Manuel Cargaleiro

«A arte é uma doença crónica que fica para a vida»

\\ Texto (com colaboração de João Afonso Ribeiro e Tiago Feijóo) Andreia Filipa Ferreira
\\ Fotografia Manuel Teixeira

O olhar meigo e a expressão risonha que desvenda um bom humor contagiante acompanha uma conversa que, no coração de Manuel Cargaleiro, foi uma viagem no tempo. Por momentos, os bonequinhos em barro, que se desfaziam facilmente, ganharam vida e voltaram aos dias de hoje, para contar uma história feita de acasos e força de vontade. Sem saber definir-se, Manuel Cargaleiro é um ceramista e pintor português que, com uma carreira distinta além-fronteiras e museus em Vietri, na Itália, e em Castelo Branco, lutou contra os ideais familiares e abraçou a arte como «uma doença crónica para a vida».

Convidámo-lo a recuar no tempo, numa procura pelas bases da sua arte. Como é que tudo começou?

Tenho então de recuar ao tempo em que era miúdo. Nasci em Vila Velha de Ródão, em Castelo Branco, uma terra pequena, onde o Tejo entra em Portugal. Nos tempos da Escola Primária fui para o Monte da Caparica, onde existia a olaria do senhor José Trindade. Eu saía da escola e, em vez de ir para a quinta dos meus pais, punha-me a observar o oleiro. A maneira como ele pegava numa bola de argila e a transformava numa peça, no torno. Eu achava aquilo um milagre. Chegava à quinta e ia brincar com a terra. Comecei assim a modelar e a fazer bonequinhos. Com oito ou nove anos, o meu entretenimento era modelar. Os rapazes e raparigas vizinhos vinham brincar com os meus bonecos, mas como aquilo não estava cozinho, partia-se. Para ver se tornava as peças mais duras, usei o forno de lenha onde a minha mãe fazia a comida. Depois, com os restos das tintas usadas para pintar portas lá na quinta, por exemplo, pintava aqueles bonecos. Assim começou a minha aventura e, mesmo com o avançar da idade, nunca parei de fazer aqueles bonequinhos.

 

A sua ida para Lisboa incentivou-o a prosseguir essa aventura, correto?

Quando fui morar para Lisboa já tinha idade para frequentar o liceu. Mas o meu pai, como era agricultor, queria que eu e o meu irmão seguíssemos áreas relacionadas para dar seguimento ao trabalho dele. Na verdade, o meu irmão tornou-se veterinário. Mas eu segui outro caminho. Na altura, eu morava junto ao Saldanha e, ao ir para o liceu, passava pelo Parque Eduardo VII, que andavam a refazer, e apanhava o barro. Nem sabia que aquele barro era tirado dali para ser enterrado junto aos depósitos da fábrica Viúva Lamego. Durante 20 anos aquela fábrica usou aquele barro, que era excepcional para a cerâmica. Então, vindo do liceu, eu levava aquele barro para casa, deixando a minha mãe muito zangada porque lhe sujava a casa toda (risos). Nessa altura, já levava os bonecos para uma olaria em Lisboa, para cozerem. Entretanto, o meu gosto pela arte, pela pintura, aliou-se ao gosto de um colega meu que era de uma família já muito dedicada às artes. Certo dia fomos assistir a uma conferência no Museu de Arte Antiga sobre a pintura holandesa do século XVI, feita pelo crítico de arte Luís Reis Santos. Eu gostei tanto da conferência que, no fim, enchi-me de coragem e fui dizer-lhe que tinha adorado ouvi-lo e que gostava de mostrar-lhe os bonecos que eu fazia. Ele deu-me um cartão e disse para eu lhe telefonar para marcar uma ida à casa dele. Ele morava em Campo de Ourique e lá fui eu. Fez um bocado de troça, mas marcou um encontro com o Jorge Barradas, que me convidou para ir trabalhar para o seu atelier. A partir daí, nunca mais parei.

«Na minha família de gente simples do campo, ninguém aceitava que eu fosse artista. Ninguém me levava a sério»    

E teve aceitação por parte da sua família?

Na minha família de gente simples do campo, ninguém aceitava que eu fosse artista. Ninguém me levava a sério. Segui os estudos em Ciências, na Escola Politécnica, mas eu não queria ir para Agronomia. Nunca quis parar de fazer as minhas experiências em cerâmica. Como não estava contente, e sem dizer nada a ninguém, arranjei uma professora para me dar aulas de desenho, para que eu concorresse à Escola de Belas Artes. Pagava-lhe com as minhas economias. E não é que concorri e entrei?! O meu pai viu aquilo como uma desgraça! «Os artistas são todos miseráveis», dizia ele. Mas não havia nada a fazer. Era aquilo que eu queria. No entanto, o meu pai alertou-me logo que não me daria dinheiro para pagar a escola. Eu precisava de dinheiro para pagar os meus materiais, as fábricas, para fazer a minha cerâmica. Resolvi começar a ler a secção de lugares vagos e a concurso do Diário de Notícias. Concorri para um lugar na Caixa Geral de Depósitos. Estive lá cerca de dois anos. Mas, quando o diretor me perguntou no interrogatório inicial o que eu queria dali, o que pensava da Caixa, etc., eu disse logo que queria estar lá o menos tempo possível (risos). Tinha ido para lá unicamente para pagar a Escola de Belas Artes. Com o dinheiro que ganhei, consegui fazer a minha segunda exposição, em 1954 (a primeira exposição foi em 1952), já com material muito bom.

