Luís Campos Ferreira

«Mostrar bem Portugal é o meu lema»

\\ Texto Sónia Gomes Costa
\\ Fotografia Nuno André Santos

Luís Campos Ferreira gosta de se rir e de desfrutar do trabalho que faz. O secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação diz que «a qualidade e a competência também convivem com o humor» e prova-lhe a experiência que este pode ser «uma grande arma diplomática quando muito bem utilizado», porque se cria boa atmosfera. O diplomata que levou Camões a Cuba e o fado à Guatemala acredita nas potencialidades variadas do nosso país, nas pessoas e no conhecimento que cá se gera e que é transferido lá para fora. E, em jeito de balanço dos programas da política externa que estão no terreno, observa que «se conseguirmos mostrar bem Portugal cá dentro e lá fora, ganhamos a todos os níveis».

Em que princípios operacionais assenta o Conceito Estratégico da Cooperação Portuguesa?
Hoje, a cooperação é para o desenvolvimento. E exportar desenvolvimento é importar segurança, em várias vertentes. A cooperação não é só uma questão económica, mas passa muito por aí. Não há erradicação de pobreza sem a geração de riqueza. E, para que os benefícios sejam mútuos, é fundamental transferirmos conhecimento e tecnologia, sem que signifique a mudança de identidade dos povos.
 
Como decorrem as relações bilaterais de Portugal com os países lusófonos, nomeadamente com Angola e Moçambique?
As nossas relações são de excelência e têm uma grande margem de progressão. Os países da CPLP devem olhar mais para o futuro do que para o passado. Há um conjunto de denominadores comuns, de valores e princípios que criaram músculo na relação, mas nós devemos, ao fim de 18 anos, olhar para as novas gerações e ver o que podemos fazer em comum, partilhando conhecimento, e ver que motores podem gerar mais economia que interesse a todos.
 
Decorrido mais de um ano após a aprovação do Conceito Estratégico, qual o balanço que faz da cooperação portuguesa face aos interesses de Portugal e das necessidades dos países parceiros?
Os resultados são positivos e não devem ser medidos pelo dinheiro investido, mas antes pelo que se tem conseguido fazer no terreno. Portugal consegue fazer programas bons com pouco dinheiro, na área da saúde, energia, entre outras, e percebo que estamos a fazer um trabalho exemplar, e temos também excelentes ONGDs. O nosso investimento direto, por exemplo em países africanos como São Tomé e Príncipe, com o inovador programa de Telemedicina, tem funcionado muito bem, porque acrescenta valor e bem-estar à população e gera emprego. Também Cabo Verde e Angola pediram para implementá-lo, porque já têm infraestruturas para isso. Na Guiné-Bissau, estamos a trabalhar no sentido de criar condições para que aconteça.
 
Qual é a base que faz a diplomacia funcionar?
A diplomacia deve criar redes de partilha nas diversas áreas, seja universidades, cultura, saúde, empresas, para que estas transfiram o seu conhecimento, isso é a base da cooperação. E este é o grande desafio que tenho para mim. O conhecimento é um ativo que os países têm e que nenhum mercado consegue cotar em baixa. Por isso, as nossas ligações têm de ser em rede. Partilhar e migrar o conhecimento para o tecido económico e para as outras áreas, para que esse saber crie vantagens competitivas e existenciais às populações que lá vivem. E a ciência é, na diplomacia, o bem maior para procurar a paz. Temos de saber criar essa rede da ciência na diplomacia e partilhá-la. 

«O conhecimento é um ativo que os países têm e que nenhum mercado consegue cotar em baixa»

O Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério das Finanças aprovaram recentemente o programa Parcerias para o Desenvolvimento. Em que consiste?
O novo website www.pdesenvolvimento.pt é uma novidade na Europa que apresenta todas as oportunidades às empresas, universidades, municípios, a todos os que podem fazer cooperação em rede. Esta plataforma é excelente, porque, além de dar oportunidade, ensina a concorrer e ainda oferece apoio. Os dados estão lançados e isto é um caminho a fazer agora pelos privados. O apoio do Estado está lá, à distância de um clique.

Em Outubro de 2014, foi lançado o programa Embaixadorias. Como está a correr?
Este programa é uma forma de fazer diplomacia cá dentro para vender Portugal lá fora. Adicionamos criatividade ao que já existe, pegando nos embaixadores acreditados em Lisboa, levando-os a conhecer o país, incluindo cultura, gastronomia, economia e diplomacia municipal. Este programa é sempre feito em parceria com os presidentes de Câmara. O objetivo é levar este Ministério também para dentro do país, numa ideia de proximidade.
 
Até que ponto verifica que a diplomacia ganha em atuar numa perspetiva integrada?
A diplomacia tem de ter alma, e esta é dada pela cultura, pela identidade de um país, não é só pela economia. Portugal tem grandes vantagens, porque migramos muito bem os conhecimentos das universidades para as empresas e hoje temos uma competitividade enorme no design, em produtos como o vinho. Quando fiz a visita política a Cuba havia uma dificuldade de relação e fui com uma missão: a de estabelecer um protocolo anual de consultas políticas, e levei uma estátua de Camões comigo e conseguimos que ela se edificasse em pleno centro de Havana.
Apesar de Portugal não ter grande capacidade financeira para fazer grandes promoções, não significa que não possamos ser maiores do que o nosso tamanho. Temos uma cultura de redes de oportunidades e de conteúdos variados e vários cartões-de-visita, como Cristiano Ronaldo e José Mourinho. Fazemos bem e temos ambição.
 
Que outros países são interessantes para a diplomacia externa de Portugal?
Temos uma prioridade: África. E, lá dentro, os países de Língua Portuguesa são uma porta de entrada para a relação com outros países com os quais aqueles mantêm relações. Também temos alargado muito as nossas relações com países como Chile, Peru, Cuba e México, que são um bouquet de oportunidades extraordinárias para Portugal, porque estão a precisar de infraestruturar e isso é perfeito para nós.

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