Fortunato Frederico - APICCAPS

«A promoção externa é a grande prioridade da indústria portuguesa do calçado»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Daniel Camacho

Audaz e visionário, Fortunato Frederico é o homem por detrás de uma associação que integra as mais poderosas empresas do sector do calçado em Portugal, a Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS). Com um percurso icónico relacionado com a construção do império Kyaia, o maior grupo de calçado português e detentor da reconhecida marca Fly London, Fortunato Frederico trouxe a sua experiência para uma associação que, cada vez mais, aposta na promoção da qualidade dos sapatos nacionais além-fronteiras. Apelidando a nossa indústria do calçado como The Sexiest Industry in Europe, numa campanha que tem angariado resultados animadores, a APICCAPS luta agora pela captação de talentos jovens para um sector que deixou para trás as erróneas premissas que descreviam esta indústria como semi-rural e incapaz de se modernizar. À conquista de um lugar no pódio do reconhecimento mundial, Fortunato Frederico fala-nos dos projetos ambiciosos da APICCAPS para os próximos anos, deixando uma certeza: «a nossa ambição é sermos os melhores, os mais modernos e os mais criativos».

Assumiu a presidência da APICCAPS depois de já ter provado ser capaz de conduzir um verdadeiro império, a Kyaia, através, por exemplo, da marca Fly London. Este desafio foi uma oportunidade de aproveitar o seu conhecimento em benefício de todo um sector, em vez de uma só empresa?

É, antes de mais, um privilégio ser presidente da APICCAPS. Sou apenas a face mais visível de uma excelente equipa. Considerando os mais de 30 empresários que estão representados nos órgãos sociais e no staff da Associação, a APICCAPS tem uma excelente equipa, que tudo tem feito para colocar o sector de calçado como uma das grandes referências da nossa economia. 

O meu percurso profissional é conhecido. Fui empresário a vida toda. A partir de determinada altura entendi que teria a obrigação de colocar a minha experiência à disposição de toda a indústria. É isso que tenho procurado fazer, da melhor forma que sei e posso.

 

Na altura em que inicia funções como presidente da APICCAPS, como definia o sector do calçado em Portugal?

Assumi a presidência da APICCAPS em 1998 e, já nessa altura, a indústria de calçado era apontada como um caso de estudo, pelo seu carácter extrovertido e pela capacidade de inovação constante, fruto de uma forte ligação ao Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, às universidades e às entidades do sistema científico e tecnológico. Muitos dos resultados que conseguimos obter hoje são o fruto de muitos anos de trabalho, de investigação e de investimento. Diria que o que mudou nestes últimos anos foi a percepção mais concreta das potencialidades desta indústria e destas empresas.

 

Falando desse investimento a nível de investigação, qual é o papel do Centro Tecnológico do Calçado de Portugal, sob alçada da APICCAPS?

O Centro Tecnológico tem uma importância vital no desenvolvimento do sector, nomeadamente na investigação de novos materiais e novos equipamentos. É um parceiro de referência da APICCAPS e das empresas da fileira. Depois de ter desenvolvido 80 novos produtos e equipamentos no âmbito do projeto Newalk, o sector de calçado, através do Centro Tecnológico, vai avançar com um novo programa de inovação. Até 2020 deverão ser investidos 50 milhões de euros no processo de modernização das empresas.

O trabalho realizado em parceria com o Centro Tecnológico e com uma rede de mais de 50 parceiros promoveu o desenvolvimento, de raiz, de mais de 100 equipamentos made in Portugal, o que permite que o país exporte hoje alta tecnologia para calçado para quase todo o mundo. Agora, a indústria portuguesa quer reforçar o seu estatuto de mais moderna do mundo e será na sequência desse desenvolvimento de novas soluções técnicas, tecnológicas e novos materiais que deverão ser investidos os 50 milhões de euros nos próximos cinco anos. 

«Entendi que teria a obrigação de colocar a minha experiência à disposição de toda a indústria»    

As parcerias com as universidades, por exemplo, mostram uma preocupação a nível da formação, correto?

A atracção de jovens talentos para a indústria do calçado é uma das prioridades do sector para os próximos anos. Por esse motivo, são leccionados cursos pela Academia de Design e Calçado que são essenciais para o desenvolvimento da indústria. Desempenhando um papel decisivo na reformulação deste sector, a Academia tem diferentes quadrantes de ensino, para pessoas de diferentes idades.

 

Neste momento, vê a indústria do calçado como um pilar essencial para a economia portuguesa?

O sector tem tido uma evolução francamente satisfatória. Cresceu, por exemplo, mais de 50% nos mercados externos nos últimos cinco anos. Diria que a sua capacidade de extroversão e o contributo para a balança comercial portuguesa são importantes. Mas, felizmente, hoje há uma percepção mais justa da evolução de vários sectores da economia portuguesa, mesmo daqueles que eram apontados no passado como sectores ditos tradicionais. Esses sectores, em conjunto, são hoje fundamentais na afirmação da economia portuguesa nos mercados externos.

 

Que medidas estão então a ser tomadas para promover o calçado português no mundo?

A presença do sector do calçado em certames internacionais constitui uma área de actuação da APICCAPS importante para as empresas. Em 2016, o sector fará uma verdadeira volta ao mundo em 365 dias, com mais de 200 empresas a integrarem sensivelmente 60 certames profissionais em todos os continentes. A promoção comercial externa é a grande prioridade da indústria portuguesa do calçado. Este investimento tem sido fundamental para que tenhamos cada vez mais empresas exportadoras e para que possamos chegar a cada vez mais mercados. A MICAM, por exemplo, é a maior feira de calçado do mundo e tem-se revelado essencial na nossa estratégia de penetração em novos mercados, uma vez que acolhe visitantes de praticamente todo o mundo. O feedback que recebemos é francamente positivo.    

