Museu Nacional dos Coches

A garagem dos clássicos

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Nuno André Santos

A 23 de maio de 1905, a rainha D. Amélia d?Orleães e Bragança, princesa de França e casada desde 1886 com o futuro rei de Portugal, D. Carlos I, inaugurou em Lisboa o Museu dos Coches Reaes. Construído em 1726, o salão do antigo Picadeiro Real, projetado pelo arquiteto italiano Giacomo Azzolini, foi o local escolhido para instalar o primeiro museu dos coches do mundo. O sucesso foi imediato, mas a falta de espaço para expor as restantes viaturas da Casa Real, guardadas nas cocheiras de diversos palácios, deixou a rainha insatisfeita. Em 1906, é encomendado um novo projeto para ampliar o museu e, após a implantação da República em 1910, a coleção aumenta com a chegada dos coches e berlindas da extinta Casa Real e de viaturas até aí pertencentes à Igreja.

Exatamente 110 anos depois de a rainha D. Amélia ter dado ordens para a construção daquele que se tornaria o Museu Nacional dos Coches, a coleção única composta por viaturas de gala e passeio dos séculos XVI a XIX ganhou uma nova morada. Desenhadas pelo arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha, as instalações mais amplas deste museu estão localizadas em Belém, onde outrora estavam as Oficinas Gerais do Exército. Quanto ao Picadeiro Real, continuará aberto ao público e guardará alguns coches e berlindas, a galeria de pintura da dinastia de Bragança e acessórios de cavalaria.

São mais de 70 exemplares numa nova área expositiva com cerca de seis mil m2. Dividido em duas áreas, ligadas entre si, o edifício conta com um valioso extra: os 26 carros que vieram do núcleo museológico de Vila Viçosa. Na área principal, os visitantes ? que de acordo com a estimativa apresentada pelo secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, serão cerca de 350 mil por ano ? poderão entrar a bordo de uma viagem pela História hipomóvel, não só da última dinastia dos reis portugueses, mas também das monarquias europeias dessa época. Coches, berlindas, carros eclesiásticos, liteiras, cadeirinhas, carros de grandes boulevards, carruagens de gala e até uma mala-posta dos correios tornam esta coleção «a mais completa e mais sumptuosa coleção do género, pela quantidade, variedade e qualidade artística», nas palavras do Presidente da República, Cavaco Silva, por altura da inauguração do novo espaço.

De caixa aberta e revestido a couro preto com pregaria dourada, o coche que o rei Filipe II de Portugal (Filipe III de Espanha) terá usado na sua visita a Portugal, em 1619, é a peça mais antiga da coleção. Com o interior forrado a veludo cinzelado vermelho sobre fundo amarelo, este coche é um exemplar raro de uma viatura régia. Mas, de exemplares raros está este museu único cheio. Para além dos coches de D. Pedro II e do Papa Clemente XI, há objetos clássicos que tornam esta coleção ainda mais deslumbrante. Instrumentos musicais como a Trombeta da Charamela Real, do século XVII, e a Caixa de Guerra da Casa Real, do século XVIII; fardamentos como o do Charameleiro da Casa Real, do Cocheiro Mor da Casa Real ou do Archeiro da Guarda Real, dos séculos XVIII e XIX; arreios; lanças de roca; selas portuguesas; escudos para torneios equestres; espadins; e até o manto da rainha D. Amélia, do século XIX, são alguns dos exemplos. À parte desta zona expositiva, o renovado Museu Nacional dos Coches inclui agora uma área de biblioteca, cafetaria, auditório e oficina de restauro. O objetivo continua a ser o mesmo de sempre: garantir a divulgação, investigação e conservação das viaturas e permitir aos visitantes compreender a evolução técnica dos meios de transporte utilizados pelas cortes europeias até ao aparecimento do automóvel.    

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