Joaquim Chissano

«A RENAMO retarda muito o desenvolvimento de Moçambique»

\\ Texto João Afonso Ribeiro
\\ Fotografia Nuno Noronha

Homem carismático na luta pela Independência de Moçambique e com um papel primordial na fundação da nação moçambicana, Joaquim Chissano foi Presidente da República do país africano durante 19 anos e é alguém cujo passado se confunde com a própria história recente de Moçambique. Foi em 1986 que Chissano substituiu o histórico Samora Machel na presidência, após o acidente aéreo que vitimou o histórico líder, tendo comandado os destinos da jovem nação até 2005. Nome incontornável da FRELIMO, Chissano governou um país em plena guerra civil até que, em 1992, rubricou o seu nome no Acordo Geral de Paz, um pacto que pôs fim a uma guerra civil que durava há já 16 anos e vitimou cerca de um milhão de moçambicanos. Em entrevista exclusiva à Villas&Golfe, Joaquim Chissano fala abertamente sobre as consequências dos recentes ataques da RENAMO em terras moçambicanas, sobre a «paz relativa» que se vive no país, sem deixar de sublinhar ainda aquelas que acredita serem as linhas orientadoras fundamentais para o desenvolvimento de um país que regista um crescimento económico exponencial.

«Para servir o país não é obrigatório estar no poder. E muito menos estar no poder pela força»

Que memórias guarda dos tempos em que se davam os primeiros passos pela construção da nação moçambicana?

Tenho algumas memórias tristes, como a guerra que se seguiu à proclamação da Independência e que culminou com a morte de milhares, ou até mesmo um milhão de moçambicanos. Tivemos também momentos muito positivos, como o diálogo com os sul-africanos que dirigiam a luta contra o povo moçambicano e que eram aqueles a quem se passou a chamar RENAMO. Esse diálogo não teve resultados imediatos, mas a persistência culminou com a assinatura do Acordo Geral de Paz, em 1992. É claro que atualmente existe uma inquietação, que é o surto de ataques da RENAMO contra as populações e que destroem vidas e bens. Isso põe em perigo a marcha que parecia acelerada do desenvolvimento de Moçambique.

 

Após 24 anos da assinatura do Acordo Geral de Paz, pode afirmar-se que Moçambique está de facto em paz?

A paz sempre foi uma paz relativa. Estamos em paz porque não há guerra, mas há distúrbios. A paz tem muitas facetas. Mesmo que a RENAMO deixasse de atacar, ainda teríamos que trabalhar para a paz. A paz implica que haja harmonia na sociedade. Não basta uma paz física, é necessária uma paz espiritual. E isso leva muito tempo a construir.

 

Acredita que Moçambique seria hoje um país diferente se tivesse desarmado a RENAMO?

Não havia como desarmar a RENAMO sem que retomassem as hostilidades. E essas hostilidades dizimariam mais moçambicanos e destruiriam propriedades e bens. Optei pela paciência e pelos métodos pacíficos, começando pela destruição das armas que a RENAMO possuía nos esconderijos, de modo a enfraquecer a sua capacidade bélica. Nas circunstâncias daquele momento, tudo tinha que ser feito daquela forma.

 

O fantasma da RENAMO é o maior entrave para o crescimento de Moçambique?

Seria bom que fosse apenas um fantasma. A RENAMO retarda muito o desenvolvimento do país. É preciso notar que mesmo durante a guerra houve um processo de desenvolvimento de Moçambique, que não parou. Houve destruição e reconstrução, trabalhou-se na educação e na saúde, mesmo com todas as dificuldades que existiam. Mas a RENAMO vai atrasar muito o desenvolvimento. Há boa vontade internacional em apoiar Moçambique para um desenvolvimento rápido, temos um grande projeto contra a malária e outras doenças pandémicas, mas isso ainda não pode ser levado a cabo em todo país. Seria bom que a RENAMO juntasse esforços para que realizássemos, juntamente com o Governo, os programas que existem. Ao mesmo tempo, a RENAMO poderia indicar os erros, poderia ir combatendo por ganhar o seu espaço, mas a verdade é que para servir o país não é obrigatório estar no poder. E muito menos estar no poder pela força. 

Imagina que, algum dia, FRELIMO e RENAMO possam pôr de lado as diferenças e unir esforços para que juntos construam um país melhor?

 Eu creio que já existem as bases. A RENAMO está bem representada no parlamento e até já esteve melhor representada no passado. Quando chegar à altura das campanhas eleitorais, cada um tem que batalhar, mas após as eleições dever-se-ia ter em conta o que é bom para o nosso povo e dar as mãos. Há quem pense que se deve fazer um modelo de combinação de esforços, como a criação de um Governo de unidade nacional, mas ou queremos um sistema assente no multipartidarismo ou queremos monopartidarismo. Poderíamos juntar a FRELIMO e a RENAMO, como aconteceu no Zimbabué, mas assim desapareceria a oposição. Se a RENAMO se juntasse à FRELIMO poderia ser benéfico por um lado, mas também estaríamos a ir em direcção àquilo que desfizemos anteriormente.S

 

Após a Independência, Moçambique tem sido governado em exclusivo pela FRELIMO. Não teme que tantos anos de governação possam criar um enraizamento perigoso?

