Cantinho das Aromáticas

Jardim sensorial

\\ Texto Carolina Xavier e Sousa
\\ Fotografia Manuel Teixeira

A luz do sol aviva a cor das plantas que germinam em torno de um belíssimo pombal do século XI, o calor favorece a libertação dos aromas da hortelã-pimenta, da salsa, do cebolinho, do tomilho-limão, da lúcia-lima, dos orégãos, da erva-príncipe, do poejo, do estragão francês, da balsamita, da erva camaleão, e de tantas outras? É em pleno caos urbanístico de Vila Nova de Gaia, num local onde outrora se diz terem vivido D. Pedro e Inês de Castro, que se descobre o Cantinho das Aromáticas, um espaço de uma biodiversidade surpreendente que se dedica à produção de plantas aromáticas, medicinais e condimentares. «É a única quinta que produz aromáticas em espaço urbano na Europa Ocidental», assegura o responsável pelo projeto, Luís Alves, que nos recebeu de braços abertos num belo dia do mês de abril.

Enquanto se descobrem as espécies que constituem este encantador jardim sensorial, ouvimos de Luís Alves a razão da sua existência. Foi em 2002 que o engenheiro agrónomo deixou Serralves, onde foi encarregado geral dos jardins da Fundação durante seis anos, para se aventurar num projeto próprio. Arrendou, juntamente com o amigo Jorge Sá ? que entretanto lhe vendeu a sua parte ?, três dos dez hectares da Quinta do Paço para criar um projeto de aromáticas. Plantaram mais de 150 espécies, em estufa, e vendiam pequenos vasos para hortos numa altura em que Portugal conhecia pouco mais do que alecrim, alfazema e loureiro.

Este projeto assume-se como o único de produção de aromáticas em espaço urbano na Europa Ocidental.

A empresa, que hoje conta com oito colaboradores permanentes, evoluiu mais tarde para a produção ao ar livre e a exportação a granel de ervas secas destinada às indústrias farmacêutica e cosmética, mas, em 2012, o Cantinho das Aromáticas passou a existir com um novo propósito, dando especial atenção à sua marca própria de infusões e condimentos biológicos. 2,5 milhões de euros de investimento depois, o Cantinho das Aromáticas tem os seus rótulos à venda na loja da quinta, supermercados biológicos, mercearias finas, mercados gourmet, hotéis, restaurantes... Apesar da grande maioria dos produtos ficar em solo português (94%), a empresa exporta para Espanha, França, Alemanha, Áustria, Bélgica, Suíça e Inglaterra. «Produzimos anualmente entre seis e sete toneladas de ervas secas», esclarece Luís Alves, revelando que o atual volume de faturação da empresa ronda os 350 mil euros e que fica satisfeito se chegar aos 500 mil euros em 2016. «A nossa ambição passa por consolidar a marca própria, lançar mais produtos, otimizar o espaço, envolver mais a comunidade e gerar valor acrescentado com novos projetos de investigação», afirma o responsável.

Enquanto adianta que o próximo passo será a produção de tisanas (misturas de ervas), Luís Alves confessa que um dos seus sonhos é democratizar o consumo de infusões num país onde praticamente não existe cultura de consumo de chá, apesar da história lusa denunciar o oposto. Como se ouvissem a conversa, os animais da quinta aproximam-se: vacas barrosãs, burras mirandesas, cavalos garranos? Além destes, Luís Alves conta-nos da existência de outros, bem mais pequenos: joaninhas, ouriços-cacheiros, sapos, cobras, libelinhas, louva-a-deus, abelhas, mochos, corujas, morcegos? Cada um com uma função imprescindível neste ecossistema onde a agricultura é biológica, rejeitando adubos de síntese e pesticidas.

No Cantinho das Aromáticas germinam mais de 150 espécies distintas de plantas aromáticas, medicinais e condimentares.

Aberto ao público e ao voluntariado, o Cantinho das Aromáticas recebe milhares de visitantes por ano, vende online, dinamiza workshops temáticos, e foi já agraciado com diferentes distinções a nível nacional e internacional pelo seu pioneirismo e pela qualidade dos seus produtos. «O modelo de produção que criámos de raiz não existia na Europa», salienta Luís Alves, garantindo que, embora reduzida, a área do Cantinho das Aromáticas «foi elevada ao nível de sofisticação de um relógio suíço».

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