Alexandre Farto

O homem que crava rostos nas paredes

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia J.P. Moreira

Esta história começa de forma ilegal. Alexandre Farto cresceu no Seixal, na margem sul do Tejo, rodeado por uma prática que o conquistou logo aos 10 anos: os graffiti. O contraste entre a decadência dos murais políticos pintados nas décadas de 1970/80 e a sua sobreposição pela publicidade nos anos seguintes desencadeou-lhe o interesse pela expressão visual. Foi a pintura ilegal no espaço público que o encaminhou para o estudo das artes na escola e o apresentou aos conceitos artísticos contemporâneos e clássicos. Hoje, com 28 anos, Alexandre é reconhecido por todo o mundo através da assinatura Vhils e do carimbo visual dos rostos cravados nas paredes. Trabalhando as ruas de forma a recuperar a dimensão humana das cidades, Vhils vai tornando «visível aquilo que é invisível» e conquistando os olhares de um público cada vez mais amplo. Para a revista Forbes, faz parte da lista de personalidades de sucesso com menos de 30 anos. Para Portugal, ele é Cavaleiro da Ordem Militar de Sant?Iago da Espada, condecoração que aceitou em nome da «geração desprezada deste país», forçada a emigrar e a investir os seus talentos noutras partes do mundo.

 

 

© Vera Marmelo

Máscara, óculos de proteção, martelo pneumático e estilhaços das paredes. Não existe nenhuma forma mais perfeita para lhe apresentar Vhils. 'Fruto' dos graffiti, uma arte incompreendida que «não deve ser compreendida por ser uma prática fechada em si mesma», Vhils começou o seu percurso munido de latas de spray. Quando deu por si já estava a participar na Visual Street Performance, uma iniciativa de street art em Lisboa, e a ver o seu portefólio a ser aceite na Central Saint Martins, em Londres. Em 2008, os rostos de duas mulheres no Cans Festival, organizado por Banksy nos túneis da estação de Waterloo, fizeram capa de jornais (que consagraram o seu trabalho como uma das dez melhores obras de street art do mundo)

Vhils começou o seu percurso munido de latas de spray.

Testando as potencialidades e limites dos materiais e valorizando os erros e os acasos, foi revelando o seu talento em várias plataformas. «Gosto muito de trabalhar com as paredes, de as cravar e esculpir; gosto das amálgamas de cartazes publicitários que recolho na rua, de cortar através das suas camadas e criar formas e composições; gosto das placas de metal, corroendo imagens com materiais abrasivos; gosto de madeiras velhas, que escavo com ferramentas de precisão; gosto das experiências em cortiça e em esferovite. Dos explosivos ao cimento, da fotografia ao vídeo, a lista é demasiado grande», explica facilmente. Mas conseguir descrever aquilo que faz já é uma tarefa mais difícil. «Não consigo descrever. Faço o que faço como trabalho artístico que pretende dialogar com um público abrangente, tornar a arte acessível a todos e no final tentar colocar em evidência situações que considero serem pertinentes e dignas de discussão», esclarece. E que questões são transversais às obras de Vhils? Sobretudo a reflexão sobre a vida nas sociedades urbanas contemporâneas. «Tenho vindo a desenvolver um trabalho baseado na leitura de contrastes que a vida nas cidades contemporâneas nos oferece, focando a importância do indivíduo face à complexidade do meio. As cidades refletem tanto o melhor como o pior da civilização. São ambientes complexos que não refletem preocupação na potencialização do indivíduo», afirma Vhils, fazendo referência ao crescimento desenfreado. Tentando embelezar o ambiente, dando «rostos às paredes como ato simbólico de recuperação da dimensão humana», o artista urbano tem levado a sua arte a vários pontos do mundo. Um dos projetos badalados foi a intervenção realizada no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, em que Vhils cravou os rostos de cinco pessoas que seriam desalojadas a propósito dos eventos desportivos a ter lugar no país (o Mundial de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016). Depois de um longo trabalho de pesquisa, ouvindo as histórias dos moradores que seriam expropriados e fotografando-os, Vhils tornou os seus rostos visíveis no que restava das suas habitações. Mais recentemente, a banda irlandesa U2 convidou-o a realizar o videoclip da música Raised by Wolves, integrado no projeto visual Films of Innocence. Dos antigos estaleiros da Lisnave, em Cacilhas, para o mundo, as escavações com recurso a explosivos de Vhils ilustraram uma letra que tanto lhe diz, numa relação com o contexto onde cresceu.

© Alexandre Silva; © Vhils Studio

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