Mário Tendinha

Nunca é tarde para voltar a pintar!

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia © PMC

Após 25 anos sem pintar, Mário Tendinha regressou às telas, em 2003. Nasceu no Namibe, em Angola, em 1950, e de lá saiu com 12 anos. Com um pai banqueiro, sempre em agências, só lhe restava mesmo acompanhá-lo no saltitar de províncias, de um lado para o outro, e assim foi conhecendo Angola, de norte a sul. O mar, o deserto e o povo cuvale foram algumas das referências que o acompanharam ao longo da sua vida. Mário tinha 18 anos quando iniciou a pintura, que hoje o realiza, e o desenho, uma das paixões de infância, um pouco influenciado pelo modus vivendi da época. Apaixonou-se por Salvador Dalí. A primeira exposição individual do artista teve lugar na Biblioteca Municipal no Huambo, em 1972. No ano seguinte expôs no Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA) em Luanda.

Devido à invasão sul africana a Angola, em 1975, a sua casa e atelier, no Lubango, foram vandalizados e assim deixou de pintar. Com isto perdeu muitas obras. Restam apenas duas referentes a essa época, que as guarda como recordação. De 1976 a 1978 viveu em Lubango, mas saiu de lá para viver em Luanda. Daqui não mais saiu. Foi sindicalista durante dez anos da sua vida, atividade que cessou em 1984. O seu percurso profissional iniciou-se com a gestão de empresas. Agora, já reformado, quer dedicar mais o seu tempo à pintura, que outrora viu esquecida da sua agenda.

Depois de 28 anos sem expor, Mário Tendinha mostrou o seu trabalho com a exposição Lá para o sul, na Galeria Cenarius, em Luanda, no ano de 2003. Seguiu-se a exposição em Portugal, em 2004, na Casa das Artes de Famalicão, com o tema Partilhar I. E muitas outras se seguiram a estas, entre Angola e Portugal, países onde o artista habitualmente expõe. Entre as inúmeras exposições a título individual, cerca de 15, e coletivo, com nove na listagem, já levadas a cabo, lança o livro Vento Leste, em Angola. Foi-se aperfeiçoando com as aulas que frequentou em ateliês e workshops, na Ar.Co, em Lisboa e Almada, outras na Cooperativa Árvore, no Porto, e no atelier de cerâmica de João Carqueijeiro, em Matosinhos. Foi-se inspirando nas suas vivências, do dia a dia, reinventando as coisas. Como existe uma paragem tão grande, enquanto artista, Mário comenta: «Não posso dizer que tenho uma carreira de pintor». Por isso, reencontrar-se com a pintura foi um bocado duro, mas Mário lá encontrou, de novo, o seu traço. Gosta, cada vez mais, de trabalhar com base num tema. 

Este ano liderou o projeto Olongombe ? manada dos bois, na língua umbunda ?, juntamente com cinco artistas plásticos (António Gonga, António Ole, Paulo Amaral, Paulo Kussy e Masongui Afonso), uma exposição itinerante cuja temática tinha a ver com a pastorícia e o gado, que fazem parte da cultura angolana. Findado este projeto, Mário está de olhos postos em Portugal, onde terá a exposição de desenho Meridianális, «uma mostra que tem a ver com o sul de Angola, o sul do continente, o sul do hemisfério, e o meu sul, que é o sul de Angola onde nasci», revela o autor da exposição que será inaugurada em Outubro, na Galeria Nuno Sacramento, em Aveiro. Conforme Mário Tendinha vai envelhecendo vai sentido que o ?sul? são «as memórias mais vivas que uma pessoa tem». E talvez seja mesmo. De memórias fazem-se as histórias! 

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