Joaquim de Almeida

«Já me habituei ao papel de vilão»

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Manuel Teixeira

É o eterno vilão português em Hollywood, apesar de se manter afastado das passadeiras vermelhas e dos holofotes da ribalta. O sorriso que nos expressa é raramente visível no grande ecrã, uma vez que nos habituou aos rostos sisudos e aos gestos de ódio, característicos dos maus da fita que tão bem interpreta. Com uma carreira de sucessos, onde constam filmes que ele próprio já tem dificuldades em recordar o título, Joaquim de Almeida é o latino com sotaque engraçado que rumou aos EUA com pouco mais do que ousadia na bagagem. Hoje, com 59 anos e um sentido de humor apurado, relembra o jovem aventureiro que travava amizades com a máfia nova-iorquina e prepara-se para abraçar um futuro risonho, que a própria idade lhe proporciona, com cada vez mais trabalhos a virem em sua direcção. Com um pé em Los Angeles e outro em Portugal, escolhendo os cenários para a sua própria história, o ator que aos olhos dos portugueses já merecia um óscar vai somando filmes e séries televisivas que o colocam nos ecrãs do mundo. Mas agora silêncio no estúdio. Luzes, câmara? acção!

Começou por ser jardineiro e hoje é um dos mais reconhecidos atores portugueses. Se não tivesse encontrado um lugar no cinema, via-se feliz numa outra profissão?

Eu saí de Portugal em 1975 à procura de um lugar para estudar porque o Conservatório Nacional tinha fechado. Acabei por chegar à Áustria e arranjar um emprego num teatro, mas aquilo durou pouco. Mas como eu estava a gostar de viver em Viena, tive de procurar outro trabalho. Apareceu então a oportunidade de ser jardineiro, porque eu tinha uma namorada que era secretária do embaixador do Zaire em Viena, tinha outra que era a mulher-a-dias do embaixador? (risos) e eu fiquei a ser o jardineiro do embaixador! Não sei se tinha jeito ou não, mas agora até tenho um grande jardim na minha casa em Sintra. Mas o que é que eu faria se não fosse ator? Nunca pensei. Eu apenas tinha imposto um limite para mim próprio: se aos 30 anos não estivesse a viver desta profissão, esquecia e fazia outra coisa. Felizmente não foi necessário.

 

Um jovem que parte à descoberta dos EUA aos 19 anos pensa nas dificuldades que poderá encontrar?

Com 19 anos temos toda a vontade do mundo e, sobretudo, achamos que conquistamos o mundo inteiro. Por exemplo, o meu filho está agora a estudar nos EUA porque, depois de estudar Economia e Teatro em Glasgow, decidiu ser ator. Mas a visão é diferente. O pai já é ator. Eu, pelo contrário, vim de uma família de farmacêuticos, engenheiros químicos, médicos. Eu querer ser ator era uma fuga ao percurso. Nessa altura havia muito poucos estrangeiros a tentar a sorte nos EUA. Mas ainda bem que eu fui, porque comecei logo a fazer o meu percurso: fiz teatro sem ser pago, fiz soap opera, até conseguir fazer o meu primeiro filme quando tinha 24 anos.

 

Ter um sotaque estrangeiro abriu-lhe mais portas?

Abriu. Eu fazia sempre papéis de estrangeiro. Fazia, faço e vou continuar a fazer. Lembro-me de um dos meus professores me dizer que, de todos os seus alunos, eu era aquele que ele tinha a certeza que ia ser ator. Mas alertou-me: «Trabalha a dicção e não te rales com o sotaque. Os norte-americanos gostam desse accent». Hoje, temos muitos jovens atores portugueses nos EUA, mas eu acho que dei o mote, eu fui o pioneiro. Se é mais fácil para eles do que foi para mim? Sei que a adaptação é mais fácil, mas em relação ao trabalho há mais concorrência. E, também, a maior parte desses jovens já falam inglês sem sotaque, já se estão a tornar americanos. Eu faço papéis de latino, quase sempre aristocrata, porque falo as línguas todas e tornei-me um ator-tipo.

 «Sinto que estou a entrar numa fase diferente da minha vida como ator»

Quando chega a Nova Iorque, a par dos estudos, trabalhou num bar ? o La Gamelle. Tendo em conta a história desse bar, essa experiência serviu-lhe de base para personagens?

