Eduardo Raon

O lado mais selvagem da harpa

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira

Eduardo Raon é reconhecido pela sua versatilidade em palco.

O ambiente escuro aguarda que algo o irrompa. Uma luz, uma melodia, uma pessoa. Talvez tudo de uma só vez. Uma pessoa que possa ser melodia e luz, ao mesmo tempo. E que nos conquiste ao primeiro dedilhar de cordas. No palco, a harpa reluz como se chamasse por Eduardo Raon, aquele que é capaz de iluminar o ambiente escuro. Português de alma e coração, mas apaixonado por Liubliana, a capital da Eslovénia que o inspira graças à «atitude de constante questionamento e maravilhamento em relação ao mundo», Eduardo Raon é música desde que se lembra. Fascinado pelos instrumentos musicais, que tinham «uma qualidade mágica» para o seu olhar de criança, começou por entusiasmar-se com o som da guitarra e com as breves aulas de piano. Mas foi a harpa que se tornou um prolongamento do seu íntimo. «Elegi a harpa por três razões: existe repertório de qualquer época, é um instrumento muito físico e já sabia as características da minha futura professora na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa, a harpista e compositora Clotilde Rosa, de quem retiro a minha maior influência», afirma Eduardo.

Inspirando-se nos comportamentos humanos, racionais ou não, o harpista assume que a imagem estereotipada feminina, de delicadeza, o motiva a mostrar que o instrumento pode ser muito mais que isso. «Não cinjo o papel da harpa ao de um instrumento simplesmente agradável. Claro que o é, mas pode ser tanto mais. Saber que ao instrumento está associada uma imagem de harmonia motiva-me a mostrar também o lado mais selvagem, convulsivo, gritante até, que a harpa consegue ter», refere. Com uma capacidade de improvisação que carimba a sua atitude e versatilidade em palco, capacidade essa proveniente da abertura àquilo que outros músicos propõem e à auto-exigência que não lhe permite utilizar simplesmente os recursos que lhe são familiares ou confortáveis, Eduardo vai marcando as suas performances por quebrar as barreiras do clássico, conjugando a harmonia da harpa com mensagens em vídeo e introduzindo outros estilos musicais nas actuações. «Não sei traçar a fronteira entre os vários géneros. Não tenho passaporte musical e vou atravessando as fronteiras, consciente de que cada território tem regras e características distintas», assume. Habituado a um «saltitar musical e temático», o harpista português lançou o seu primeiro álbum, o The Drive for Impulsive Actions, em 2013 ? uma «constatação, um comentário, uma ironia e uma celebração da nossa impulsividade e de todas as acções que menos conscientemente praticamos», nas palavras de Eduardo ?, mas vai mantendo vários projetos em paralelo enquanto prepara o próximo disco a solo. Seja em palco com o projeto Powertrio, acompanhado por Joana Sá e Luís Martins, seja a compor para trilhas sonoras cinematográficas ou musicais, a harpa de Eduardo não vai tendo descanso.    

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