Teatro do Bolhão

Um palco ao serviço da cidade

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Cristina Pinto e Pinto;

A fachada passa despercebida a quem caminha pela Rua Formosa, em pleno coração portuense, mas é no interior que o edifício se revela e se impõe como um dos mais impressionantes monumentos oitocentistas da cidade. Se o teatro convida a entrar, o edifício que o sustenta é o melhor cartão-de-visita. António Capelo, diretor da Companhia Teatro do Bolhão, explica que a ideia passou por «pôr ao serviço da cidade um edifício de inegável valor patrimonial». Entrar e subir a escadaria monumental é dar o mote para aquilo que o palácio tem de melhor. Depois, é deambular, sem pressas, e atentar nos detalhes. De salão em salão, o palácio abre-se, de forma despretensiosa, aos deliciosos pormenores que compõem o salão nobre, a sala de fumo ou a capela, cujas pinturas de teto são capazes de congelar o olhar por um longo minuto.
Quem visita o palácio, não imagina as dificuldades que foram ultrapassadas para se recuperar um edifício que se degradava, ali bem ao lado do eterno Mercado do Bolhão. O investimento, orçamentado em cerca de três milhões de euros, é resultado conjunto de várias comparticipações públicas. Mas não foi suficiente. O projeto, cujas obras iniciaram há 12 anos, necessitou de estratégias de «engenharia financeira», algumas pouco tradicionais. Uma delas surgiu de forma inesperada quando António Capelo percebeu que o companheiro de uma viagem de comboio poderia vir a ser uma valiosa ajuda. «Iniciámos conversa sem eu saber de quem se tratava, depois percebi que o meu simpático interlocutor (Vítor Poças, presidente da Associação das Indústrias de Madeira e Mobiliário) poderia ajudar-nos, já que precisávamos de 700 metros quadrados de madeira». Mas ainda eram necessários 35 mil euros para recuperar a escadaria monumental. A solução passou pelas redes sociais. «A campanha lançada no facebook chamou-se degrau a degrau; como contrapartida os apoiantes ficariam com o seu nome colocado no degrau», explica Capelo. Foi um êxito e viria a ganhar, inclusive, prémios publicitários.

O edifício impõe-se como um dos mais impressionantes monumentos oitocentistas da cidade do Porto.    

O palácio remonta a 1844, altura em terá terminado a construção ? a mando do Conde do Bolhão ? de um espaço que se tornaria um dos centros mais dinâmicos da vida social portuense. Passaria, depois, para Emílio Biel, cuja ascendência alemã lhe traria problemas no decorrer da 1.ª Grande Guerra, o que terá levado à pilhagem do edifício. Mais tarde, albergaria uma litografia que funcionaria até cerca de 1990. Abandonado e degradado, seria adquirido pela Câmara Municipal do Porto e cedido à Academia Contemporânea do Teatro / Escola do Bolhão por 50 anos. António Capelo espera que este espaço seja um exemplo para outras iniciativas. «O que desejo é que este projeto possa servir de exemplo ao muito que, por este país, se faz em prol da arte e da cidadania», conclui.

© Manuel Teixeira

© Cristina Pinto e Pinto

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