Miguel Araújo

«O meu grande prazer é escrever músicas»

\\ Texto Carolina Xavier e Sousa
\\ Fotografia Paulo Bico

Rosto de uma geração que soube elevar a qualidade e a portugalidade da música nacional, Miguel Araújo compõe, escreve, canta e toca diversos instrumentos, tanto n? Os Azeitonas, banda que integra desde 2002, como no percurso a solo que iniciou uma década mais tarde. Foi no Porto, cidade que o viu nascer em 1978, que os seus olhos lhe revelaram a timidez, a exigência de um músico autodidata, a teia de melodias e palavras que lhe assolam o pensamento? O seu sorriso, sincero, declara um código genético musical composto por nomes como os The Beatles, Rui Veloso, Carlos Tê e Chico Buarque, rasgando-se ainda mais quando ouve letras da sua autoria nas vozes de António Zambujo, Ana Moura ou Carminho. Nós louvamos o facto de ter descartado um eventual percurso ligado à Gestão para nos brindar com o seu talento e com a simplicidade genial das suas canções.

A sua ligação à música surge por influência dos seus tios que tinham uma banda de covers dos anos 1960/1970. Nessa altura, ou alguma vez, sonhou em ser músico?
Quando eu era pequeno, os meus tios tinham uma banda e ensaiavam em casa da minha avó. Foi aí que tive um contacto mais próximo com a música, que fiquei a saber quem eram os The Beatles, os Rolling Stones? Fiquei completamente fascinado e tinha vontade de tocar, principalmente guitarra e baixo. Mas não sonhava em ser nada. Agora vejo que foi isso que me fez querer ser músico, mas na altura ainda não racionalizava dessa maneira.
 
Desde então, a música sempre fez parte da sua vida?
Sim, de uma maneira bastante amadora. Sempre tive bandas de liceu e de amigos, mas nunca com aspirações de gravar um disco, nem Os Azeitonas, quando foram formados em 2002 num contexto de viagem de amigos, tinham essas aspirações. Apesar de ser tudo na brincadeira, tínhamos uma maquete que chegou às mãos do Rui Veloso e que nos convidou para gravar. Gravámos esse disco e depois as coisas que daí vieram, aos poucos, foram-me obrigando a tomar a decisão de ficar na música a tempo inteiro, que é o que faço desde 2005.
 
Como descreve a sua relação com a música?
A música é uma coisa quase obsessiva. Eu canto e toco, componho e escrevo. Onde eu faço diferença, se fizer alguma, é na composição e na escrita ? não é pela minha voz nem pela minha maneira de tocar. Entre os 19 e os 22 anos passava a vida a ir a concertos, era completamente obcecado como consumidor, ou seja, na perspetiva da absorção. Agora vou a menos concertos, ouço menos música, mas sou obcecado em pensar nas palavras certas para uma determinada música, ando sempre com melodias na minha cabeça, e isso é uma coisa que me acompanha quase como se fosse um esquizofrénico.

«Onde eu faço diferença, se fizer alguma, é na composição e na escrita»

A composição é a vertente que lhe dá mais prazer?
É a que me dá mais prazer e mais angústia. Conseguir acabar uma música ao meu gosto é para mim um prazer muito maior do que tocar ou cantar. Eu nem gostava de cantar, comecei n? Os Azeitonas, mas o meu primeiro disco foi o meu primeiro grande momento de cantor, e eu não estava muito à vontade com a minha voz... Mas agora, com o hábito, há três anos e meio em palco, já não sinto repúdio em cantar, mas sem dúvida que o meu grande prazer é escrever músicas.
 
É despreocupada esta aventura musical?
Há sempre uma preocupação, mas tem a ver com o manter a chama da autoria, conseguir fazer músicas novas... Cada vez que faço uma música que tem bastante sucesso, vem a angústia de fazer outra melhor. Uma pessoa fica sempre com aquela vontade de se tentar suplantar e fazer diferente, de continuar a fazer com que aquilo que pomos cá fora nos cative também a nós próprios. Essa é uma angústia permanente. É muito mais comum uma pessoa não conseguir fazer uma música do que conseguir!


Ler Entrevista Completa >>

PARTILHAR O ARTIGO \\