Carlos do Carmo

«Aos portugueses, falta-lhes descobrir Portugal»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Nuno André Santos

Menino e moço, Carlos do Carmo tinha um plano: terminar o seu curso de Hotelaria e Línguas na Suíça e tornar-se um gestor, quiçá, de uma multinacional influente. Mas a vida, que lhe tirou o pai demasiado cedo, tinha outros planos para ele. De regresso a Portugal, com 21 anos, tornou-se responsável pela gestão da casa de fados O Faia, ao lado da sua mãe, Lucília do Carmo, que cantava e encantava miúdos e graúdos. Descobrindo o Fado já homem, Carlos do Carmo é hoje um dos maiores nomes da história desta canção que traz a alma lusitana em cada palavra. Com uma carreira de 52 anos e muito reconhecimento à mistura ? a mais recente foi a atribuição do Grammy Latino de Carreira, pela Latin Recording Academy -, Carlos do Carmo afirma sentir-se grato pelas influências do seu percurso, de Amália Rodrigues a Ary dos Santos, e orgulhoso da nova geração de fadistas que tem irrompido. Cantando com a mesma paixão dos primeiros tempos, o fadista lisboeta não nega a necessidade de se afastar dos palcos, quando a saúde não o permitir pisar a «casa onde gosta de receber os amigos», mas até lá resta-nos dar-lhe voz. E tão bem que a sua voz soa!

Filho do proprietário de uma casa de fados e de uma das mais populares fadistas portuguesas, o Fado fervilhava no seu sangue?

Desde criança que me habituei a ouvir muitos artistas, mas depois, com os estudos, fui-me afastando naturalmente. Mas sempre gostei muito de música e de ouvir cantar. Comecei por ouvir, no velho gira-discos, os grandes mestres como Dorival Caymmi, Luiz Gonzaga ou Nora Ney, que a minha mãe me trazia das suas tournées pelo Brasil. Desses terão sido as primeiras canções que eu cantei, para mim. Curiosamente, o Fado cantei-o pela primeira vez num grupo de amigos, quando já era homem. Na altura, estava a gerir a casa de fados do meu pai, que tinha falecido. Eu era o gestor e a minha mãe era a cabeça de cartaz. Então, um dia, um dos meus amigos perguntou-me: «tu não cantas um fado? Não sabes?» e eu respondi-lhe que até ao momento não me tinha atrevido a cantar porque lá em casa tínhamos quem o fizesse muito bem. Mas ele lá insistiu e eu, como só sabia um fado, cantei o Loucura, que acabou por ser o primeiro fado que gravei na minha vida de artista. Quando terminei de cantar, olharam para mim e disseram: «tu não imitas a tua mãe, tu tens uma forma muito autónoma de cantar». A partir daí, nunca mais parei.

 

Gravou esse fado Loucura com recurso a piano, baixo, bateria, guitarra eléctrica e um coro feminino. Quis mostrar que era diferente?

Eu era muito boémio. Nessa época, o meu amigo Mário Simões tinha uma banda muito famosa, que gravava músicas populares. Um dia ele perguntou-me se eu não queria gravar um fado com eles. Eu voltei a responder que só sabia um fado. Então, teve imensa graça porque é um fado gravado com a banda original, que tinha essas características. Mas quando eu apareci a cantar dessa forma, as pessoas muito rigorosas e defensoras do purismo do Fado não acharam muita graça. Diziam que aquilo não era Fado. Eu ouvi esses comentários com muita atenção, porque estamos sempre a aprender, mas senti que era uma porta que se abria. Então entrei mesmo por esse caminho e comecei a fazer uma coisa que é normal: cantar aquilo que os outros cantaram antes de mim. O chamado repertório adquirido. Cantei coisas da minha mãe, do Alfredo Marceneiro, etc. Assim que comecei a ter um pouco de nome, apareceram os autores, que começaram a escrever para mim. E passou-se tudo tão depressa! Parece que estou a falar de anteontem e já passaram 52 anos.

«Não é obrigatório que o Fado seja uma canção triste, derrotista»    

Alguma vez sentiu que o sucesso da sua mãe ?ofuscava? o seu próprio sucesso?

Não senti isso. Nós cantávamos na nossa casa de fados e era muito interessante porque era um ?dois em um?. O que acontecia era que a geração mais nova, que vinha ouvir-me, descobria a minha mãe e ficava fascinada. E os mais velhos descobriam-me a mim, com grande paixão pela minha mãe. Era uma coexistência muita rica de dois tipos de público.

 

Para si, que teve oportunidade de passar por tantas cidades, Lisboa é a cidade mais bonita do mundo?

É a minha cidade? Sou lisboeta de coração e de alma. Tenho um bairrismo que não é um bairrismo fanático ? aliás, não sou fanático em nada ?, mas encontro na minha cidade encantos muito especiais. Quando alguém vem de outro país e descobre Lisboa, vê que é uma cidade estranha, diferente, bizarra. É uma cidade que tem bairros onde pulsa ainda uma tradição popular. É uma cidade que tem uma arquitetura meio caótica, que acaba por ter muita graça. É uma cidade que tem uma luz única no mundo, imbatível. Este cruzamento do Atlântico com o rio dá uma luz fantástica a esta cidade. E depois, não bastando, é uma cidade que tem uma canção, que são muito poucas as cidades que têm. Tenho a impressão de que não saberia viver noutro sítio.