Serviu, porque nos princípios dos anos 80 a zona onde ficava o bar era dominada pela máfia. Portanto, eu conhecia muitos mafiosos. Até tinha amigos mafiosos! E vi muita coisa estranha naquela altura (risos). Eu conhecia aquela gente toda e via bem como aquilo funcionava. Quando comecei a fazer papéis de mau da fita, eles acharam que eu fazia parte deles. Era muito engraçado porque eu trabalhava no bar e dizia que queria mesmo ser ator, mas eles insistiam: «Quando quiseres abrimos um restaurante e tu ficas à frente do bar» (risos). Eu fazia aquilo bem. Aliás, foi em Nova Iorque que fui aprendendo a falar várias línguas corretamente. Tinha amigos franceses, italianos, etc. Por isso, as experiências daquele bar serviram-me. Sempre gostei. Depois até tive um restaurante em Lisboa, mas deu imenso trabalho e problemas. E como este é um país que não funciona juridicamente, ainda estou a aguardar por uma resolução dos tribunais. Espero ganhar um dia? quando tiver 80 anos (risos).

 

Nesses seus primeiros tempos como ator, temos a certeza que olhava para os atores mais experientes com um olhar de admiração. Houve alguém que o tenha marcado?

O Michael Caine, com quem trabalhei quando ele tinha 53 anos e eu 25. Aprendi muito ao vê-lo trabalhar, durante aquele que foi o meu segundo filme, o The Honorary Consul, realizado por John Mackenzie. Mas depois trabalhei com muitos outros atores. Aliás, agora estou a fazer um filme com o Gary Oldman e o Samuel L. Jackson. Tenho tido oportunidade de trabalhar com atores fantásticos no cinema. E realizadores também, claro. Trabalhei com bons realizadores espanhóis, por exemplo, mas agora o cinema espanhol está em baixa devido à crise. O cinema em si está em crise.

 

E hoje como se sente ao ver os novos atores a olharem para si com esse mesmo olhar de admiração?

Pois, eu agora estou numa idade em que são os atores mais novos que me dizem: «eu cresci com os seus filmes». Eu fiz muitos filmes que se tornaram icónicos, que passam na televisão o tempo inteiro, como o Desperado. São filmes que marcaram muita gente.

Falava há pouco das dificuldades do cinema em Espanha. E em Portugal?

Eu não posso falar de cinema português porque eu não vejo cinema português. Há pouco cinema português. E também não tenho feito cinema português. Ou porque não me convidam ou porque quando me convidam eu já tenho outros planos nos EUA. Mas é pena. Até nos EUA, o cinema independente está numa grande crise. Hoje em dia, o futuro está na televisão.

 

Realmente, temos visto o Joaquim com participações mais activas em séries televisivas?

E agora cada vez mais. Adoro quando me convidam para fazer filmes, mas neste momento os grandes escritores estão na televisão, os grandes atores de cinema estão a fazer televisão, porque o dinheiro está na televisão. Eu, graças a Deus, sinto que estou a entrar numa fase diferente da minha vida como ator. Sinto que estou a ter mais propostas novamente.

 

Normalmente, o que torna um papel irrecusável para si?

Em primeiro lugar, não aceito nenhum papel sem ler o guião. Para mim, a história tem de estar bem escrita. Depois, analiso os atores com quem vou trabalhar. No filme que estou agora a preparar, contraceno com atores de que gosto muito. Tenho cenas fantásticas com o Gary Oldman, com o Samuel L. Jackson. Depois, há a atriz que me dá um tiro na cabeça no fim? Ups, não posso contar! (risos). Mas, para mim, o guião é a essência. Decido se quero fazer ou não um filme pelo guião que me apresentam, pelo personagem que interpretarei e pelo realizador.

«Os papéis completamente bons são dados àqueles que são maus na vida real. Os bons na vida real fazem sempre de maus»    

Disse há uns tempos que a idade era uma chatice. Incomoda-o que os papéis principais sejam escritos para uma faixa etária mais jovem?

É verdade, geralmente são. Neste meu próximo filme é o Ryan Reynolds que faz todas as cenas de acção. Mas, felizmente, é um filme em que eu não sou o ator mais velho (risos).

 

Mas a questão da idade preocupa-o?

