Duas Quintas

O vinho que há 25 anos revolucionou o Douro

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Daniel Camacho

No final do verão, e pela 25.ª vez, dá-se início à vindima das uvas que dão origem a um dos mais carismáticos e emblemáticos vinhos ?Douro?. O Duas Quintas, da Casa Ramos Pinto, carrega o peso da história vitivinícola de uma região, que há 25 anos passou de famosa pelos Vinhos do Porto a também famosa pela produção de alguns dos melhores vinhos tintos e brancos de Portugal. Um vinho marcadamente duriense, o Duas Quintas tem origem em duas quintas bem diferentes ? Ervamoira e Bons Ares ? que, juntas, produzem a matéria-prima para um néctar que, no ano em que comemora as bodas de prata, se assume como um clássico e que a Villas&Golfe foi conhecer no íntimo da sua conceção: as vindimas.

João Nicolau de Almeida, sempre bem-disposto, recebe-nos na aldeia de Muxagata, perto de Vila Nova de Foz Coa. Filho de Fernando Nicolau de Almeida, o criador do famoso Barca Velha, João Nicolau de Almeida foi o homem que, nos anos 1980, arregaçou as mangas e criou, juntamente com o tio José Rosas, a ?quinta modelo? do Douro, daí em diante conhecida como Ervamoira. Estudou enologia em Bordéus e foi de França que trouxe o conhecimento e ideias fervilhantes para o Douro, que até então definhava sob a égide de conhecimentos e práticas semimedievais. Ervamoira, a quinta, só começou a dar fruto após um metódico estudo de castas e porta-enxertos e introdução de outras técnicas que, até então, estavam longe de ser uma realidade no retrógrado setor vitivinícola português. É a partir de 1990 que o Duas Quintas é colocado no mercado e é aclamado pela crítica como um vinho de qualidade ímpar, resultado dos diversos estudos feitos, da inovadora plantação de vinhas ?ao alto?, por talhões de castas separadas, práticas até então inéditas na região do Douro e que revolucionaram os vinhos de mesa durienses.

O Duas Quintas revolucionou os vinhos de mesa produzidos no Douro Superior.

Ao deixar Muxagata, entramos num caminho em terra batida que nos leva a Ervamoira, num percurso atribulado que deixa antever o isolamento da quinta. Ervamoira é um laboratório vitícola ao ar livre, numa quinta cuja forma a transforma num anfiteatro natural de características únicas. As suas colinas, que sobem e descem harmoniosamente em diferentes direções, estão completamente plantadas por vinhas que recebem diferentes estímulos solares, variáveis de acordo com a exposição, numa extensão impressionante, que se prolonga por 150 hectares.

Aqui, reina um silêncio bucólico, influenciado apenas pelo vagaroso correr do rio Coa no fundo do vale, e sazonalmente perturbado por um distante eco oriundo de uma formação de pessoas e carrinhas que iniciam o longo processo de vindima. Em Ervamoira as vindimas começam em agosto, altura em que carrinhas, tratores e pessoas se deslocam em massa pela quinta, numa procissão aparentemente ilógica. A colheita não é linear, segue a ordem dos talhões maduros e prontos para serem colhidos, ainda que, por vezes, isto signifique que o próximo talhão a ser vindimado implique uma deslocação ao extremo oposto da quinta. O grupo que vindima Ervamoira, composto por cerca de 90 pessoas, impressiona pela heterogeneidade daqueles que aproveitam a sazonalidade para garantir um rendimento extra. Bem cedo, a partir das 7 horas da manhã, famílias inteiras, de diferentes gerações, deslocam-se pela quinta e carregam as carrinhas com as uvas já maduras pela especificidade do clima nesta região do Douro. O grupo é maioritariamente composto por mulheres, cuja função se centra exclusivamente no corte dos cachos. Aos homens, cabe a tarefa de acartar os cestos já preenchidos rumo às carrinhas, num vai e vem alucinante.

Daqui, as uvas seguem para Bons Ares, a quinta que compõe o dueto vinícola do Duas Quintas. Bons Ares tem bons acessos e a entrada principal dá de frente para um grande edifício: o moderno centro de vinificação da Ramos Pinto. Os 30 hectares plantados em Bons Ares, a 600 metros de altitude (Ervamoira está a 150 metros), conferem ao Duas Quintas uma frescura característica desse vinho. É ali, nos Bons Ares, que as uvas passam por uma segunda escolha sob rigorosos critérios de qualidade, sendo depois distribuídas de acordo com o vinho que vão produzir: Douro Clássico ou Reserva. Aqui estão instaladas as cubas em inox, madeira e cimento, bem como as prensas horizontais de enchimento automático. 

A quinta de Ervamoira é um laboratório vitícola ao ar livre.    

Entretanto, lado a lado com estes sistemas modernos, é nos lagares que 12 homens se abraçam e pisam as uvas a um ritmo acelerado, enquanto conversam, bem-dispostos. João Nicolau de Almeida coordena a equipa de enólogos liderada por Teresa Ameztoy e o seu assistente, João Luís Baptista, que, ano após ano, trabalham amiúde na criação de um néctar que cumpra os requisitos de qualidade que caracterizam o Duas Quintas. Nos Bons Ares, termina-se o que se começa em Ervamoira e é com responsabilidades partilhadas que ambas as quintas da Ramos Pinto são pioneiras na criação de um vinho que há muito conquistou um lugar de referência na cena vinícola nacional e internacional. 

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