Victor Hugo Pontes

Entre a dança e o teatro

\\ Texto Andreia Filipa Ferreira

Com um percurso que o próprio considera atípico, Victor Hugo Pontes é um coreógrafo português reconhecido pelo seu olhar criativo, mesmo quando se tratam de reportórios mais clássicos. Com uma paixão pela dança que o acompanha desde os seus sete anos, altura em que decide entrar para um rancho folclórico, já que «não era propriamente fácil um rapaz fazer ballet clássico em Guimarães», a sua terra natal, Victor Hugo Pontes cresceu sem saber muito bem responder à derradeira pergunta ?O que queres fazer na vida??. Talvez tenha sido essa indefinição que o levou ao tal percurso atípico, marcado por várias opções e várias escolas. Recolhendo influências de todos os que se cruzaram no seu caminho, desde Nuno Cardoso aos Third Angel e a Pippo Delbono, o português divide-se hoje entre os palcos e os bastidores, dançando ou coreografando ao seu próprio ritmo e genialidade. Não é à toa que as suas interpretações percorrem as mais importantes casas de espectáculo do país e os aplausos se elevam. Zoo, Carnaval, Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a e Uníssono, a estrear na próxima temporada, são algumas das obras que Victor Hugo Pontes tem levado a palco.

Podíamos dizer que Victor Hugo Pontes é dança. E, de facto, é. Mas a sua história engloba muito mais. Do teatro para a dança, passando pelas artes plásticas e pelas dúvidas de carreira que o levaram a frequentar dois cursos superiores ao mesmo tempo, Victor Hugo Pontes é hoje um dos coreógrafos que mais atenção tem despertado no mundo das artes. Talvez a sua interpretação d?A Gaivota, um dos maiores textos do repertório clássico do teatro assinado por Anton Tchékhov, que estreiou no Festival Internacional de Dança Contemporânea (GUIdance) em Guimarães sob o nome Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a, tenha contribuído para esse facto. Numa coreografia dinâmica que respeitava o texto original, apesar de não o dizer, o coreógrafo português trazia a palco bailarinos que contavam uma história de amor e desamor apenas com o corpo. E como Victor Hugo Pontes conseguiu? «Foi essencialmente procurar acção, a acção que estava por detrás das palavras. Fazer um estudo dramatúrgico e traçar a narrativa, encontrando os agentes da acção, as personagens. Identificar os conflitos e potenciá-los, procurando despojar a trama de modo que se tornasse dançável e, em simultâneo, reconhecível. Foi assim que cheguei à composição coreográfica. Através de um processo dramatúrgico que deu espaço ao corpo para falar, rejeitando a linguagem verbal», explica Victor. Com uma boa dose de ousadia, este espectáculo colocou Victor Hugo Pontes nas luzes da ribalta. «As expectativas são grandes, eu sei. A pressão sobre mim é imensa. Mas continuo a fazer o meu trabalho com a mesma seriedade e empenho, como fazia quando não tinha tantos olhos postos em mim. O facto de ter arriscado e ter ido para um território que não me era nada familiar, ou nada expectável por parte do público, contribuiu para o sucesso desta criação. Felizmente correu muito bem, mas podia não ter corrido. E aí, entrava Beckett em cena: falha outra vez, falha melhor!», conta o coreógrafo, bem-disposto.

Victor Hugo Pontes é um dos coreógrafos que mais atenção tem despertado no mundo das artes.    

Já a preparar a nova temporada de espectáculos, que contará com a estreia de Uníssono e Noturno (em 2017) e com a reposição de espectáculos mais antigos como Vice-Versa, Ocidente, A Ballet Story e o icónico Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a, Victor Hugo Pontes revela-se talentoso e exigente, levando um mundo de dança e teatro a plateias que, mesmo sem quererem, se vêem envolvidas numa aura de criatividade. 

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