Luís de Matos

«Cada espetáculo de magia prepara-se durante toda uma vida»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia 1,2 - Direitos Reservados

Perguntaram-lhe o que queria ser quando fosse grande. Ousado, respondeu «mágico», mas as preocupações dos pais para que seguisse um curso superior levaram-no à Escola Superior Agrária de Coimbra. Empenhado nos estudos e, paralelamente, dedicado à magia, começou a ser um rosto conhecido no mundo da televisão, através do programa Isto é Magia!, emitido pela RTP. Hoje, com 45 anos, Luís de Matos é o mais consagrado ilusionista português. Com várias distinções na cartola, incluindo a insígnia de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique e até um recorde no Livro do Guinness, após fazer desaparecer 52.001 lenços azuis no espetáculo de inauguração do Estádio do Dragão, no Porto, este ilusionista continua a fazer o público sonhar, testando os seus sentidos. Porque, afinal de contas, entre truques e ilusões, a magia acontece. E isso ninguém pode negar.    

Como começou este interesse pelo ilusionismo?

Aos nove anos integrei o Grupo Amanhecer, um pequeno grupo de teatro e variedades na vila Chão de Couce, no concelho de Ansião, em Leiria. Todos fazíamos um pouco de tudo. Um elemento, chamado Serafim Afonso, fazia ilusionismo e esse era certamente o momento que mais me fascinava. Com ele aprendi as primeiras ilusões, e a paixão pela magia instalou-se como um passatempo que absorvia toda a minha atenção. 

 

Ainda se lembra da primeira ilusão que realizou?

A primeira vez que apresentei uma ilusão, fora do núcleo familiar ou do círculo de amigos, foi aos 11 anos, numa festa de Natal. A participação foi curtinha e resumiu-se a uma única ilusão: um dado que inexplicavelmente viajava entre uma caixa e um chapéu. Pouco tempo depois tive a primeira presença televisiva, no programa A Hora dos Talentos, da RTP. Aí o repertório já era mais alargado: uma bengala que voava, leite que desaparecia, as pintas de um lenço que apareciam e desapareciam, lenços que se atavam sozinhos, a suposta explicação de um clássico da magia? Ainda bem que vivíamos numa era pré-Youtube (risos).

 

Falámos até aqui de ilusão e não magia. O que o Luís faz é ilusão ou magia?

Na verdade, os termos são considerados sinónimos no universo do entretenimento. Contudo, gosto de os enquadrar numa linha de pensamento que claramente os separa no significado. Na minha opinião, usamos truques para criar ilusões que só o público pode converter em magia. O surgimento do momento mágico acontece quando o público permite que estimulemos a sua capacidade de sonhar, que desafiemos a sua imaginação e, com cumplicidade e assombro, partilhemos um mistério.

 

Alguém o inspirou a seguir a área do ilusionismo?

Cresci a admirar o mágico britânico Paul Daniels. Fascina-me o facto de ser um artista completo, provavelmente o mágico mais integral que a História alguma vez conheceu.

«O momento mágico acontece quando o público permite que estimulemos a sua capacidade de sonhar»    

No universo do ilusionismo, existe imensa variedade de truques e modos de os fazer. O Luís já é um expert em todas as áreas?

Não sou expert em nenhuma, sou um clínico geral. As técnicas ou o espaço em que se cria uma ilusão são apenas circunstâncias de algo maior e mais abrangente. A magia reside em quem executa, em quem assiste e nela participa e não nas ilusões propriamente ditas ou na sua catalogação.

 

O primeiro truque original inventado por si foi o Através do Espelho. Em que consistia?

O Através do Espelho é para mim muito especial porque surgiu num momento em que, na primeira série que fiz para a RTP, no início dos anos 1990, precisávamos de um final mais espetacular para um dos programas. A inspiração nasceu do imaginário de Lewis Carroll, em que Alice, no seu País das Maravilhas, atravessa um espelho. Longe estaria eu de imaginar que mais tarde viria a ser apresentado por Paul Daniels, na BBC, e por variadíssimos outros mágicos por todo o mundo ou até vir a ser integrado numa produção da Disney.

 

Que tipo de preocupações tem quando se apresenta ao público?

