Filipe Faísca

Um toque de ousadia na moda portuguesa

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia 1 - Luis de Barros; 2 a 5 - © ModaLisboa/Rui Vasco

Abraçando a luz quente e as cores fortes de Moçambique, Filipe Faísca foi crescendo rodeado de capulanas, até que as planícies alentejanas de Portugal o acolheram. Na memória ficaram os aromas únicos e as experiências irrepetíveis vividas por terras africanas. Aos poucos, a audácia de criança que dava palpites à mãe sobre que sapatos levar a determinado evento trouxe a certeza dum futuro ligado ao mundo da moda. Hoje, reconhecido pelo público como ousado e excêntrico, Filipe Faísca é um dos nomes mais conceituados no panorama do design de moda em Portugal, com criações distinguidas como irreverentes e exclusivas, num elogio contínuo à personalidade feminina. Com um sorriso cativante e um olhar que nos mostra uma atenção constante ao mundo que o rodeia, retirando das próprias relações humanas e dos conceitos estéticos em vigor a sua inspiração, o estilista assume não ter a ribalta como foco e considera a elegância o seu «sonho secreto».

 

Com um brilho nos olhos, o pequeno Filipe acompanhava os rituais de beleza da mãe, antes de cada festa. Ora o vestido, ora o sapato? cada escolha era acompanhada em todo o pormenor, envolvida numa aura de fascínio inspirada pelo próprio sabor de África dos anos 60. «Desde muito cedo que me tornei sensível ao meio que me rodeia. Afinal de contas, não há como fugir ao que se vê, sente e ouve. O facto de ter nascido em África teve muita influência, despertou-me muito os sentidos. Quando se nasce em África, o olfacto e a audição tornam-se apurados», esclarece Filipe Faísca, recordando o silêncio do seu quarto que, de acordo com as suas lembranças, o tornou muito observador. Mas, ainda jovem, Filipe Faísca rumou a Portugal, deixando para trás o glamour de Moçambique, numa década marcada por uma vida cultural e social activa. Por terras lusas, encontrou as paisagens serenas da cidade alentejana de Beja e um país em ditadura. Contudo, aquele olhar de criança não se perdeu. Nas bonecas das irmãs encontrou as suas primeiras maquetes, cortando tecidos e transformando-os em algo que, nesse simples olhar de miúdo, se assemelhavam a verdadeiras peças de alta-costura. Das bonecas, passou para as indumentárias das irmãs e, mais tarde, com uma responsabilidade acrescida, da mãe. Depois, foi altura de partir à conquista da capital, onde estudou e viu a sua carreira despontar. Aliás, Filipe Faísca era um dos estudantes que, apelando à diversidade de fenómenos culturais e artísticos em Lisboa, se juntou às míticas Manobras de Maio, um desfile improvisado no Largo do Século, há mais de 30 anos, exigindo maior aposta na cultura e nas artes, como a moda. Eternizado como um desfile louco, com criações livres e ousadas de estilistas para todos os gostos, as Manobras de Maio espevitaram a cidade num momento em que Portugal já se encontrava na Comunidade Económica Europeia (CEE), mas grande parte dos edifícios da capital ainda aguardavam por movimento.

Volvidos alguns anos, em 1991, Filipe Faísca apresenta a sua primeira colecção, na ModaLisboa. Desde aí, o público conheceu e memorizou a sua visão apurada e diferente dos looks femininos. Desenhando peças para mulheres que não se demitem de ser mulheres, mulheres que arriscam e se entregam às tendências, de modo esclarecido e sem inseguranças, Filipe Faísca assume o seu prazer em criar roupas que mexam com a energia de quem as veste. «Não é só o prazer de fazer roupa, é gostar muito de pessoas, ter um prazer enorme em tratar delas e pô-las felizes e alegres», disse, em tempos, o designer de moda. Hoje, depois de 30 anos de carreira e muitas colecções femininas concretizadas, Filipe Faísca colocou de parte o seu lado boémio, mas não abandonou a sua irreverência, de forma a explorar o poder da mulher na moda portuguesa. Nas suas mais recentes sugestões para o Outono/inverno, Filipe Faísca carimba a simples mensagem de que não existe tempo nem existe idade, invocando uma mulher multifacetada, determinada e até emocional. «Multifacetada, para mim, é sinónimo de profissional, sexy, perversa, alegre, eficiente e intuitiva. Determinada significa objectiva, decidida e realista. E emocional quer dizer que a mulher canta, chora, ri e geme», diz-nos Filipe Faísca, adicionando: «Foram utilizados, como elementos centrais da colecção, objetos de lugares comuns, rendas antigas, naperons e elementos geométricos que resultaram numa mulher sem idade», declara.

Recebendo no seu atelier, no número 99 da Calçada do Combro, bem perto do icónico lisboeta Bairro Alto e Chiado, clientes maioritariamente dos 35 aos 60 anos, Filipe Faísca vai dividindo o seu tempo entre a criação de roupas para particulares e a confecção de figurinos para teatro, ballet ou cinema. «Pôr qualquer coisa em cena sempre foi um exercício revelador. A vida não é mais do que um texto», esclarece. Mas na lista de projetos ainda há espaço para assinar fardas para conceituados restaurantes ou hotéis, compor as vitrinas de luxuosas lojas como a Hermès e a Fashion Clinic e delinear a melhor forma de expandir a marca Filipe Faísca a nível internacional. Assumindo ser diferente e «não estar preocupado com a diferença», o estilista que orgulha Portugal, mostrando que a criatividade não tem necessariamente de ser racional, tem no mundo a sua maior influência e é à conquista do mundo que Filipe Faísca pretende partir, levando a sua marca além-fronteiras. Nós cá estaremos para aplaudi-lo nessa tamanha passerelle

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