Joana Carneiro

Em cada gesto, uma melodia

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia 1,2 - Dave Weiland 3 - Rodrigo Souza

Com um olhar sereno e um sorriso que nos soa a verdadeira melodia, Joana Carneiro é uma mulher num mundo de homens. Não que isso seja motivo de discriminação. É, com toda a certeza, razão para aplaudi-la de pé, quando os seus gestos assim indicarem. Sim, porque é de gestos que se trata a história de Joana. Com a batuta na mão, agitada delicadamente, Joana vai conduzindo orquestras de dezenas e até centenas de músicos por todo o mundo. Royal Stockholm Philharmonic, Ensemble Orchestral de Paris, Royal Liverpool Philharmonic, Bretagne Orchestra, Norrkörping Symphony Orchestra, Prague Philharmonia, Orquestra Nacional de Espanha, Hong Kong Philharmonic, Los Angeles Philharmonic, Toronto Symphony Orchestra? A juntar-se a esta extensa lista está ainda a Orquestra Sinfónica de Berkeley, onde Joana ocupa o cargo de diretora artística desde 2009, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, que conta com o seu talento como maestrina titular desde 2014, e a Orquestra Gulbenkian, que tem os seus dotes como maestrina convidada e diretora artística dos jovens talentos. Aclamada como maestrina notável e soberba, os gestos delicados da portuguesa têm trilhado rumos surpreendentes e, num mundo em que as partituras são infinitas, Joana garante dar sempre o melhor de si a cada melodia.

 

 Joana tinha nove anos quando a carreira de maestrina serviu como resposta, pela primeira vez, à tradicional pergunta: «o que queres ser quando fores grande?». Os concertos que assistia com os seus pais no Teatro Nacional de São Carlos e na Gulbenkian tinham-lhe apresentado a figura do maestro e o seu percurso na Escola de Música do Conservatório e na Escola de Música Nossa Senhora do Cabo, em Linda-a-Velha, desvendou-lhe todos os encantos da profissão. Proveniente de uma família onde a educação musical é privilegiada, a portuguesa escolheu formar-se em Direcção de Orquestra, mas a nobreza da Medicina deixou-a com duas opções. «Na verdade, comecei a estudar Direcção de Orquestra e Medicina, ao mesmo tempo, quando entrei para a faculdade», conta-nos Joana. «Mas o sonho que se manifestou aos nove anos começou a concretizar-se quando aos 18 anos dirigi, pela primeira vez, uma orquestra. Foi um ponto sem retorno. Aí a minha vida mudou», acrescenta. Trocando o bisturi pela batuta, Joana tornou-se, aos 25 anos, na primeira mulher portuguesa licenciada e mestre em Direcção de Orquestra. A partir daí, o mundo rendeu-se às actuações enérgicas e aos gestos delicados de Joana, mesmo sendo estranho, para alguns, ver um talento feminino a conduzir os músicos. Apesar disso, Joana assegura que nunca viu o seu trabalho menosprezado. «Nunca me senti discriminada. Sempre me senti profundamente acarinhada e apoiada pelo meu país», esclarece.

Definindo-se como uma maestrina «cheia de alegria, gratidão e amor pelo que faz», Joana teve oportunidade de aprender com alguns dos melhores maestros do mundo, inclusive Esa-Pekka Salonen ? que ainda hoje é seu mentor ?, Peter Sellars, John Adams, Kenneth Kiesler ou Kurt Masur.

«Ler uma partitura é como ler um livro com uma linguagem especial»

Revelando que «ler uma partitura é como ler um livro com uma linguagem especial», a maestrina portuguesa afirma que há peças mais complicadas de dirigir, seja pela sua densidade polifónica ou pelos ritmos mais complexos, da mesma forma como não é «nada fácil» conduzir dezenas e até centenas de músicos. «É mesmo muito difícil. Tal como tocar bem um instrumento requer muitos anos de estudo e experiência, o mesmo se passa com a direcção da orquestra. Com a idade, vamos refinando o gesto (que é a clareza com que somos uma imagem da música) e o ouvido (a clareza com que ouvimos o que necessita de ser transformado)», descreve Joana.

Acreditando que o futuro português a nível musical será promissor, contando com mais apoios a nível de mecenato, a maestrina do sorriso cativante e dos gestos precisos continuará a marcar o compasso e a narrar melodias pelo mundo.

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