Olga Roriz

«É na dança que me sinto bem, livre e mulher grande»

\\ Texto Sónia Gomes Costa
\\ Fotografia Patrice Almeida

Este ano comemora 40 anos trabalhosos e laureados de uma carreira de bailarina e coreógrafa, e também 20 anos de existência da sua Companhia. Mulher apaixonada, movida pelo instinto, Olga Roriz transpira tenacidade e coragem: «Eu subo lá acima e atiro-me cá para baixo, mesmo com medo das alturas», recordou, quando demonstrava uma coreografia a uma bailarina. «É na dança que me sinto bem, livre e mulher grande», afirma, contando-nos que a dança lhe é intrínseca, vital e que começou de forma «muito orgânica e natural». Os seus pais notaram, desde cedo, a sua inclinação e facilitaram-lhe a dança. Aos quatro anos mudou-se com a mãe de Viana do Castelo para Lisboa e aprendeu com a professora Margarida de Abreu, até aos sete anos. Aos oito, foi para o Teatro Nacional de São Carlos, onde dançou até aos 18. Joana D?Arc foi a primeira ópera que fez e o seu primeiro contacto com o palco e com o público. Admite que as histórias operáticas influenciaram as suas coreografias, mas gosta de dar espaço ao público para imaginar.

 

«Inspiram-me as coisas que passam pela minha cabeça e pelo meu corpo»    

Como foi a transição do clássico para o contemporâneo?
Já me tinha passado a fase da menina do tutu há muito? ainda no São Carlos, além das aulas com a minha mestra Ana Ivanova, tive aulas de contemporâneo aos sábados, porque na altura diziam que era bom para sentir os músculos? depois no Conservatório tive aulas diárias e foi aí que comecei a sentir outros sítios diferentes no meu corpo, outras expressões? nessa altura abriu-se um mundo novo para mim. Em outubro de 1976, com 20 anos, entrei para a Gulbenkian. Já tinha feito algumas peças lá, como a Petruska, ainda como aluna do Conservatório. E foi marcante a entrada do Jorge Salavisa para a Gulbenkian porque deu uma nova perspetiva do ballet contemporâneo.
 
A Gulbenkian marcou o início da sua carreira profissional como bailarina. Quando sentiu que queria ser coreógrafa?
Com cinco anos, em conversa com a minha mãe, que me explicava que quem fazia a dança eram os coreógrafos, eu disse: «Eu quero ser isso!». Na verdade, eu sempre tive o lado criativo muito vincado na dança? eu apresentava cenas com o vestido certo, a música certa e a cadeira certa, como num autêntico espetáculo de palco.
Os ateliers coreográficos, que aconteciam em julho na Gulbenkian e eram opcionais para os bailarinos, foram uma oportunidade para começar a fazer o trabalho de coreografia. Na segunda peça que fiz, fui logo convidada pelo diretor para fazer uma para a companhia. E a partir daí, tornou-se um caso sério para mim? tinha chegado a primeira bailarina, mas ainda era uma miúda e de repente já estava a coreografar bailarinos que eu admirava muito e que me ensinaram muito como espetadora.
 
O que levou da sua experiência de 18 anos na Gulbenkian?
O percurso na Gulbenkian foi muito bom, mas nada me chegou de bandeja. Tinha muita disciplina e trazia-a do que aprendi com a Ana Ivanova. A minha estadia lá foi muito importante e o Jorge Salavisa inspirou-me a fazer dança só pela dança? só movimento. Na altura não percebi porque gostava de peças que tinham uma história para contar. Mas mais tarde vim a perceber que essas peças, que ele exigia que eu fizesse, me deram as bases para depois fazer as minhas histórias? foi uma grande escola!
Quando comecei a fazer os meus solos em 1988, passei a descobrir outras coisas: as improvisações, menos mimetismo, a trabalhar com outro tipo de pessoas e isto ficou-me. E foi em 1993 que recebi um convite para ser diretora da Companhia de Dança de Lisboa, uma oportunidade perfeita para começar esse método de trabalho com um novo grupo, mais pequeno, de bailarinos que me escolhessem como sua coreógrafa. Porque mais importante para mim do que ir a audições escolher os bailarinos, era que os bailarinos me escolhessem a mim para fazer carreira. Mas eu não me dei bem com o administrador e, um ano e meio depois, acabei por me demitir.
 
E foi assim que acabou por criar a sua própria companhia?
Com o grupo de bailarinos que eu tinha a trabalhar comigo, era quase óbvio que eu podia continuar com a minha própria companhia. Foi uma sequência natural. E em fevereiro de 1995 fundei a Companhia Olga Roriz, com estreia no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, onde apresentámos a Introdução ao Princípio das Coisas II e Finis Terra II.  Em 1996, criei Propriedade Privada, peça este ano reposta no CCB.
 
Depois de 14 anos sem espaço fixo, como é estar num palácio?
Foi difícil andar de mochila às costas. Estivemos no CCB onde apresentámos uma série de peças, éramos quase residentes, depois conseguimos um espaço na Rua da Prata por três anos. E, há um ano, a Câmara Municipal de Lisboa cedeu-nos este espaço no Palácio Pancas Palha, em Santa Apolónia. Embora temporário, porque o espaço está à venda, é muito bom estar aqui porque permitiu a concretização da escola, com um curso de formação para bailarinos profissionais. É muito importante partilhar, e ainda bem que, em vida, posso estar a passar o meu legado. Pela primeira vez, vão sair sete finalistas e vamos apresentar no CCB o trabalho final destas bailarinas. Estar neste local possibilita também o intercâmbio de bailarinos residentes. A Companhia é um polo cultural para as pessoas da área da dança e não só. Também vêm fotógrafos, músicos, atores, entre outros artistas. Neste momento está tudo em ebulição e a crescer.
 
Como é o seu processo criativo?
É um processo interior. O meu ser, a minha maneira de sentir, de estar no mundo, de me apaixonar, de sofrer. Inspiram-me as coisas que passam pela minha cabeça e pelo meu corpo. Costumo ter ideias para cada uma das criações, umas muito concretas, sobre o tema, e o que vou pesquisar. Por exemplo, em Propriedade Privada, a nível cenográfico é tudo muito real, o ambiente sonoro também é muito importante. E o trabalho de criação também é muito de observar a vida, tem muito de contemplativo. Há outras criações, como a da peça Terra, que são mais abstratas. Aqui o corpo está em contacto com a terra, com a energia primordial, e também tem a ver com o início da dança, que começou com os homens a imitarem a natureza.

©Rodrigo de Souza

©Mariana Vieira da Silva; ©Alípio Padilha

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