coreógrafa alemã Pina Bausch.
Metódica, exigente e perfecionista por natureza, Mafalda conta-nos que coleciona experiências, imagens, fotografias e leituras, que desaguam em ideias que depois escreve e compõe mentalmente. «Muitas vezes resolvo as composições a sonhar», confidencia. Chega então o momento de fazer os primeiros esboços a lápis. «O desenho é muito analítico no meu processo de trabalho e quanto mais exaustivo for em termos de sombras, movimento, posições e linhas, melhor o quadro vai resultar». Rodeia-se de imagens inspiradoras ? colando-as nas paredes, nas portas, no cavalete ? para beber dessa influência enquanto está a compor e a pensar nas cores que vai usar. «É como se fosse um mapa de referências», explica a jovem. Recaia a escolha do material em acrílico, óleo ou aguarela, pintar não lhe toma muito tempo, já que a execução acaba por ser apenas uma pequena parte do processo.

«O que a arte tem de mais bonito é mexer com a emoção das pessoas»

Apaixonada pela figura humana, Mafalda assina habitualmente telas que focam corpos em movimento (quase sempre femininos) que se destacam sobre fundos que pendem para a neutralidade. «Tento passar o máximo de expressão através da pincelada e trabalhar a questão do movimento, da leveza, da suspensão, de corpos especiais, mais sensíveis e mais conscientes».
«Gosto de ter sempre uma história subjacente nas telas que pinto, mas não gosto de coisas absolutamente literais», diz Mafalda, reconhecendo o prazer que sente ao ouvir outras interpretações dos seus trabalhos e a angústia que inicialmente sentia ao vê-los partir. «A minha maior ambição é que as pessoas se sensibilizem com aquilo que faço. O que a arte tem de mais bonito é mexer com a emoção das pessoas», conclui a jovem pintora, bailarina e arquiteta, cujas intenções passam por continuar a manter em paralelo este trio que abrilhanta a sua vida.

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