João Nicolau de Almeida

«O Douro é como um piano onde se podem tocar as mais belas sinfonias»

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Manuel Teixeira

Com uma carreira naturalmente construída na enologia, João Nicolau de Almeida é uma estrela nos corredores dos vinhos em Portugal. Na Ramos Pinto há 40 anos, este apaixonado apreciador é descendente do próprio Adriano Ramos Pinto, fundador da centenária casa de Vinho do Porto e um dos homens mais vanguardistas do seu tempo. Falar de João Nicolau de Almeida é também falar do seu pai, Nicolau de Almeida, o famoso criador do Barca Velha. Também por isso, pelo peso de uma história familiar que tem de continuar a ser escrita, João Nicolau de Almeida deixa já um legado próprio, com a criação do reconhecido vinho de mesa Duas Quintas, não esquecendo que, mais recentemente, deu início a um novo projeto, o Quinta Monte Xisto. Um homem que vive para o vinho, oriundo de uma família secularmente ligada ao negócio e onde, como o próprio gosta de dizer, já se nasce com vinho no sangue.

«O Vinho do Porto é um embaixador de todo o país»

Adriano Ramos Pinto usava imagens do Douro vinhateiro, monumentos da cidade do Porto e de Gaia, no sentido de dar a conhecer a cidade e a região ao consumidor estrangeiro. O Porto e o Douro de hoje, como destinos turísticos, são um fruto desse trabalho embrionário iniciado há mais de cem anos?
Adriano vivia em Paris e tinha contacto com os grandes artistas da época, com quem procurava recolher ideias para cartazes. Foi nessa altura que, pela primeira vez, deixou de haver censura, apareceram os nus e ele levou essa cultura para o mundo inteiro, fundamentalmente para o Brasil. No Brasil tinha tanta força que o Vinho do Porto se chamava «Adriano». Podemos dizer que o Adriano foi o grande precursor do marketing no setor do Vinho do Porto, o primeiro que deu importância à garrafa, que tinha que ser bonita, uma peça de arte. Em termos de marketing em Portugal, o Adriano é um case study.
 
Já no final do século XX, Adriano enviava para o Brasil brindes com elementos icónicos da cultura portuguesa. Foi esta aposta que começou a tornar icónicos o Porto e Gaia ribeirinhos?
Sem dúvida. Ainda hoje, no Brasil, se conta que, quando chegava o vapor, o cais estava cheio porque as pessoas queriam ver qual era o brinde que vinha na caixa. E nesses brindes vinham os tais cinzeiros com ilustrações de azulejos do Porto, as fotografias e até livros de Camões, obras do Teixeira Pascoais, do Medina... Toda essa cultura era transportada através desses brindes.
 
No fundo foi pioneiro a conciliar o comércio à arte...
Exatamente, ele trabalhava ao mais alto nível cultural. Trabalhava com os melhores artistas, mesmo com algumas vedetas mundiais, de todos os sectores transversais à arte, desde a pintura à escultura, passando pela música.
 
Pode-se afirmar que o vinho do Porto, o Douro, as caves, são embaixadoras da cidade do Porto?
O Vinho do Porto é um embaixador de todo o país. Dizia-se que, de Portugal, se conhecia o Vinho do Porto, a Amália, o Eusébio e Fátima. O Vinho do Porto é o mais antigo, já vem do século XVII.
 
O Douro, o Porto e a ribeira de Gaia. Estamos perante o triângulo mais bem sucedido na produção de vinhos?
Ainda não é o mais famoso porque isto demora o seu tempo. Nós começamos há pouco tempo. Mas que se está a implementar com grande velocidade, está. Nos últimos 30 anos passámos praticamente da Idade Média para um mundo completamente diferente, no que diz respeito aos jovens no setor, ao turismo...
 
Referiu os jovens. Fala muitas vezes da dificuldade de os jovens integrarem o setor, devido à necessidade de assegurarem um stock de 150 mil litros. Isto mantém-se?
Infelizmente mantém-se. É necessário um rejuvenescimento no setor e para isso é preciso a irreverência e motivação dos jovens. É preciso novas ideias e novos caminhos. Não há nenhum setor que possa viver sem renovação. Os jovens têm que ter tenacidade para lutar pelo que querem mas o setor também tem que perceber que precisa deles.

O negócio está monopolizado pelas grandes produtoras?

Está circunscrito. Um jovem não tem dinheiro para criar stocks. Mas também não se pode pegar numa varinha de condão e de um momento para o outro muda-se tudo. É preciso fazer isto com bom senso.


E em relação aos agricultores, é um setor que está estável ou há dificuldades?

Felizmente o Vinho do Douro deu um grande impulso à região do Douro. Começámos com o Duas Quintas uma nova era para o Vinho do Douro, que só existia de forma tradicional. O Duas Quintas foi um projeto de grande sucesso e motivou todas as outras casas exportadoras para se juntarem a nós neste mercado de Vinhos do Douro, o que foi muito benéfico para a região. Só com Vinho do Porto, não sei se a região hoje ainda aguentaria...


Isto é uma tentativa de comercializar o Douro?

Claro. Uma quinta tem uma autorização limitada para fazer Vinho do Porto. Nós tínhamos uma quinta onde só metade podia ser utilizada para fazer Vinho do Porto, sendo que o resto partia para destilação. O Vinho do Douro veio valorizar toda essa parte.


O Duas Quintas é um vinho com forte cunho pessoal. É o maior orgulho na carreira?

É, com certeza. Mas é também a consciência de que na Ramos Pinto se desenvolveu um intenso trabalho a nível técnico e de gestão. Estamos agora a celebrar 25 anos e vemos que a marca está com muita força. Exportamos para todo o lado e é uma marca muito reputada, sobretudo devido à consistência de qualidade ao longo dos anos. Fazer um vinho bom acontece, mas fazer todos os anos um vinho bom é mais complicado.


Mas afinal, que características especiais tem o Douro para que seja uma região vinícola por excelência?

O Douro é uma região muito heterogénea, que dá muitos tipos de vinho. Não é uma região plana, tem vários microclimas e vai fazendo vários tipos de vinho e, devido a essa heterogeneidade, dá para afinar o vinho em função do ano. Cada microclima é como se fosse uma nota de um piano e o Douro é como um piano onde se podem tocar as mais belas sinfonias. Estamos a aprender as nossas sinfonias e a desenvolver isso. Já temos Vinhos do Douro considerados excelentes pelas melhores revistas do mundo.


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