Mário Ferreira

«Ao promovermos a marca Douro Azul, estamos a promover a cidade e a região»

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Daniel Camacho

Mário Ferreira foi um dos grandes responsáveis pela internacionalização turística do sinuoso correr do rio Douro. O portuense, presidente da Douro Azul, empresa que se dedica à exploração dos cruzeiros fluviais, é um dos empresários de maior sucesso no tecido empresarial português, estende o seu património e os seus investimentos a montante e a jusante da empresa de cruzeiros do Douro, tendo adquirido recentemente a Nicko Cruises, a maior operadora de cruzeiros da Alemanha, que atravessava um processo de insolvência. Um estratega na área do turismo, a aposta inicial de Mário Ferreira assentou no Porto e no Douro, uma região turisticamente virgem no início dos anos 1990 e que agora cresce exponencialmente, afirmando-se como um dos destinos mais em voga no panorama europeu. Visionário, está em lista de espera para ser o primeiro turista espacial português e, entre risos, não põe de lado a hipótese de explorar o turismo? lunar.    

Em 1993, com apenas 25 anos, cria um serviço de cruzeiros no Douro. Foi pioneiro a vender o Porto como destino turístico?

O Porto como destino turístico é uma realidade recente. A maior parte das pessoas nem se lembra de que o Porto não só não era uma cidade turística, como até tinha um ar hostil para o turista. Era uma cidade fechada e o turista tinha que ser muito aventureiro para andar pelas ruas da ribeira como se anda hoje. Agora, a cidade está aberta, mas ainda há poucos anos os hotéis de cinco estrelas da cidade, ao fim de semana, estavam praticamente vazios, só tinham clientela durante o decorrer das feiras da Exponor.

 

Mais do que ser pioneiro, sente que foi o grande impulsionador do turismo no Porto?

Fui um dos que impulsionou. Há dez anos, a Douro Azul gastava mais sozinha do que todas as regiões de turismo locais a promover o Porto e o norte. E ainda hoje, provavelmente, não andaremos muito longe desta realidade, já que se investia muito pouco dinheiro a promover a região. A verdade é que nós, ao promovermos a marca Douro Azul, estamos a promover a cidade e a região.

 

Deve ter sido desafiante arrancar com uma zona turisticamente virgem.

Sim, mas é nesses sítios que se encontram as grandes oportunidades e a possibilidade de crescer. Era uma zona em que ninguém acreditava e, quando comecei, toda a gente dizia que o Douro ia ser um fracasso. Mas ainda bem que ninguém acreditava, já que assim pude trabalhar calmamente, sozinho, sem stress, e agora posso recolher esses benefícios.    

«Quando comecei, toda a gente dizia que o Douro ia ser um fracasso»    

Voltou a Portugal, após cerca de uma década no estrangeiro, e em poucos meses abriu um restaurante, comprou um barco e montou uma empresa. Como é que em apenas dez anos fora do país se conquista tanto poder de investimento?

Foi muito fácil. Primeiro, o restaurante trabalhava muito bem. Tinha ali um bom negócio e acabei por pagar o restaurante muito mais rápido do que esperava. E, claro, na altura a Douro Azul não era o que é hoje. Começou com um barquito pequeno, de 120 lugares, e depois fomos sempre crescendo, passo a passo. Aquilo que eu fui fazendo foi multiplicar o que ganhava, reinvestindo. Depois também começámos a desenvolver um bom know-how para nos candidatarmos ao que estava disponível no Turismo de Portugal, os fundos do QREN, e conseguimos fazer grandes feitos e multiplicar tudo muito rapidamente. Houve uma ocasião em que encomendámos quatro navios de uma só vez.

 

Mas quando monta o restaurante já tem a Douro Azul em mente?

Deixei o meu primo como gerente do restaurante e avancei logo para o próximo projeto. Aquilo que eu gosto é exatamente isso, é aquilo que está a suceder agora no negócio da Alemanha, que foi comprar um negócio que estava em dificuldades, com um potencial brutal, transformá-lo e pô-lo a faturar.

 

Fale-me sobre o negócio da Alemanha.

É o maior operador de cruzeiros da Alemanha. Com esta empresa, neste momento temos navios por todo o mundo. Estamos a divulgar, ao ponto de já termos enviado 250 mil brochuras para casa dos alemães.

 

Quantos navios garantiu com essa operação?

São 20 mega navios hotel.

 

A Douro Azul teve um papel chave na internacionalização do Douro. Como é que, principalmente nos anos 1990, se vendia uma região do norte português, então desconhecida fora de portas?

Teve muito a ver com a combinação de uma oferta semanal, com o cruzeiro de uma semana, em que os clientes visitavam uma cidade histórica como o Porto, mas essencialmente vinham para visitar a região do Douro. O Porto era a porta de entrada e a porta de saída, com a grande atração a ser uma região virgem, que era a subida pelo Douro. O sucesso do lançamento foi a descoberta em primeira mão de uma região como esta. 

Ainda recentemente trouxe a Sharon Stone ao Porto, numa campanha de soft marketing. A ideia era pôr o nome ?Porto? a circular nos media americanos? 

Nós já não tínhamos nada para vender, já que na verdade os cruzeiros estavam todos cheios. Então pensei: não temos nada para vender, o melhor é fazer uma grande festa. Fizemos uma festa de notoriedade à marca, de modo a pôr a marca a ser falada, o que é também uma forma de subir o preço.