Não me preocupa pela profissão, porque agora estou a trabalhar muito. A minha manager dizia-me que eu seria daqueles atores que quando tivesse 60 anos ia trabalhar imenso. E, na realidade, estou numa faixa etária em que a maior parte da minha competição desapareceu. Deixaram de atuar, simplesmente. Portanto, de certa maneira, ainda bem. Mas claro que a idade chateia porque ninguém gosta de ser velho. Chegamos a uma altura em que nos olhamos ao espelho e já não somos quem éramos. Levantamo-nos de manhã e já nos dói tudo (risos). Depois, eu ando sempre de um lado para o outro. Num dia voo para Dallas para filmar uma série; depois voo de volta a Los Angeles para, no dia seguinte, voar para Portugal para promover um filme. Parecendo que não, quando eu tinha 30 anos, isto fazia-se com uma perna às costas. Agora começa a doer. Mas eu não consigo estar muito tempo sem fazer nada, senão aborreço-me. Sou o eterno insatisfeito. Quando estou a trabalhar muito, reclamo porque estou a trabalhar muito; e quando não estou, reclamo porque não estou! (risos)

 

Costuma ser o vilão latino na maioria das personagens que interpreta. Sente falta de papéis em que seja mais bonzinho?

(risos) Fiz recentemente um filme em que sou médico-cirurgião, por isso, sou bonzinho! Mas no próximo filme já não sou nada bonzinho. Sou um agente corrupto da Interpol. É por isso que levo o tiro na cabeça! Faz-me falta outros papéis, mas eu já desisti. Tenho de trabalhar e, desde que sejam filmes bons, já me habituei ao papel de vilão. É óbvio que gosto que me ofereçam papéis de bom, mas completamente bom não tem muita piada. Os papéis completamente bons são dados àqueles que são maus na vida real. Os bons na vida real fazem sempre de maus (risos).    

É difícil despir a pele de vilão quando Hollywood assume que é bom nesse papel?

Não me custa nada fazer outros papéis, mas é preciso que me ofereçam. Geralmente, interpreto papéis de bom da fita no cinema independente, que é algo que está a desaparecer. Nos grandes filmes de estúdio, oferecem-me sempre papéis de mau. Eu também não digo que não porque tenho de ganhar a vida.

 

O Joaquim afirma não ser um menino de Hollywood. O que mais o incomoda nessa vida de estrela? Não o vemos nas festas, nas passadeiras vermelhas?

Não, porque não vou. Não gosto. Hollywood tem uma grande dose de hipocrisia. As pessoas vêem nas revistas aquele glamour, mas o glamour é muito pouco. Existem atores que ganham fortunas e vivem em casas incríveis, mas há sempre dramas associados. Depois, há a chamada Hollywood Royalty, que são aqueles que nasceram filhos de estrelas. Cresceram a ouvir os pais a falar de cinema e teatro, a chamar tio aos atores e realizadores? Esses começam a trabalhar com imensa facilidade. Acho que é por isto que não tenho amigos atores. Os meus melhores amigos não estão ligados à profissão. Nem todos os contornos da profissão me agradam.

«Hollywood tem uma grande dose de hipocrisia»

O seu mais recente filme estreado em Portugal foi Os Profissionais da Crise, em que contracena com Sandra Bullock. Aí, interpretava Castillo, um candidato à presidência da Bolívia que depois não cumpre as promessas eleitorais. Se o Joaquim fosse candidato em Portugal, o que prometia?  

(risos) Eu não prometia nada porque aqui os presidentes não podem prometer muita coisa. A minha desilusão são os ordenados que se pagam neste país. Não consigo perceber como é que as pessoas vivem. O que dói mais é ver casos como o de Sócrates ou do BES não serem levados à justiça. Acho que os políticos devem ser responsabilizados duplamente. As penas deviam ser a dobrar, porque eles abusaram de uma confiança pública e de um poder. Quando passam para o outro lado e são corruptos, deviam pagar a dobrar. A mim assusta-me ouvir a expressão: «É o país que temos». Não! Isto não é o país que temos, é o país que permitimos ter! O povo português fez uma revolução que se pensava que iria mudar completamente o país. Passaram 40 anos e estão sempre dois Governos no poder, ora um, ora outro. E a corrupção é a mesma. É tempo de parar. Portanto, o que eu prometeria? Seguramente, menos corrupção. Também é verdade que os políticos ganham mal e isso dá azo à corrupção. Se calhar é necessário pagar-lhes ordenados maiores para tentar que não sejam corrompidos. Vejo a situação muito difícil. É difícil acreditar nas promessas vãs? são promessas como as do Castillo.

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