Mário Vitória

«As telas são documentos dos tempos que vivemos»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Daniel Camacho

Que venham as caravelas, os anjos e os cavaleiros, que rasguem o mar português e nos apontem um futuro onde os aliados do mal não nos alcancem. Que venham as mensagens sarcásticas em pinturas sem maquilhagens. E que os traços se realcem, numa forma directa de dizer que o desenho não é bastidor, é a obra final. Que venha o Apocalipse e a explosão de cor, para levar o desalento dos dias que nos revoltam. Mário Vitória é a personificação da arte como símbolo da luta pela dignidade humana. De Coimbra para o Porto, onde tem o seu atelier, o artista português é reconhecido pelas obras em escala e por preencher as telas com imagens perturbadoras, mas necessárias para compreendermos o mundo que nos rodeia.    

De onde surgem as ideias par as suas pinturas?

Do dia a dia. Vou guardando os objetos que vou encontrando, nas minhas caminhadas por exemplo. Tudo isso é material criativo. É daí que surgem peças interessantes. Não controlo tudo, as coisas vão surgindo. Mas tenho essa metodologia que me leva a preparar esboços, estudos preparatórios para peças. São os fragmentos independentes que depois de juntos formam a história toda. Como desenho compulsivamente, os esboços que saem melhor transfiro para pintura.

 

Identifica-se com alguma corrente artística?

Fico lisonjeado quando identificam o meu trabalho como surrealista ou dadaísta, mas acho que já não é isso. Porque o que comovia o Surrealismo não é o que me comove. Não vejo relação, a não ser a proximidade com a guerra e o tolerar de algum modo a guerra. Pintar sobre a guerra de um modo que as pessoas consigam tolerar esse assunto.

 

Nas suas obras, a pintura salta da tela, ocupando outros suportes como os sólidos. Há alturas em que a tela deixa de ser suficiente?

A tela continua a ser suficiente. A tela é mesmo um objeto perfeito! Mas esse salto tem a ver com a vida. Tudo muda. Por exemplo, os objetos que vou encontrando na rua, eu podia apenas desenhá-los. Mas sinto a necessidade da volumetria, porque acho que é algo muito contemporâneo. Noto que há uma apetência das pessoas para a escultura, para a volumetria. Não sei se é pela oportunidade de ter, de colecionar, de tocar. Mas o interesse do trabalho são as mensagens. A luta pelos direitos humanos, pelo bem-estar das pessoas, é um trabalho quase moralista. Por isso é que, se tiver de fazer uma escultura, um trabalho a laser ou uma instalação, faço. Não estou confinado.

 

Nas suas obras há sarcasmo, há crítica. Mas não é fácil perceber a sua posição em relação ao que pinta. Costuma receber essa impressão do observador?

Eu acho que a minha obra é acessível, não tem nada de transcendental, mas muitas vezes o observador fica sem saber o que eu lhe estou a dizer. Isso é sarcasmo. O observador identifica os símbolos, mas não sabe se estou a favor ou contra. É esse o modo de tolerar a guerra. Por exemplo, tenho um quadro em que vemos um homem decapitado. A obra é anterior ao fenómeno que vivemos hoje, mas agora a imagem choca. Na altura, era um alerta ao excesso e à banalidade que era uma decapitação. Utilizo a arte nessa função. Se eu atribuir um certo sarcasmo à pintura, as pessoas vão dizer «é bonita, mas há aqui uma cabeça cortada». Há um desconforto. E é com esse desconforto que eu estou preocupado, porque acho que isso torna as pessoas melhores.    

«Acredito que o mundo não era para estar assim, caótico e violento»    

Mas essa realidade que quer transmitir envolve-se também com conceitos de fantasia e mitologia. É propositado?

É uma alegoria. Eu acredito que o mundo não era para estar assim, caótico e violento. Então, o que é que aconteceu que nos conduziu a isto? Há um passado que apreciamos e respeitamos, mas parece que a gestão não foi bem feita. Isso é a alegoria no meu trabalho. Convoco imagens, confisco figuras de quadros antigos e dou-lhes novo sentido.

 

Há quem descreva a sua obra como irreverente, violenta até. Mas essa não é a sua intenção, então?

É um bocado irreverente, sim. Mas não é a minha intenção, de todo. Tenho pena que interpretem assim, com tendência de negatividade. Por exemplo, a meu ver, Goya foi artista durante a sua fase negra, não enquanto pintava as meninas no baloiço. Essa arte foi meramente decorativa, para sobreviver. A obra mais saltitante e conflituosa é a sua fase negra. Eram denúncias. Hoje, vivo num mundo que me permite carimbar a minha expressão de liberdade e estou do lado das pinturas negras. Não pelo sentido negro da escuridão, mas acho que a arte pode ser veículo de muita coisa.

 

Essas pinturas negras vendem?

Algumas não, por causa da violência. Apesar de eu achar que não é violência. As telas são documentos dos tempos que vivemos e se eu não propagar isto, se não tornar isto estético, não se evolui.

 

Qual é então a sua visão em relação ao mercado da arte em Portugal?

Eu acho que uma obra de arte não tem preço, mas dadas as circunstâncias, em que há artistas fabulosos que não prosseguem carreiras por não atingirem o mercado, acho que não se protegem os artistas. E proteger os artistas não é só comprar-lhes as obras. Na arte tem de haver espaço para ter uma identidade, com defeitos e virtudes, mas neste momento tiram-nos isso nos momentos da educação. Deixamos de ter sensibilidade para as coisas simples que nos permitem ser felizes.

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