Marionetas do Porto

Contar a vida através de criaturas silenciosas

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Direitos Reservados

Recuando nos tempos, pisando os anos 1950, a tradição popular portuguesa encontrava nos fantocheiros que percorriam as festas e romarias um motivo para gargalhadas. Os pequenos fantoches de madeira e trapos bailavam nas luvas dos fantocheiros, que com os seus brados e gemidos conquistavam a alegria da multidão. Mas, com o passar das gerações, o Teatro Dom Roberto ? era este o nome atribuído ? foi desaparecendo das ruas, deixando apenas as memórias de um teatro popular que encantava os olhares de miúdos e os risos de graúdos. Foi essa essência tão única e rica que influenciou o encenador português João Paulo Cardoso a criar, em 1988, o Teatro de Marionetas do Porto, uma companhia que aviva essas memórias do passado, trazendo as marionetas a palco, assim como os próprios atores.

Procurando as formas tradicionais de fazer teatro, encarando-as com seriedade, João Paulo Cardoso dedicou-se afincadamente à arte dos Robertos, aprendendo, pelas mãos do mestre António Dias, um dos últimos bonecreiros vivos na altura, os contornos duma arte que escasseava. A palco, após a fundação da companhia, levou o emblemático espectáculo Miséria, baseado num conto popular e apelidado pela crítica como uma obra-prima do teatro de marionetas. Miséria marcou assim a estreia do Teatro de Marionetas do Porto, que se instala no Teatro de Belomonte, em pleno centro histórico da cidade invicta, local onde se encontrava também o tão desejado Museu das Marionetas (este museu terá novo lar em Setembro). Embora a vida tenha atraiçoado João Paulo Cardoso demasiado cedo, o seu sonho concretizou-se. «Considero que João Paulo foi um mestre do teatro e do teatro com marionetas. Com a sua forma de ser inquieta e perfeccionista, explorou muitas possibilidades e formas de criar, trabalhando com equipas especializadas e capazes de dar resposta à sua enorme criatividade», recorda Isabel Barros, a coreógrafa que trouxe a dança às marionetas e, hoje, ocupa o cargo de diretora artística da companhia. «Chamo-lhes criaturas, no sentido da imagem que tenho das marionetas como seres de silêncio e profundamente enigmáticos. Criaturas a quem emprestamos a vida para que o mundo se eleve. São também seres com asas, têm a capacidade de realizar o sonho dos humanos, voar, suspender no ar, não ter peso. Há nas marionetas muita dança e isso fascina-me», justifica Isabel Barros.

João Paulo Cardoso foi o grande mestre e impulsionador da criação do Teatro das Marionetas do Porto. 

Fiéis aos ensinamentos do mentor João Paulo Cardoso, a equipa composta por sete pessoas em regime de continuidade ? contando ainda com colaboradores contratados ? vão interpretando personagens, partindo de obras originais, como as peças para crianças Óscar, A Cor do Céu, Como um Carrossel à Volta do Sol ou Os bichos do Bosque, ou textos adaptados de Shakespeare, Heiner Muller, Anais Nin ou Beckett, deixando as luvas de outrora para trás. «Convidamos artistas como Rosa Ramos, Étienne Champion, Júlio Vanzeler ou João Vaz de Carvalho para criarem as marionetas, que depois são construídas na nossa oficina», explica a diretora artística.

Orgulhosos de já terem pisado grande parte dos palcos nacionais, o Teatro das Marionetas do Porto destaca a sua grande capacidade de gerar receitas, seja através dos espectáculos, das entradas no museu ou das leituras encenadas. À comunidade, apenas pede protecção, uma vez que os projetos turísticos que se espalham pela zona histórica do Porto já motivaram a mudança de instalações do museu. 

PARTILHAR O ARTIGO \\