António Guterres

O português que pode chegar a «moderador do mundo»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Daniel Camacho

Desde pequeno que António Guterres traçou metas e alcançou objetivos. O seu curriculum é vasto. E a fama que daí advém é fundamentada. Formou-se em Engenharia, mas foi a política que lhe arrebatou o dia a dia. Aderiu ao Partido Socialista no ano da sua fundação, em 1973. Três anos depois já era deputado e, em 1992, secretário-geral do PS. Mas foi como primeiro-ministro que ficou gravado na memória dos portugueses. Mais ainda após a sua demissão em 2001, devido à derrota do PS nas eleições autárquicas.

 

Depois disso manteve-se discreto, mas não quieto. Acabou por dar o salto quando, de 2005 a 2015, exerceu o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, onde deixou boas marcas. A experiência poderá valer-lhe pontos agora que é candidato a secretário-geral das Nações Unidas, o mais alto funcionário da ONU, podendo vir a ser o primeiro português no lugar que Franklin Roosevelt baptizou como «o moderador do mundo».

É seguro afirmar que António Guterres, com 66 anos, é hoje uma figura unânime no país. A margem de erro será pequena, principalmente depois do ex-primeiro-ministro se ter candidatado a secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

O apoio, um coro de vozes composto por partidos políticos de esquerda e de direita, onde constam figuras como o ex-Presidente da República, Jorge Sampaio, e o atual, Marcelo Rebelo de Sousa, dão-lhe alento. Mas o prestígio vem, sobretudo, dos dez anos em que foi Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, notoriedade que decorre do reconhecimento pelo comprovável trabalho que desempenhou em prol dos valores humanitários. Talvez por isso tenha sido, em 2009, o único português a constar na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, divulgada pela revista Forbes. Justificando a atribuição da 64.ª posição a Guterres, a prestigiada revista afirmou que o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados era uma «agência completamente impotente para a maioria das pessoas, mas tremendamente poderosa para milhões de almas in extremis».

Quando em 2014 a crise dos refugiados se tornou mais evidente, Guterres foi automaticamente catapultado para os holofotes internacionais. O homem, que todos pareciam ignorar até então, passou a peça fundamental da compreensão do problema. «Fui onze vezes à Assembleia Geral das Nações Unidas, onde vão os chefes de Estado. Onze vezes! Nas dez primeiras, ninguém me ligou. Mas da última vez andei a correr de um lado para o outro, porque em toda a parte os refugiados eram o tema central. E em toda a parte eu era chamado a intervir», contou António Guterres no Centro Académico de Braga, pouco antes do encontro Olhares sobre a Educação, promovido pela Arquidiocese de Braga.

O cargo foi exercido em tempos exigentes. O mundo, especificamente a Europa, viu-se a braços com a mais grave crise de refugiados desde o Segunda Guerra Mundial, motivada pelo agudizar dos conflitos no Iraque e na Síria. «Há um conjunto de razões que levaram as pessoas a moverem-se. Há uma deslocação tradicional para a Europa, que tem uma componente económica. Mas tem também uma componente relacionada com formas de perseguição e conflito. Esse movimento foi crescendo ao longo do tempo, mas sempre foi gerível. De repente, deu-se uma aceleração que, no meu ponto de vista, foi criada pelo conflito da Síria. Aí vejo três causas: a falta de confiança numa resolução pacífica para o conflito sírio; as duras condições de vida naquele país; e as progressivas restrições orçamentais, que fizeram com que um conjunto de doadores tivessem reduzido os montantes disponíveis para a ajuda humanitária», explicou o candidato a secretário-geral da ONU. Na opinião de António Guterres, este foi o «detonador» que levou «as pessoas a sentirem-se abandonadas pela comunidade internacional e a procurarem uma saída longe do conflito».

Por esses motivos, o socialista acabou por ser uma das vozes que mais críticas apontou à União Europeia, devido à incapacidade desta em lidar com o problema. «É difícil aceitar esta situação num mundo moderno. A Europa, que estava avisada, não se preparou para receber estas pessoas, e não foi capaz de encontrar mecanismos de solidariedade ou de responsabilidade colectiva para dar resposta a este problema. Ao invés disso, cada país tratou de si, o que se traduziu nesta situação trágica», afirmou o político, em Braga.

Essa foi, aliás, a mesma opinião que acabou por colocar no documento entregue nas Nações Unidas, onde apresentou a sua visão para a ONU, enquanto candidato, e onde propôs que os Estados mudem de atitude, já que defende que as nações gastam demasiados recursos a gerir crises ao invés de evitá-las.

Um discurso que reiterou, perante os embaixadores dos quase 200 estados-membros da ONU, em Nova Iorque: «Se há algo em que a comunidade internacional está a falhar é na prevenção e resolução de conflitos, e na protecção da segurança global contra o terrorismo».

 

O candidato tem um longo caminho pela frente, mas que já está bem cotado. A título de exemplo, o jornal britânico The Guardian afirmou que Guterres é o candidato com «o perfil mais elevado», não só devido à sua experiência enquanto alto-comissário, mas também pelo facto de ser «um orador apaixonado».

PARTILHAR O ARTIGO \\