 

Afirmou, em tempos, que «o Fado é uma pequena história. Se a contarmos o melhor possível, o Fado pode proporcionar um momento muito agradável». Para si, o Fado é um momento agradável?

Para mim, essas palavras são actuais. Eu canto para alguém e se eu conseguir levar a autenticidade do meu canto, o sentimento, as palavras até à alma das pessoas, é muito interessante. É isso que pode tornar um concerto bonito. Um concerto de Fado tem uma coisa especial: pede algum recolhimento. E numa vida tão agitada como a dos nossos dias, é interessante termos as pessoas sentadas à nossa frente e, passados dez minutos, ver como elas relaxam. De repente, param com os telemóveis e as fotografias e entram completamente no ambiente. Esse recolhimento é interessante porque provoca também em mim uma sensação: é como se eu estivesse em minha casa, que é o palco, a receber os meus amigos.

 

É toda essa envolvência que faz com que o Fado não tenha de ser completamente entendido para ser sentido?

Completamente. Em tantos países cantei e, ao princípio, fazia-me uma confusão imensa saber que as pessoas não estavam a entender as palavras que eu estava a cantar, embora eu procurasse sempre, previamente, falar um pouco do meu país, dos meus poetas, da minha gente e do conteúdo do que ia cantar. Mesmo assim, pensava: então as pessoas não entendem o que eu estou a dizer, mas sentem? E é esse lado que torna o Fado numa canção diferente. Na minha leitura, não é obrigatório que seja uma canção triste, derrotista. Longe disso! Não tenho essa visão do Fado. Mas pode ser uma canção de alma, de espírito, de abertura. Mas, para não ser sectário, gostava de dizer que nós não temos só o Fado. Nós temos música popular portuguesa de muita qualidade. Há apenas um problema de divulgação.

Nota que a música portuguesa não é divulgada no exterior?

Eu não sou um homem apressado. Costumo apontar um único defeito aos portugueses ? e não tenho mesmo mais nenhum -, que é: falta-lhes descobrir Portugal. Mas o tempo fará com que as pessoas descubram as coisas. Por exemplo, depois das grandes mutações que Portugal sofreu há 40 anos, não foi fácil encaixar o Fado e, recentemente, a candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade foi recebida como candidatura exemplar. Foram seis anos de trabalho de uma equipa e, nessa perspetiva, o Fado está na vanguarda. Mas já estão a acontecer coisas muito bonitas com o Cante Alentejano. Por isso, acredito que os portugueses, à medida que se descubram, vão fascinar-se com as suas próprias coisas.

 

Haverá um momento em que a sua voz se calará por opção própria?

Claro que sim. Tenho a noção de que chegará uma fase em que será necessário. E tenho a sorte de ter uma família que é austera na análise e estou persuadido de que não me permitirá que eu leve para cima do palco uma imagem de decadência. Nesse aspeto, sinto-me muito tranquilo porque serão eles que me avisarão. Se me perguntar: tem pena? Muita! Mas eu, na minha cabeça, já estou a criar alternativas. Posso fazer conferências, produzir jovens fadistas? sem nunca me desligar do Fado.

 

Tem noção de que, quando a sua voz se calar, um bocadinho do Fado calar-se-á consigo?

Não, não tenho essa presunção. O cemitério está cheio de insubstituíveis! (risos) O que é bom é ter cá andado e ter feito o possível. E isso ninguém me pode apontar o contrário.

«Estou persuadido de que a minha família não me permitirá levar para cima do palco uma imagem de decadência»    

Como encara a nova geração do Fado?

Temos boas vozes e gente muito capaz. O que é preciso é dar tempo ao tempo.

 

Como português, perspetiva boas coisas para o futuro?

Se me fizesse essa pergunta há quatro ou cinco anos, eu falava-lhe de Portugal. Hoje não sou capaz. E explico-lhe a razão: estamos inseridos numa coisa chamada globalização e, consequentemente, cada um dá o contributo que pode dar. O tempo explicará porque é que a nossa população se tem sacrificado tanto. Devo dizer que sinto que o primeiro-ministro António Costa, independentemente da amizade que lhe tenho porque fui mandatário da Câmara Municipal de Lisboa, é uma pessoa boa negociadora, gosta muito do seu país e não é corrupto. Isto, numa só pessoa, não é nada mau. É um homem que procura um discurso de esperança, que às vezes parece algo fantasista no meio deste mundo conturbado. Mas ai de nós se não tivermos um pouco de esperança! Estamos num mundo em completa ebulição e os mais fracos, grupo ao qual nós pertencemos, têm que ser muito prudentes. Mas é engraçado ? e aqui abro um parênteses para falar de Portugal ? porque, apesar das pessoas terem um ar zangado, estamos a descobrir o caminho da esperança.    

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