Daniel Bessa

«A economia portuguesa tem que crescer pela exportação»

\\ Texto Estela Ataíde
\\ Fotografia Manuel Teixeira

Diretor-geral da COTEC Portugal ? Associação Empresarial para a Inovação desde 2009, Daniel Bessa dedica os seus dias a promover a competitividade das empresas portuguesas, fomentando uma cultura de inovação. Com uma breve passagem pelo cargo de ministro da Economia, Indústria, Comércio e Turismo do governo liderado por António Guterres, admite com candura não ter sido talhado para a política, destacando o ensino como o universo onde se sentiu mais realizado, nomeadamente durante os anos passados na Escola de Gestão do Porto, na qual além de docente foi presidente da direção. Com passagens por diversas esferas, do ensino ao mundo empresarial, passando por cargos públicos, Daniel Bessa conhece bem Portugal, a sua economia, política e sociedade, e foi com base neste conhecimento que fez à Villas&Golfe uma radiografia do país, dos erros cometidos aos passos essenciais para um futuro mais promissor.    

«O equilíbrio das contas públicas será um dos resultados do crescimento económico»    

Que análise faz do Portugal de hoje?

Penso que vivemos a ressaca de uma grande ilusão. Sobretudo com a adesão à União Europeia e depois com a introdução do Euro, acreditámos numa trajetória de aproximação aos valores médios da União Europeia. E vivemos, de uma forma aberta há quatro ou cinco anos, a evidência de que isso não se concretizou, de que isso vai ser, no mínimo, muito mais difícil do que se poderia pensar. O que, do meu ponto de vista, caracterizaria melhor este tempo é essa deceção, acompanhada também de grande incerteza quanto ao futuro. O PIB não terá chegado a recuar 10% relativamente aos tempos em que atingiu o máximo, mas as expectativas caíram muito mais do que isso.

 

Há aqui muitas expectativas defraudadas?

Sim, convencemo-nos de que tínhamos entrado numa estrada, não diria para a felicidade, mas para a melhoria das condições de vida. Durante uma série de anos houve algumas manifestações de que poderia ser assim, mas na segunda parte dos anos 1990 já havia sinais de que a coisa não corria muito bem. O crescimento foi feito muito à custa do mercado interno, com muita dívida, seja do Estado, seja das famílias, o peso das exportações diminuiu... Quando uma economia cresce tão puxada pelo consumo como nós crescemos, com um desempenho tão modesto na área das exportações, as pessoas mais informadas tinham obrigação de saber que a coisa acabaria mal.

 

Durante mais de uma década, Portugal incorreu em défices com o exterior na ordem dos 10% do PIB. É um traço português contar com o crédito?

É o que se chama viver acima das possibilidades. Isso dá lugar a um número assustador, dá dois milhões de Euros por hora, durante as 24h do dia, de cada um dos 365 dias do ano, durante dez anos seguidos. Os dez milhões de portugueses endividaram-se a este ritmo. Os credores são muitos e podiam não ter uma ideia do país na sua totalidade, mas há organizações internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, que têm uma informação consolidada. E devo dizer que me surpreendeu como é que os credores não falaram mais cedo e mantiveram o financiamento durante tanto tempo, a ponto de agora haver quem diga que a culpa é deles. Não chego a esse ponto, sou muito dado a assumir as minhas próprias responsabilidades, mas surpreende-me como é que os credores não perceberam.

 

Falou há pouco tempo de uma diligência levada a cabo em 2009 por um grupo de empresários portugueses junto do então primeiro-ministro e do ministro das Finanças, no sentido de mostrar preocupação pelo crescente endividamento e despesa do Estado.

Os anos 2000 foram anos em que o Estado se pôs a gastar cada vez mais, para tentar remediar, entregar o que a economia privada já não podia entregar. Vieram muitas obras públicas e eu fui um dos subscritores de um manifesto, que na altura teve algum eco, contra as obras públicas. É no meio desses tempos que um grupo de empresários portugueses - o único que até agora falou publicamente sobre isso foi Alexandre Soares dos Santos - resolveu, de uma forma mais reservada, abordar o primeiro-ministro, transmitindo-lhe a sua preocupação. Fui, de facto, uma das duas pessoas que redigiram o texto que esse grupo de empresários foi apresentar ao primeiro-ministro, acompanhado do ministro das Finanças. E a reação foi muito má.

 

O rumo dos acontecimentos poderia ter sido diferente se a recetividade de José Sócrates tivesse sido outra?

Considero que, por mais que as coisas se estivessem a degradar, quanto mais cedo se travasse, melhor. Quando é que se travou? Quando o ministro das Finanças, por contra própria, contra a orientação do primeiro-ministro, veio dizer que tínhamos que recorrer à ajuda externa.

 

Foi a propósito desse ignorar dos alertas que comparou José Sócrates a um terrorista?

O que se passou foi o seguinte: a propósito destes processos, quando um país, uma pessoa ou uma empresa se endivida excessivamente, costuma dizer-se que vai ?bater na parede?. Aquelas imagens do 11 de setembro de 2001 não podem deixar de impressionar, porque alguém precipitou aqueles aviões contra uma ?parede?, sabendo o que estava a fazer. Por que é que usei essa figura? Porque o responsável máximo por aquele sinistro não foi a pessoa que ia ao comando daquele avião. A pessoa que ia ao comando do avião era um operacional, sabia o que ia a fazer, mas não foi o responsável máximo.