Qual é o objetivo fulcral da APICCAPS nos tempos actuais?

A APICCAPS tem como objetivo, tal como referido no Plano Estratégico FOOTure 2020, ser uma referência internacional da indústria de calçado, pela sofisticação e pela criatividade, reforçando as exportações portuguesas alicerçadas numa base produtiva nacional, sustentável e altamente competitiva, fundada no conhecimento e inovação. É com esse objetivo que trabalhamos todos os dias. Reforçar a nossa presença nos mercados externos, nomeadamente em mercados de elevado potencial fora da União Europeia, será estratégico. Continuaremos ainda os esforços para melhorar genericamente a reputação da indústria portuguesa de calçado. Essa é uma condição essencial para aumentar o valor acrescentado gerado e tornar as nossas empresas mais competitivas.

 

A seu ver, as empresas portuguesas têm capacidade competitiva? Como vê a nossa situação face a países como Itália, reconhecida como a grande potência do calçado mundial?

As exportações portuguesas de calçado têm vindo a crescer de forma sustentada há seis anos consecutivos. Acresce que Portugal tem vindo a ganhar quota de mercado aos seus dois grandes concorrentes internacionais: Itália e Espanha. Esse é o nosso grande desafio para os próximos anos.

 

O que falta a Portugal para alcançar a posição de topo no sector? O que é preciso para destronar a Itália?

Não sentimos nenhum tipo de pressão em relação a Itália. Temos a ambição de nos tornarmos líderes mundiais e estamos a trilhar o nosso percurso.

«Se tivéssemos tido, no passado, a tentação de sermos competitivos com base no preço, isso teria sido o nosso suicídio coletivo»    

A competitividade funciona como incentivo, neste momento? Estamos a tentar mostrar que somos bons ou, quiçá, melhores que a concorrência mundial?

Claro que sim. A nossa ambição passa por sermos melhores, mais modernos, mais criativos e, desse modo, nos afirmarmos como uma grande referência internacional. A concorrência nunca fez mal a ninguém.

 

Houve uma altura na história em que o sector pareceu tremer face aos preços baratos dos produtos provenientes da China. Como é que Portugal contornou esta crise? Ou esta crise apenas ajudou a afirmar a qualidade do produto made in Portugal?

Essa nunca foi a nossa estratégia. Se tivéssemos tido, no passado, a tentação de sermos competitivos com base no preço, isso teria sido o nosso suicídio coletivo.

 

E quais são as qualidades do calçado português que permitirão alcançarmos maior destaque no exterior?

Conseguimos aliar a tradição e a excelência de fabrico a um design vanguardista. Podemos orgulhar-nos de dizer que os nossos sapatos são, de facto, made in Portugal. Adicionalmente, as nossas empresas estão, do ponto de vista tecnológico, muito avançadas e são capazes de responder de forma célere às solicitações do mercado. Temos em Portugal o Centro Tecnológico de Calçado, como referi anteriormente, mais moderno do mundo. Investimos mais do que os nossos concorrentes internacionais nesse domínio e, no final, isso faz toda a diferença.

Em termos estatísticos, como tem sido o crescimento desta indústria nos últimos anos?

Num cenário internacional de grande complexidade, o calçado português terminou o ano de 2015 com um crescimento ligeiro das exportações. Relativamente ao ano anterior, assinala-se um crescimento de 1% das vendas ao exterior, em resultado da exportação de 80 milhões de pares de calçado, no valor de 1865 milhões de euros (um novo máximo histórico).

Desde 2009, as vendas de calçado português já aumentaram mais de 50%. Fruto de uma aposta sem precedentes nos mercados internacionais, Portugal passou a exportar anualmente mais de 600 milhões de euros do que há seis anos, alargando ainda a geografia das exportações a mais de 20 novos destinos. O calçado português é, atualmente, comercializado em 152 países, nos cinco continentes. A premissa é continuar a reforçar a importância na Europa e apostar em mercados emergentes, onde o potencial de crescimento é enorme.

 

A nível de empregabilidade, esta indústria é responsável por quantos postos de trabalho?

As cerca de duas mil empresas da fileira do calçado em Portugal empregam sensivelmente 40 mil colaboradores e exportam, por ano, mais de 90% da sua produção, que equivale aos tais dois mil milhões de euros anuais.

«A capacidade de atrair jovens valores para a indústria é um grande desafio»    

Há algumas décadas, poucos eram os que acreditavam no potencial desta indústria. Para além de nos apelidarem de indústria obsoleta, sediada em zonas semi-rurais, gerida por empresários com pouca formação académica, ainda diziam que éramos incapazes de nos modernizar. O que diria hoje a essas pessoas?

Nunca nos sentimos tentados a hostilizar os outros por terem convicções distintas das nossas. Felizmente, a estratégia que idealizámos tem surtido os efeitos que ambicionámos. Esperamos que a nossa capacidade de afirmação internacional se prolongue por muitos anos.

 

Fomos capazes de ultrapassar todos esses obstáculos ou há algum que ainda subsista?

Diria que a capacidade de atrair jovens valores para a indústria é um grande desafio. É, em geral, um sério obstáculo ao desenvolvimento sustentado de todo o tecido empresarial português. Cabe-nos, por isso, demonstrar as capacidades desta indústria, que invariavelmente, nos últimos anos, tem criado postos de trabalho e oportunidades de carreira.

 

Quais são as prioridades da APICCAPS para os próximos anos?

No nosso último Plano Estratégico FOOTure 2020 assumimos como grande prioridade alcançarmos o patamar de grande referência mundial. É um desafio ambicioso, mas tudo faremos para uma concretizar.

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