Dulce Pontes

Um camaleão com lusitana voz

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira

Fomos bailar no batel de Dulce Pontes, além do mar cruel que a acompanhava nesta canção. «E nem lhe digo aonde eu fui cantar», entoava Dulce. Mas disse. Disse por onde tem andado e por onde quer andar. E esta Canção do Mar, de Frederico de Brito e Ferrer Trindade, acompanhará todas essas andanças, de palco em palco, de Portugal para o mundo. Com uma voz versátil e dramática, a cantora portuguesa que se popularizou após a participação no Festival Eurovisão da Canção, em 1991, com o tema Lusitana Paixão, define-se artisticamente como um camaleão e prepara-se, após quatro anos de trabalho, para lançar um novo disco. Peregrinação será, não o início de uma nova era, mas a continuação do caminho há muito traçado por Dulce. Um caminho que começou em criança, com o despertar para a música clássica. «A primeira paixão foi a música clássica associada ao piano e ao movimento, embora o Fado estivesse sempre presente através do meu tio Carlos Pontes e o Folclore, que bebia pelos dedos ágeis da concertina do meu avô António», relembra Dulce.

Refugiando-se no «reino maravilhoso» de Samil, em Bragança, porque se identifica com «a forma de ser do transmontano», Dulce Pontes vai cativando públicos além-fronteiras, entre concertos em Espanha, Itália, Roménia, Cuba, Argentina ou Chile, mas nunca esquecendo a terra à qual pertence, apesar da ideia de afastamento que Dulce condena. «Não existiu afastamento consciente. As coisas foram acontecendo e eu correspondi da melhor forma que podia e sabia. Criou-se essa imagem de distância que me magoa porque amo Portugal. Continuo a cantar na nossa terra, talvez sem a grande divulgação à qual o público português se habituou na última década», explica. Guardando com carinho as recordações da década de 90, que a consagrou como sucessora e herdeira de Amália Rodrigues, Dulce vai equilibrando a sua agenda entre aquilo que mais gosta de fazer ? que é cantar ao vivo ? com o tempo que faz questão de dispor para a família, deixando que a «azáfama da roda-viva das viagens» e de tantos lugares por onde passa seja o único distúrbio da sua paz.

Com já 27 anos de carreira e uma capacidade de transmitir emoções que faz com que o público português se orgulhe do talento desta voz lusitana, Dulce Pontes continua a compor as suas melodias, num processo criativo que descreve como impulsivo e espontâneo. Recusando o rótulo de vedeta, apesar do «céu de Bragança estar mais perto das estrelas», a cantora vai somando palcos internacionais, sendo uma verdadeira musa para o maestro e compositor italiano Ennio Morricone. Mas, depois dos espetáculos, Dulce volta à tranquilidade de Trás-os-Montes. «Estar em palco e ser um instrumento é um enorme privilégio. Depois a vida prossegue naturalmente», refere.

Feliz com o novo álbum que está prestes a irromper, esta cantora soprano dramática com casa portuguesa, com certeza, continua com aquele brilho especial que nos transporta para 1991. E nesse recuar do tempo, recordamos, como quem nunca esquece a letra: «Fado/Chorar a tristeza bem (?)».    

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