Teatro Julu

Alambamento: tradição angolana

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia Daniel Camacho

Uma tradição muito antiga no continente africano - alambamento. Em Moçambique, por exemplo, é conhecida como «Lobolo». Para os angolanos este ato de união sempre foi visto como um acontecimento de respeito, amor e dignidade perante a sua amada e família. Tudo começa com uma carta, escrita pelo noivo, com o pedido da mão da sua amada, direccionada ao seu pai. Há um primeiro encontro. Apresentam-se as famílias. Depois de autorizado o alambamento, a família da noiva faz as suas exigências de modo a formalizar o pedido e, logo mais, eis que surge o momento do alambamento (momento em que se entregam os dotes, pedidos pela família da noiva, e, caso falte alguma coisa, até multa pode haver). Na lista podem estar as mais variadas coisas: comida, bebidas, roupas, dinheiro? e, enquanto decorre o alambamento, há música para animar os familiares, não fossem os angolanos um povo alegre e festivo. Ainda nos dias de hoje esta tradição se mantém em algumas das famílias angolanas, mas, de acordo com alguns testemunhos, antigamente era mais valorizada. Era até considerada um verdadeiro postal sociocultural de Angola. Muitos poetas e historiadores falam do alambamento como um dos símbolos de dignidade da mulher.

Nesta peça teatral, apresentada pelo grupo de teatro Julu, podemos assistir a um alambamento, mesmo que fictício, onde é retratado este ato cultural. À medida que vamos percorrendo as imagens entendemos a mensagem: a família da noiva aguardava ansiosa os dotes trazidos pela família do noivo. Tudo era deixado no chão e cada um voltava para o seu lugar. A mãe, Conceição Diamante, foi a atriz escolhida. Está no grupo há 24 anos, e ela representa a importância deste momento na vida das mães quando elas recebem aquela satisfação e se sentem honradas com este compromisso. A mãe vai, item por item, verificar se está tudo conforme a lista enviada. Não falta nada. Seguiu-se um pequeno discurso dos líderes das famílias e logo festejaram todos a união do jovem casal.

Com peças teatrais, o grupo Julu tenta retratar a sociedade angolana. 

O alambamento não escolhe classes. Reza a história que o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, deu 55 cabeças de gado para o chamado «lobolo» à família de Graça Machel. Embora muitas tradições só possam ser aceites na sociedade africana, há algumas que mostram a simbologia de um país. A maioria das regiões africanas tem por base uma premissa: a família.

O Julu, fundado em 1992, cujas iniciais JU provêm de Julião e LU de Lucas, em homenagem a dois jovens atores, tem como lema: o teatro ao serviço da comunidade, virado para a educação (minas, vacinação, educação cívica eleitoral?). Ganharam, em 2015, o Prémio Nacional de Cultura e Arte, atribuído pelo Ministério da Cultura, com a peça A filha do bruxo. O grupo usa algumas peças teatrais para ?caricaturar? um pouco os excessos que às vezes se vive no mundo. É Lourenço Mateus o dramaturgo que escreve os enredos do grupo. Como este ? Alambamento ? que pretende valorizar a mulher e a própria família angolana.

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