Tony Miranda

«Nem só os franceses são criadores de alta-costura, os portugueses também podem ser»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia © Tony Miranda

Esta história contar-se-á por pontos. Perfeitos e bem colocados. Quase invisíveis aos nossos olhos, mas perceptíveis para quem sabe o que está a fazer. Pontos dados à mão, com agulhas firmemente seguras pelos dedos de Tony Miranda. E tantos pontos que haveria para dar nesta história, se o papel não escasseasse. De Guimarães para o mundo, Tony Miranda é um sonhador. Sonhou conquistar um lugar nas melhores casas de alta-costura em Paris, e Joseph Camps e Ted Lapidus renderam-se ao seu talento. Sonhou vestir bem os clientes, e personalidades como Jacquel Brel, príncipes das arábias e reis africanos deram-lhe a responsabilidade pelos guarda-roupas. Hoje, ainda sonha que a geração mais nova se interesse pela arte da alta-costura e se entregue ao trabalho como ele se entregou. Herdando um gosto pela costura por parte da sua mãe e uma exigência de perfeição por parte do seu pai, que minuciosamente fazia sapatos, Tony Miranda é o único criador de alta-costura português e, recordando todas as medidas e pedidos de quem já passou pelas suas mãos, vai fazendo fatos que são verdadeiras obras-de-arte.

Uma das características mais vincadas do Tony Miranda é a obsessão pela perfeição?

É verdade. Sempre fui obcecado pela perfeição, desde que me conheço. Gosto de ver as coisas bem-feitas. Para mim, os milímetros contam. Os meus olhos vêem as diferenças, embora as outras pessoas não as consigam perceber.

 

É essa a essência da alta-costura? Esse detalhe, esse pormenor?

Sim, seguramente. Hoje fala-se de alta-costura com muita facilidade, mas a maior parte das pessoas não sabe o que é uma roupa de alta-costura. Está na moda dizer-se que tudo se faz à mão? mas que mão? Às vezes mais vale ter um fato feito à máquina do que um como muitos fazem à mão. Porque a máquina pode fazer coisas mais perfeitas do que a mão daquela pessoa que não sabe trabalhar. Fazer peças de roupa à mão é muito complicado. Ou se sabe realmente finalizar todos os pequenos pontos à mão ou a mão tanto cria perfeição como estraga.

 

O Tony viajou para Paris muito jovem. O que procurava nessa altura?

Eu saí de Portugal com um objetivo: a alta-costura. Tinha visto uma colecção de Christian Dior que me marcou de uma maneira tão forte! E como eu sabia que, na altura, se organizavam passagens clandestinas, arrisquei. A minha mãe apoiou-me, mas o meu pai dizia que eu era maluco (risos). Queria que eu fosse sapateiro, como ele. Foi uma viagem muito difícil, muitos dos meus companheiros não chegaram ao destino. Mas quando se sonha com alguma coisa, não se pára.

 

Mas encontrar um lugar na alta-costura, em Paris, não era fácil?

Complicadíssimo! Há quem diga que, naquele tempo, tudo era fácil em Paris. Não era! Na costura havia muita concorrência, muitos emigrantes italianos, gregos, espanhóis. Para encontrar um lugar, sobretudo na alta-costura, era muito difícil.

 

Ser português colocou mais entraves nessa procura por um lugar?

Eu nunca senti. Claro que os italianos, os primeiros a emigrar para França, tinham mais possibilidades. Mas a alta-costura sempre esteve aberta a todos os países. Nem só os franceses são criadores de alta-costura, os portugueses também podem ser.

«Há muito pouca gente que veste alta-costura e que sabe o que é um fato bem-feito»    

Começou a trabalhar em alta-costura mal chegou a Paris?

Não, foi um percurso. Na área da costura comecei por trabalhar numa casa que transformava os fatos antigos. Havia pessoas que tinham fatos de alta-costura (e foi aí que comecei a ver como eram feitos os fatos de alta-costura) que tinham custado muito dinheiro, mas que queriam transformá-los. Aprendi muito pegando nos fatos já feitos e dando-lhes novos looks. Não levou um ano até estar responsável por 32 pessoas. Também fazia retoques em casa e ganhava bom dinheiro. Mas o meu objetivo era chegar à alta-costura. Queria encontrar a melhor casa para trabalhar em Paris! Disseram-me que o melhor era o Joseph Camps, e então, na minha ousadia, fui bater-lhe à porta. Expliquei-lhe quem eu era e qual era o meu sonho, pedindo-lhe para ver o seu atelier. A casa de Joseph Camps trabalhava à peça, tinha 97 alfaiates e fazia roupas de homem e o clássico de senhora. Aquilo é que eram coisas bem-feitas! O Joseph Camps gostou de mim, mas alertou-me que aquilo que me esperava não era fácil. Lá me arranjaram uma mesa e uma máquina, que partilhava com outros alfaiates. Como trabalhavam à peça, quanto mais produziam mais ganhavam, o que gerava sempre discussões por causa das máquinas. Eu tinha de estar sempre atento! Em pouco tempo, já estava a ganhar tanto como na casa anterior, uma das coisas que o Joseph Camps me tinha dito que ia ser difícil. Nessa altura, ele aproximou-se e disse «é a primeira vez que vi uma pessoa aprender tão depressa. Tu gostas mesmo disto». Hoje, reparo que devo muito a esse homem. Se não fosse ele, eu não estava onde estou hoje. E também ao Ted Lapidus, que me acolheu na sua equipa quando deixei o Joseph Camps. Tinha encontrado um anúncio do Ted Lapidus no jornal, a pedir alfaiates, e apresentei-me na casa dele. Ele olhou para o fato que eu trazia vestido, perguntou-me onde eu tinha trabalhado e disse ao recrutador: «este fica».

 

Quando regressa a Portugal, que dificuldades encontra?

Nos primeiros tempos não notei grandes diferenças porque quando a sexta-feira chegava eu agarrava na mochila e ia para Paris. E como eu trazia a minha clientela toda, nem necessitei de pensar em dificuldades. Os clientes continuaram e continuam comigo desde que regressei.

 

Podemos assumir que os seus clientes não procuram apenas um fato, procuram algo que os diferencie?

Claro! Quem procura alta-costura sabe exatamente o que é a alta-costura. São várias horas de trabalho, já que um fato pode demorar 50, 80 ou 100 horas a ficar pronto. São materiais de alta qualidade, tecidos delicados e excepcionais, muitas vezes a custar milhares de euros o metro. São horas e horas de cortes e ajustes. Ao ver o resultado final, o cliente está longe de imaginar o trabalho que deu. Mas, infelizmente, há muito pouca gente que veste alta-costura e que sabe o que é um fato bem-feito.

 

Os portugueses vestem alta-costura?

(risos) Não? Às vezes faço peças de alta-costura, mas não aplico o preço devido, como aplico a clientes de fora. Não posso aplicar esses preços aqui, porque senão as pessoas dizem que estou maluco, como já aconteceu: «Tony, com esse valor eu posso comprar uma quinta!» (risos) Eu faço um estudo do corpo da pessoa, de como o tecido deverá assentar, etc. e isso, lá fora, paga-se dez vezes mais. É também por isso que lancei uma linha de pronto-a-vestir, mais comercial e acessível, a pensar na visibilidade da marca Tony Miranda.    

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