 

E foi nessa exposição que surgiu uma nova oportunidade?

Sim. Dois inspetores do Ensino Secundário visitaram a minha exposição e viram em mim a pessoa ideal para substituir o professor da Escola de Artes Decorativas António Arroio. Convidaram-me para ser o professor de Pintura de Cerâmica. Eu ainda nem tinha acabado o curso! O diretor da escola levou-me ao Ministério da Educação e, como não tinha o curso terminado, fui nomeado professor por despacho ministerial. Estive na escola quatro anos, acho. Acompanhei um curso de alunos, de início ao fim. Por exemplo, a Via Sacra que está na basílica de Fátima foi uma obra feita na minha aula. São 14 painéis de 4x6 metros feitos por mim e pelos meus alunos, um projeto da autoria do diretor da escola, Lino António. Fui eu que fiz as tintas para pintar a cerâmica porque naquela altura, há mais de 50 anos, não existiam esmaltes preparados como hoje.

Quando anularam o concurso que eu ganhei para revestir em cerâmica os edifícios da Cidade Universitária de Lisboa, pensei: não sirvo para isto, vou-me embora. Eu já fazia, todos os anos, um requerimento a pedir que me dessem uma bolsa de estudos do Instituto de Alta Cultura para que eu pudesse ir estudar para o estrangeiro. Mas a bolsa era-me sempre recusada. Depois da recusa desse projeto da Cidade Universitária, o ministro da Educação, que tinha ficado chateado com isso, falou-me de uma bolsa do governo italiano, para ir para Itália. Lá fui. E quando voltei a Portugal, a diretora do serviço de Belas Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, Maria José de Mendonça, quis oferecer-me uma bolsa para onde eu quisesse. Eu quis Paris! Tive a bolsa durante um ano, mas como já me tinha adaptado à cidade, não queria voltar. Mesmo com as dificuldades, porque vivia num hotel zero estrelas, no quinto andar (risos). Mas eram só artistas. Entretanto, um galerista fez-me comprar um apartamento, ao lado da casa do Picasso. Uma vez até estive com ele! Mas nunca ousei falar-lhe. Para mim ele era um génio. O que é que eu lhe podia dizer? Que ele era um génio? Isso ele já tinha ouvido (risos).

 

Sente que não conseguiria ter a carreira que teve se tivesse ficado em Portugal?

De maneira nenhuma! Quando eu fui para Paris, o grande centro mundial das artes era lá. Porque a pintura evoluiu no mundo inteiro partindo do impressionismo, de Cézanne, etc. Eu sou dos últimos descendentes directos dessa escola. Hoje já não é assim. O mundo das artes mudou. Há muitos centros. Há uma tese que eu defendo: pensemos na história da arte. Porque é que se faziam as pinturas rupestres? Pela necessidade de transmitir uma mensagem aos outros. A vivência daquela altura. Para deixar aos descendentes a sensação que se teve ao ver um determinado animal, por exemplo. Se isso aconteceu nessa altura, aconteceu 100, 200 ou 1000 anos depois. As obras são completamente diferentes de época para época. Quer isto dizer que a arte está certa, perfeita para cada época. Eu não entendo aquilo que se faz hoje de instalações, mas isto já não é da minha época. Eu fui ultrapassado. Mas, se o resto foi certo, isto também está certo. Quanto às dificuldades, elas existem em todas as épocas. Aqui e lá fora. Eu acho que o problema do artista é apanhar a doença de ser artista. Às vezes a doença não é grave. E quanto mais grave for a doença, maior é o artista. É uma doença crónica que fica para a vida. 

«Acho que não sou um artista realizado. Sou um artista»    

Qual é a sua visão da cerâmica, hoje em dia?

Acho que a cerâmica é um caso muito sério e os portugueses não têm consciência disso. Em Portugal, houve grandes artistas pintores que realizaram obras fabulosas, como o Grão Vasco. Pintores que apareceram de repente, sem precedentes nem consequentes. Ora, na cerâmica isso não aconteceu. Remontamos sempre aos tempos em que os árabes vinham decorar igrejas e monumentos com azulejos, tornando a cerâmica num trabalho de continuidade em que Portugal é único no mundo.

 

Sente-se um artista realizado?

Acho que não sou um artista realizado. Sou um artista. Eu não sei como me defino, se sou pintor, ceramista? Acho que sou um pintor conhecido por fazer cerâmicas, óleos, etc. Mas não procuro reconhecimento. Acho que nunca estamos realizados. Estou em paz. A palavra ?paz?, ?luz?, para mim é importante. Gosto muito da palavra ?místico? também. Ultimamente tenho pensado muito sobre o motivo por que alguém se sente atraído por obras de arte. Há pinturas agressivas, fabulosas, como as de Francis Bacon que atraem as pessoas. Há também obras em que vemos o amor, o bom, como as obras de Marc Chagall e as minhas, que atraem da mesma forma. É como se existissem duas correntes: uma positiva, outra negativa. Há muita gente que vê as minhas obras, gosta, mas não percebe o que lá está. Acho que é aí que entra o trabalho de imaginação. E eu aí vejo que cheguei ao grau de doença da pintura, ao grau de já não haver mais nada a fazer. Era mesmo ser pintor.

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