 

O advento turístico do Porto é muito associado às companhias low-cost. No entanto, o Mário não vende propriamente soluções para ?mochileiros?. Estamos perante uma cidade assim tão heterogénea? 

É importante, em qualquer destino turístico, existir uma variedade de segmentos. A meu ver, aqueles que são hoje os ?mochileiros? serão no futuro os médicos, engenheiros e empresários que terão dinheiro para gastar nos nossos cinco estrelas. O Porto tem essa capacidade de ser heterogénea e todos vivem muito bem, lado a lado. Juntos, acabamos por fazer do Porto uma cidade velha cheia de juventude.    

«O secretário de estado do Turismo fez um bom trabalho a promover Portugal lá fora»    

A Douro Azul cresceu de tal forma que dificilmente terá concorrência. Estamos perante um monopólio?

Não é um monopólio, estamos é bem lançados nesse segmento. Digamos que a Douro Azul está bem enquadrada no setor.

 

O turismo de luxo é das poucas atividades que passa sorrateiramente ao lado da crise?

Sem crise absolutamente nenhuma. Durante a crise, estivemos sempre a crescer. Em 2014 ganhámos o prémio da melhor empresa de cruzeiros da Europa e estamos agora nomeados para melhor empresa de cruzeiros fluviais do mundo.

 

O turismo tem cada vez maior enfoque no país. Estamos a seguir um caminho sustentável e estratégico?

Sim, acho que desta vez Portugal está no caminho certo. O secretário de estado do Turismo fez um bom trabalho a promover Portugal lá fora. Esta mudança para uma imagem mais jovem de Portugal, mais moderna acabou por funcionar.

 

O que falta fazer no Porto e a nível nacional?

Falta tratar bem os clientes. É preciso manter a cidade limpa, bonita, colorida. Falta reabilitar alguns prédios, porque ainda temos muitos quarteirões que têm os edifícios da frente reabilitados e os de trás estão por arranjar.

 

Museu dos Descobrimentos, Heli Tours, autocarros turísticos. O negócio expande-se a bom ritmo.

Isto é uma bola de neve. A bola de neve quanto maior está, maior é a volta sobre ela mesma. Como gostamos de reinvestir aquilo que ganhamos, quanto mais ganhamos mais reinvestimos, quanto mais investimos mais ganhamos.    

O Mário faz do Porto uma mina de ouro a céu aberto.

É o preço do pioneirismo, que tem vantagens e desvantagens. Tem a desvantagem de no início ser mais lento: era mais fácil copiar um café que tivesse sucesso e fazer um ao lado como é típico nos portugueses. Muitos dos emigrantes que voltavam viam algo que estava a dar na terra, faziam o mesmo ao lado e, a certa altura, já nem dava para um nem para outro e fechavam os dois. Nós aqui começámos com algo original e arrojado, algo em que ninguém acreditava na altura.

 

Foi uma questão de orgulho?

Não, foi uma questão de oportunidade e de ver oportunidade no futuro. A Ryanair andava a estudar a possibilidade de vir para o Porto ou ir para a Galiza e ninguém aqui acreditava na Ryanair. Hoje em dia, toda a gente acha que a Ryanair é essencial. Na altura, andei a bater a todas as portas para obter ajuda para passar o cheque que foi preciso para atrair a Ryanair, para lhes pagar a publicidade que eles pediam, e ninguém quis pôr um tostão. Teve que ser a Douro Azul a suportar a parte dos empresários sozinha e, na altura, ainda foi bastante dinheiro.

 

Qual é a visão estratégica para daqui a dez anos?

O que eu acho é que estamos apenas no início. A cidade tem espaço para crescer em termos de mais e melhores hotéis, tem espaço para crescer no preço médio, que é fundamental. Não interessa ter muitos hotéis, importa que eles estejam cheios, mas que o preço médio seja interessante.

 

O Monumental Palace Hotel já tem data de abertura? Não receia perder o controlo ao ramificar demasiado o negócio?

A previsão aponta para a primavera de 2017. Qualquer empresa que queira ter sucesso não pode descurar a necessidade de ter bons quadros. A empresa vai crescendo cada vez mais e terá que se fazer acompanhar de um crescimento idêntico de bons quadros, que possam manter a casa organizada. 

«Daqui a cem anos o turismo espacial já substituiu os cruzeiros oceânicos»    

Fala-se muito de empreendedorismo. Vende-se a ideia de que todos podemos ser empreendedores, ter uma empresa e fazer milhões. Esta ideia romantizada não será perigosa?

Se isso fosse assim só havia chefes e não havia índios. Eu não acredito nisso, nem acredito que todos nascemos para ser empresários. Qualquer sociedade, para ser funcional, tem que ter pessoas muito formadas, pessoas com os seus MBA?s, bem como pessoas com cursos técnicos. Portugal passou e continua a passar por um período em que há défice de técnicos. Por exemplo, pago mais por um carpinteiro do que por um engenheiro. Nos nossos barcos, uma das pessoas mais bem pagas é o chef de cozinha. Nós andamos a formar uma quantidade excessiva nas universidades e depois temos muita dificuldade em encontrar mecânicos e eletricistas.    

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