Francisco Lufinha

«Desportos que têm emoções fortes são os que mais me cativam»


\\ Fotografia João Ferrand/ JFF

Nascido alguns séculos fora do tempo dos Descobrimentos, Francisco Lufinha é um amante de desportos radicais que quis dar continuidade à tradição portuguesa de exploração marítima. E, se já há muito pouco para descobrir nos mares da costa portuguesa, este kitesurfer lançou-se na aventura de ligar Lisboa ao Machico, na Madeira, no preciso local onde, em 1419, os portugueses aportaram na ilha. Não foi possível chegar ao Machico mas, ainda assim, foram 874 quilómetros percorridos durante 47 horas e 37 minutos non-stop, numa aventura extrema que incluiu duas noites passadas em pleno Atlântico, com muitas peripécias à mistura e um recorde mundial quebrado.

 

Começou cedo no mar. Experimentou vários desportos aquáticos, mas foi o kitesurf que o tornou famoso. Como surgiu esta paixão?

Desde que nasci tenho esta paixão pelo mar. Desportos que têm emoções fortes são os que mais me cativam. Comecei a praticar kitesurf em 2002 e fiquei logo fã do desporto porque junta um bocadinho de todos os outros. É bastante versátil, já que conseguimos saltar alto, apanhar ondas, andar a altas velocidades e, neste momento, até consigo fazer travessias oceânicas, o que não é muito comum.

 

Como surgiu a ideia de fazer estas maratonas atlânticas?

Na nossa costa há sempre vento, principalmente no verão. Temos sempre nortada e, em conversa com amigos, sempre achámos que fazer a costa seria um desafio interessante. A ideia inicial incluía paragens mas, como gosto de desafios, resolvi fazer tudo direto. Fui do Porto a Lagos, que era algo que nunca tinha sido feito, até porque incluía uma noite no mar. Correu muito bem e, por isso, comecei a pensar mais além. Pensei numa forma de realizar o sonho de percorrer todo o nosso mar, que é enorme, e ligar o continente às ilhas de kitesurf.

 

Foram 47h37 non-stop. Como é que se gere o sono e o cansaço?

No primeiro desafio, que foram 29 horas, não me tinha acontecido nada a nível mental, mas desta vez alucinei bastante. A partir das 28 horas comecei a ver coisas fora do normal, como algas, o mar passou a ser castanho, tudo muito assustador. As cristas das ondas pareciam uns bichos que também não consigo identificar, até porque a lua só nasceu à 1h30 nos dois dias e, entre as 23h30 e a 1h30, estava completamente escuro, o que dava azo a esse tipo de alucinações. Na segunda noite, já com a lua no céu, eu imaginava atrás de mim uma praia com uma falésia enorme, devido ao reflexo lunar. Adormeci várias vezes de pé, em pequenas quebras de 30 segundos. São muitas horas de cansaço e de esforço.

 

A noite é o mais difícil?

Eu costumo gostar da noite porque não há sol, que é muito agressivo, mas confesso que desta vez tive problemas nas duas noites. Numa das vezes que adormeci cruzei-me diretamente em frente ao barco de apoio, que é um catamarã, e fiquei exatamente no meio. Passei por baixo do barco e felizmente pararam imediatamente os motores, mas as linhas do kite ainda ficaram presas ao motor. Foi o maior susto da minha vida, mas depois acabaria por ser bastante positivo, porque fiquei bastante desperto, com a injeção de adrenalina.

 

Que tipo de treino teve?

Estou a treinar desde agosto de 2014. Sempre que há vento vou para o mar fazer o máximo número de horas. Treinar no mar é sempre complicado porque o vento é inconstante.

 

Chegou à Madeira carregado em ombros. Qual era o seu estado físico?

As últimas quatro horas de viagem até à Madeira foram de barco e aí já dormi um bocado e recuperei. Cheguei a Machico já frio, com o corpo de ressaca. Tive que ir a braços e às cavalitas, já que tinha os joelhos em bastante mau estado. Estava todo inchado. O sol e o sal são as piores coisas do mar.

 

O sacrifício vale a pena pela sensação de ter quebrado o desafio a que se propôs?

É ótimo. Chegámos a Machico e tínhamos mais de 300 pessoas à espera. Os órgãos de comunicação presentes e a minha equipa com um sorriso de orelha a orelha. É um objetivo cumprido e o recorde mundial da maior viagem em kitesurf sem paragens. Duvido que alguém volte a conseguir fazer algo deste estilo, sem paragens.

 

Para onde sopram os próximos ventos do desafio?

Estou a descansar. Espero conseguir correr até ao final de agosto. Agora tenho alguma curiosidade em ver o que consigo fazer em torno dos Açores. Mas de Lisboa aos Açores é impossível? Estou a pensar numas competições internacionais, com vários países em competição. A ideia é divulgar o nosso mar e fazer coisas à volta dele, que é a minha paixão.    

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