Um espetáculo de magia deve ser uma súmula de emoções partilhadas, num permanente desafio e estímulo à imaginação através dos sentidos. Para tal, é fundamental que a comunicação entre artista e espetadores seja sólida e nos dois sentidos. Um espetáculo de magia não é um conjunto de puzzles avulso nem um filme repleto de efeitos especiais que damos de barato. Partilhar mistérios é criar as condições para que todos os protagonistas contem e se sintam parte da experiência. Essa é a minha principal e constante preocupação.

 

E antes dos espetáculos, como se prepara?

Cada espetáculo de magia prepara-se durante toda uma vida. Tudo o que no palco se faz é o resultado do quanto criamos e vivemos. Mas, se falarmos dos momentos que antecedem a realização propriamente dita, a resposta é simples e insólita, apesar de verdadeira: gosto de dormir, nem que sejam dez minutos.    

Já lhe aconteceu um truque correr mal, em público?

Os truques nunca correm como esperado. Os mágicos não fazem playback. Cada ilusão resulta de uma interação direta e irrepetível entre todos os participantes, estejam eles no palco ou na plateia. Um grande mágico já falecido, chamado René Lavand, dizia: «El público puede perdonar un error, pero jamás el aburrimiento». O público devolve-nos em dobro a energia e empenho que em cada momento colocamos. Se sempre tivermos isso presente saberemos que as contas finais são sempre positivas.

 

Há 20 anos, de forma arrojada e perante o olhar atento de milhões de pessoas, previu o resultado da extração do Totoloto. Isso foi uma forma de provar às pessoas que podem ser facilmente enganadas?

Claro que sim, referi isso imediatamente após a confirmação, altamente escrutinada, de que a minha previsão estava correta. Chamei a atenção para o facto de ser tão fácil que os nossos sentidos nos preguem rasteiras e nos façam acreditar naquilo que não existe. Apelei ao ceticismo, a única forma de nos mantermos alerta e não permitirmos que abusem do nosso crer ou fragilidades. Fico sempre muito triste quando percebo que, de forma geral, somos demasiado ?leves do crer?. É por isso que astrólogos e videntes abusam de nós. Eles dizem-nos o que queremos ouvir e tiram-nos de cima a responsabilidade de tomar decisões. Como é possível que nos queiramos alhear do que mais belo tem a vida: não sabermos o dia de amanhã e podermos escolher o nosso próprio destino?!

 

Não está na altura de revelar como fez esse truque?

(risos) Talvez daqui a mais vinte anos!

«Na arte não há descaramento, há partilha de mundos imaginários onde tudo é possível»    

Ser ilusionista é enganar os sentidos do público, à descarada?

Na arte não há descaramento, há partilha de mundos imaginários onde tudo é possível, especialmente o que assumimos como impossível. Mas todos sabemos que se trata de um exercício de imaginação.

 

Há truques fáceis e difíceis?

Na minha opinião, não. As dificuldades de cada processo criativo, por muito grandes que sejam, são sempre passageiras. O número mais difícil é sempre o próximo em que estou a trabalhar, o próximo que desejo criar. O grau de exigência de cada artista, ou o momento criativo que atravessa, são sempre decisivos e espelham a intrínseca contemporaneidade de cada criação. Apesar de tudo, e contrariamente a um livro ou uma tela, uma ilusão nunca para de evoluir.

 

O Luís e a sua equipa realizaram em setembro os Encontros Mágicos, em Coimbra. Que encontro é este?

O Festival Internacional de Magia de Coimbra é o mais antigo festival de magia que se realiza em Portugal. Nasceu em 1992 e é realizado por mim e pela minha equipa desde 1998, num âmbito mais alargado e sob a designação de Encontros Mágicos. Anualmente, alguns dos melhores mágicos do mundo reúnem-se em Coimbra para protagonizar mistérios irrepetíveis. O segredo do êxito desta iniciativa prende-se com o alargamento a toda a população. Como linguagem universal, a magia chega a todos os estratos sociais, culturais, etários e económicos. Todos somos iguais quando se nos pede apenas que sonhemos. A forma como o mágico estimula a imaginação e nos obriga que esqueçamos por instantes a nossa posição na sociedade faz com que, numa plateia, ninguém se sinta excluído.

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