 

Quem foi, então?

Acho, por exemplo, que o Banco de Portugal, numa função de supervisão sobre estas matérias, falhou. Do Banco de Portugal chegou a vir a opinião de que, com a entrada de Portugal no Euro, não havia restrições ao endividamento externo. Considero isto uma irresponsabilidade muito grande. Penso, em suma, que a pessoa que executou a operação não é necessariamente o responsável maior. Apesar de advertido, no seu íntimo, José Sócrates acreditava que não ia acontecer nada.

 

Não tinha noção da real dimensão da catástrofe que se seguiria?

Foi alertado, por pessoas que lhe disseram que ia acontecer rigorosamente o que aconteceu, mas não acreditou. Sabia que pilotava um aparelho a caminho de um destino que alguns lhe tinham dito que seria fatal, mas é uma pessoa que confia extremamente em si. Quando usei a metáfora 11 de Setembro de 2001 (uma imagem fortíssima, de um avião a caminho de uma ?parede?, levando-nos a todos dentro, como reféns), houve quem quisesse ver nessa alusão a acusação de terrorismo, quando a intenção foi mostrar que nem sequer é quem conduz o avião no momento do embate o responsável maior.

 

Falava há pouco da importância da exportação para uma economia saudável. Como vê a aposta que tem sido feita na exportação?

Uma economia tão pequena como a portuguesa não pode pensar que os portugueses é que vão comprar o que se produz aqui. Até porque temos que comprar muitas coisas ao exterior ? energia, alimentação, etc. - e para podermos comprar ao exterior temos de vender ao exterior. Acho que Portugal se atrasou no reconhecimento disso. As exportações caíram a 28% do PIB, em 2008, e países da nossa dimensão podem chegar a exportar 70% do PIB. Portanto, a economia portuguesa não pode crescer pelo mercado interno, tem de crescer pela exportação.

 

Disse há alguns meses que «um país como Portugal e no contexto da Europa só tem duas maneiras de vender: ou barato ou inovando». A inovação é incontornavelmente a solução para a economia portuguesa?

Sobretudo se não podemos vender barato. E é difícil um país europeu aparecer a concorrer com a China, a Índia, o Vietname com o argumento de que é barato. Na Europa, por maioria de razão na Área do Euro, é muito difícil concorrer com base em preço.

 

E os empresários já se mentalizaram de que a inovação é o caminho a seguir?

Aprenderam à sua custa. Mesmo uma indústria como o calçado, um exemplo de sucesso, já não é o que era. Hoje, muitas empresas portuguesas de calçado já importam componentes. Fazem o desenho, o desenvolvimento, seguramente acabam o calçado aqui, mas a indústria portuguesa do calçado já importa muitos componentes. Isso mostra que as indústrias souberam adaptar-se, inovando.

 

Quais são os maiores desafios no desempenho das suas funções na COTEC, no sentido de promover a inovação no meio empresarial?   

Diria que são dois. Nos rankings que estão disponíveis sobre inovação, Portugal desempenha pior à medida que nos aproximamos do mercado. Em matéria de formação de recursos humanos, Portugal tem hoje mais doutorados na idade entre os 25 e 34 anos do que a média da União Europeia. Se formos ver as patentes, Portugal já está a 17% da média da União Europeia, percentagem que cai para 3% da média se considerarmos as receitas que conseguimos obter com essas patentes. Isto significa que há aqui problemas grandes na ligação entre a parte académica e as empresas. Por outro lado, as empresas portuguesas, e isto são números das PME, declaram-se muito inovadoras.

 

E há de facto um investimento das empresas portuguesas na inovação?

Não. Essa é outra linha. Se os resultados são tão modestos, talvez as pessoas quando se dizem inovadoras não estejam a pautar-se por um nível de exigência muito grande. A inovação tem que acabar em resultados e se não acaba em resultados, não somos tão inovadores. Em algum momento é preciso que essas capacidades, essas competências passem para a área empresarial, onde se vai produzir e vender alguma coisa.

 

Como se constroem essas pontes?

Na COTEC insistimos muito para que desde cedo haja empresas e gente ligada às empresas próxima da atividade de investigação. A investigação pode continuar a ser feita na universidade, mas deve responder a desafios levados pelas empresas. Os países do mundo que fazem melhor não são os que gastam mais dinheiro em Investigação e Desenvolvimento (I&D), são aqueles onde a parte das empresas nas despesas de I&D é mais elevada. A variável crítica não é quanto por cento do PIB gastam em I&D, é quanto por cento do PIB se gasta em I&D no setor empresarial. A percentagem das despesas de I&D feitas pelas empresas em Portugal anda, julgo eu, pelos 48%. Os países que estão à frente andam na casa dos 70%.

 

Quando começámos pedi-lhe uma avaliação do Portugal de hoje. O que lhe parece necessário para que Portugal retome com segurança o crescimento económico e o equilíbrio das contas públicas?

Diria que desses dois problemas o mais importante é o crescimento; o equilíbrio das contas públicas será um dos resultados do crescimento económico. E se a economia portuguesa quiser crescer tem de o fazer com as empresas que tem, muito pequenas mas muito mais viradas para o exterior. Penso que é por aí que passará a recuperação da economia portuguesa.    

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