Não se deve ver a FRELIMO como algo estático. Estamos a ver que a RENAMO é estática e a FRELIMO é dinâmica. A RENAMO tem sempre o mesmo líder, enquanto a FRELIMO, no mesmo período de tempo, já teve três líderes, tanto no partido como no Governo. A FRELIMO não está no Governo porque usa a força. Seguimos o método democrático, porque a rotação do poder não se faz automaticamente, faz-se através da vontade popular e do voto. Nunca se muda de um partido para o outro apenas porque o partido que está no poder já governou muito tempo. Em diversos países, existe um limite de mandatos para determinado candidato, mas em lado algum existe um limite temporal para os partidos. A FRELIMO está legitimamente no poder através de um processo democrático.

 

Como qualifica a actuação do Presidente Filipe Nyusi?

É uma actuação que se tem mostrado clarividente e que mantém concordância com aquilo que foi a sua campanha eleitoral. Nyusi procura sempre estar dentro dos parâmetros que o próprio traçou. Tenta ser o mais transparente possível e é um Presidente com abertura para conversar com pessoas que não sejam do seu partido.

 

Foi Presidente de Moçambique de 1986 a 2005. Onze anos após ter deixado o cargo, vê Moçambique seguir o caminho correto?

Eu penso que está a seguir um bom caminho, dentro das adversidades. Desde o ano passado, temos novamente sofrido com o clima e isso é outro desafio a vencer. Ainda assim, vemos que o crescimento económico de Moçambique não pára. Hoje fala-se de um crescimento de 7,8% do PIB para 2016 e isso é uma cifra muito grande. No meu tempo, tivemos cifras muito maiores, mas era a partir de bases mais fracas. Hoje, falar de um crescimento de 6 ou 7% é realmente sinal de que estamos no bom caminho. Mas se fosse só crescimento, não estaria completamente satisfeito. Nós vemos no terreno a melhoria das condições de vida da população: nas escolas, as crianças já têm carteiras, quando até há pouco tempo lutávamos para ter um teto; a electrificação do país está a evoluir e hoje já temos aldeias que já recebem energia; temos cada vez mais e melhores estradas e vias de comunicação. Tudo isso tem grande impacto no bem-estar da população. 

«Estamos a ver que a RENAMO é estática e a FRELIMO é dinâmica»

 

O FMI anunciou que Moçambique se pode tornar, em 2028, uma das maiores economias africanas. Esse crescimento é refletivo no bem-estar da sociedade moçambicana?

Esse é o desafio que os governantes têm que ter em conta: usar de forma positiva os recursos que o país tem. Se toda a gente pensasse apenas no gás, isso seria uma estratégia errada. Devemos é pensar naquilo que realmente pode ser servido pelo gás, como a agricultura, a indústria transformadora, o processamento dos bens alimentares e os transportes. Tudo isto pode ser melhorado com o gás ou através do dinheiro que se consegue a partir do gás. No entanto, em primeiro lugar, é preciso desenvolver as capacidades humanas, o Homem. Temos que nos focar na formação dos homens, para que façam um bom uso dos recursos, olhando para as necessidades da população.

 

Que imagem transparece Moçambique no plano internacional?

Lá fora a imagem é extraordinária. Nós, em Moçambique, castigamo-nos mais do que somos castigados lá fora. Somos muito bem apreciados e, muitas vezes, temos que explicar que Moçambique não é um mar de rosas. Há imensa gente que quer vir aprender com a nossa experiência, como lutamos, como vencemos as dificuldades e como mantemos a paz. Há muita admiração por Moçambique. Temos que fazer sempre melhor e temos que procurar ser melhores do que nós próprios.

 

Neste momento, o investimento estrangeiro é bem-vindo a Moçambique?

Investimento estrangeiro há-de ser sempre algo bom para Moçambique. Claro que é preciso que os investidores estrangeiros vejam a necessidade de o empresariado nacional crescer, porque Moçambique está independente há 40 anos e isso é muito pouco tempo para a criação de uma classe empresarial capaz no país. Por isso, temos que criar o empresariado moçambicano. Há que procurar estratégias para introduzir formas capitalistas de desenvolvimento em Moçambique. Mas temos que definir quem é o capitalista, já que não queremos que capitalista seja sinónimo de cidadão estrangeiro. Dentro de uma doutrina social, que é nossa, falamos muitas vezes em Socialismo, mas isso não está em contradição com a economia de mercado e com a utilização de capital. Os capitalistas são bem-vindos em Moçambique, desde que sirvam os propósitos e sigam os programas do Governo, de modo a colaborar para elevar o bem-estar da população e contribuir para que os pobres sejam menos pobres.    

Lutou pela Independência e pela paz, para além de ter sido Presidente durante cerca de 19 anos. Dá por concluído o seu contributo pessoal a Moçambique?

Não. Continuo a contribuir porque creio que qualquer cidadão tem que ajudar de várias formas. Tenho estado na arena internacional, a fazer trabalhos que dão prestígio a Moçambique. Além disso, eu próprio crio algumas pequenas ou médias empresas para acelerar aqueles que são os intentos do Governo. Por exemplo: estava muito triste ao ver que importávamos carne bovina da Argentina, com todas as condições que temos em Moçambique, e decidi dar a minha contribuição, criando gado. Gostaria que muitos outros fizessem o mesmo, em diversas áreas e sectores. Também tenho a Fundação Joaquim Chissano, que trabalha essencialmente na promoção da paz e que tem como objetivo trabalhar com as diferentes gerações, esclarecendo o significado de paz e contribuindo no sentido de criar uma cultura de paz.

«Há muita admiração por Moçambique»

Como se conquista essa paz?

Nós aliamos a paz ao bem-estar, ao desenvolvimento das pessoas e das famílias. A paz começa no Homem e na sua paz interior, na família e na comunidade onde vive. Se criarmos essa cultura de paz, daqui a algumas gerações, o conflito será muito minimizado.

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