Carla Caramujo

A princesa portuguesa da Ópera

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Alfredo Rocha

Desde o momento em que pisa o palco, Carla Caramujo cativa os olhares da plateia. Se não for pela sua performance cuidada e destemida, é pela sua voz poderosa e encantadora. Capaz de despertar emoções através de repertórios variados, do barroco ao contemporâneo, a soprano portuguesa tem levado o seu talento além-fronteiras, vestindo a pele de inúmeras musas da Ópera: Donna Anna, em Don Giovanni, de Mozart; Gilda, em Rigoletto, de Giuseppe Verdi; Belinda, em Dido and Aeneas, de Purcell; Adele, em Die Fledermaus, de J. Strauss; ou mais recentemente Iara, em Onheama, de João Guilherme Ripper, uma produção inteiramente portuguesa. Enchendo as salas mais conceituadas, seja o Teatro Nacional de São Carlos ou o The New Athenaeum Theatre em Glasgow, com o seu timbre ímpar e o seu dom dramático, Carla Caramujo é autêntica e exímia. Grata pelo carinho do público português, que sem dúvida contribuiu para a carreira premiada da cantora e atriz, a carismática soprano afirma o seu percurso futuro a fará pisar mais vezes os cenários lusitanos. Que se preparem os aplausos!

 

Com uma voz forte e uma presença notável, Carla Caramujo é uma das mais reconhecidas sopranos portuguesas.

Com o violino nos seus pequenos braços de criança, Carla Caramujo foi despertando para a música, sob a orientação do Conservatório de Música de Coimbra. Aos poucos, as artes foram-se unindo, como se tomassem o seu corpo e exigissem que Carla as libertasse. E Carla, com esse burburinho musical dentro de si, cantou. Mas a sua voz, forte, procurava ensinamentos que Portugal, na altura, não garantia. «Como escolhi fazer do canto a minha profissão resolvi optar por escolas de referência mundial. Na altura, as opções de formação em Portugal eram bastante incompletas e o mercado de trabalho, tal como hoje, muito exíguo. Também necessitava de novos horizontes, perspetivas, opiniões, visões? necessitava de explorar uma panóplia de conhecimentos e experiências no meio musical e operático nos locais onde havia maior tradição e oferta», explica. A escolha recaiu então pela conceituada Guildhall School of Music & Drama, em Londres, rumando ainda, depois, ao escocês Royal Conservatoire of Scotland. Guardando com simpatia as indicações de profissionais com quem teve oportunidade de se cruzar, como a professora de canto Laura Sarti, o maestro João Paulo Santos, o encenador Emilio Sagi, o compositor Peter Eötvös, entre muitos outros, Carla foi conquistando o público com performances cativantes e com muita emoção à mistura. 

Sentindo-se uma embaixadora do talento português sempre que actua nos países estrangeiros, redobrando a sua atenção para deixar boa impressão do seu país e dos seus artistas compatriotas, Carla assegura, orgulhosamente, que Portugal tem desenvolvido as técnicas formativas a nível de canção lírica, apesar das dificuldades associadas. «Cada vez formamos mais e melhores profissionais, mas, paradoxalmente, as oportunidades de construção de carreira são escassas. 

Com um vasto repertório, do barroco ao contemporâneo, Carla Caramujo já foi várias vezes premiada. 

 O mercado não acompanhou o crescimento e investimento na formação, o que faz com que os músicos que se formem em Portugal sejam confrontados com a inevitabilidade de procurar trabalho no exterior», conta Carla, acrescentando, em tom de brincadeira: «Se alterasse o meu nome e lhe desse um qualquer grafismo russo, inglês ou francês teria muitas mais propostas de trabalho em Portugal». Criticando «a falta de conhecimento no que toca a decisões culturais» e apelando ao desenvolvimento de projetos e programação que permitam levar o talento português a palco, Carla vai-se afirmando uma artista completa e incansável. Já com planos para a temporada 2016/2017, com passagens na Gulbenkian e no Centro Cultural de Belém, Carla revela ainda ter tempo para um projeto bem especial: a gravação da obra integral para canto e piano de António Fragoso, a ser lançada em 2017, altura que se comemora o centenário da morte do compositor português.

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