Joana Rego

«Faço parte de uma longa lista de portugueses a ter sucesso além-fronteiras»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Vítor Duarte

Com as bases da Escola Alemã de Lisboa e do curso de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), Joana Rego abandonou Portugal ao abrigo do programa Erasmus. Passou pela Université Paris Ouest Nanterre la Défense, pelo Instituto de Ciência Política de Paris (Sciences Po) e, quando deu por si, estava a desempenhar funções como consultora junto da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). De Paris seguiu para Bruxelas, mas foi Londres que a conquistou. Mesmo sentindo-se uma small town girl à chegada, Joana Rego escolheu a capital britânica como morada desde 2009. Hoje é associate partner da GPW, uma empresa de inteligência empresarial que serve multinacionais, investidores e organizações governamentais. A sua dedicação valeu-lhe o reconhecimento pela revista Management Today, que a incluiu na lista das 35 mulheres abaixo dos 35 anos com mais sucesso no mundo dos negócios no Reino Unido. Gerindo uma carreira e, ao mesmo tempo, uma família, esta portuguesa é especialista em resolver problemas. Mas, com um sorriso que nos parece ser a sua imagem de marca, confidencia-nos: «adorava que o meu dia tivesse mais horas».    

Saiu de Portugal em 2002 e passou por entidades académicas importantíssimas. Como foi essa experiência?

Saí através do programa Erasmus, para a Université Paris Ouest Nanterre la Défense, reconhecida como o berço da sociologia. Cedo percebi que as oportunidades que me esperavam em Paris, na minha área, seriam bem superiores àquelas que me esperariam em Portugal. Candidatei-me ao Sciences Po, o Instituto de Ciência Política, onde terminei o mestrado com uma especialização em Conflitos e Segurança, em 2005. Foi, em parte, o ensino dito generalista do Sciences Po que ajudou a sedimentar uma qualidade que hoje acredito ser central ao meu sucesso pessoal e profissional: a capacidade de resolução de problemas. É uma escola que longe de nos ensinar tudo, ensina-nos a pensar um pouco acerca de tudo.

 

É especialista em resolver problemas. Com que tipo de questões lida diariamente no seu trabalho na GPW?

Gosto de me rever nessas palavras porque é exatamente isso que eu faço. Lido com uma variedade de questões pelo mundo fora. Questões que vão desde a cartografia de interesses e canais de influência no Cazaquistão para um cliente com investimento no setor energético, ao mapping de embargos à Rússia para clientes com investimentos sob ameaça de sanções impostas pelos EUA ou UE; desde uma investigação de uma infração no setor farmacêutico na América Latina com vista a que o cliente possa iniciar uma ação legal contra o infrator, ao rastreamento dos ativos de uma família asiática no contexto de uma fraude bancária cometida contra um banco multinacional. Estes são apenas alguns exemplos. Obtenho informação de ordem confidencial que permitirá aos meus clientes resolver um problema no contexto de um investimento, uma ação legal ou outra situação de negociação ou decisão comercial.

 

Está presente na lista de gestoras de topo no Reino Unido, escolhidas pela revista Management Today. Num meio tão competitivo, como é ser distinguida desta forma?

É uma honra fazer parte desta lista, mas também sinto que faço parte de uma longa lista de portugueses a ter sucesso além-fronteiras. É com muito orgulho que vejo o meu trabalho reconhecido pela comunidade empresarial britânica e gosto especialmente de poder vestir a camisola portuguesa ao fazê-lo.

 

No ano passado, mesmo de licença de maternidade, conseguiu angariar 717 mil euros em negócios para a GPW. Como foi isso possível?

Foi um bom ano para mim, sem dúvida. A realidade é que a vida continua para os meus clientes. Continuam a investir em novos mercados, continuam a cometer-se fraudes e a haver disputas judiciais que necessitam da nossa ajuda. Estive sete meses de licença (em Londres a lei dita um ano de licença de maternidade), mas durante esse período mantive-me sempre ligada à empresa e aos meus clientes. Participei em reuniões em Londres, Lisboa, Madrid, Paris e até passei 24h em Nova Iorque.

 

Ser mulher nunca foi um entrave para o sucesso nos negócios, mas infelizmente a posição feminina sempre foi vista como vulnerável. Acha que essa ideia ainda existe?

Até agora nunca senti entraves por ser mulher. Acho que as mulheres têm qualidades de trabalho e liderança fundamentais às empresas e organizações: somos dedicadas, leais, trabalhadoras e determinadas. Temos bons instintos e sabemos utilizar a nossa inteligência emocional na identificação de oportunidades e resolução de problemas. A vulnerabilidade está associada à questão da gestão entre a vida familiar e a vida de trabalho. Daí que quantas mais mulheres consigam chegar ao topo e lutar pelo equilíbrio, que em grande parte passa pelo equilíbrio em casa com a família e uma flexibilidade acrescida no local de trabalho, mais depressa se dissipará esta ideia de vulnerabilidade.

«Precisamos de quebrar as barreiras do que nos é conhecido»    

E como é gerir uma carreira e, ao mesmo tempo, uma família?

Adorava que o meu dia tivesse mais horas! (risos) Aprendemos a estabelecer prioridades e a ser mais eficazes. Também aprendemos a dar mais valor a certos momentos. A conciliação torna-se mais fácil quando temos uma estrutura que nos apoia diariamente. No meu caso, um marido muito presente e dedicado, uma empresa que me oferece uma estrutura flexível e uma babysitter cinco estrelas.

 

São muitos os portugueses a alcançar o sucesso além-fronteiras. Acha que o país não tem condições para cativar esses talentos?

O facto de haver portugueses de sucesso além-fronteiras é muito positivo para a imagem do país. Cada português de sucesso é como um embaixador da qualidade do capital humano português. Automaticamente, ajudamos a promover a nossa cultura, o turismo, o vinho, a gastronomia, as pessoas. Esta veia de explorador está-nos no sangue e faz com que estejamos expostos a novas ideias, novos mercados e novos conceitos. Infelizmente, cada vez mais se criam inovações portuguesas fora de Portugal e isso tem de mudar. Há necessidade de criar incentivos para que as ideias possam nascer e crescer em solo português. Temos de ser mais otimistas e arriscar nas nossas ideias e produtos.

 

Acha que os gestores portugueses têm medo de arriscar?

Na minha experiência, o típico gestor português ? e a mentalidade portuguesa em geral ? ainda sofre de algum conservadorismo. Aposta no que conhece, em quem conhece e da maneira que conhece. E hoje, precisamos de quebrar as barreiras do que nos é conhecido.

 

Sente-se realizada?

Não tenho qualquer dúvida que, por agora, todas as facetas da minha vida estão realizadas. Tenho uma atitude positiva e evito dramatizar. A vida dá muitas voltas, mas com a atitude certa existem ?problemas? que nunca o chegarão a ser.    

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