Maria Beatitude

Pinceladas honestas

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia © PMC

Sempre pintou e desenhou. Era muito «manual». Há uns anos entrou em casa de uma amiga e um quadro chamou-lhe a atenção. Foi esse quadro que a levou às aulas artísticas. Foi parar às Belas Artes, onde se encontra há dois anos. Mas quer sempre mais! E mais significa: mais formação, para além da académica, ter em que trabalhar, trabalhar? pintar! E pintar a vai realizando.  Procura pincelar sempre com luz natural, pois a artificial não a alicia. As restantes horas do dia aproveita-as para planear e ver outras obras de artistas. E o que aprende mais com eles é a tal forma de pensar: «Como é que cheguei ali?». Já a professora de pintura lhe dizia: «É só luz e sombra, luz e sombra».

Trocou as linhas desenhadas no ecrã do computador, Design Gráfico, pelas linhas soltas nas telas, com a pintura a óleo. E que belas elas se tornaram! Beatitude, natural de Oliveira de Azeméis, vive num estado de felicidade suprema, atualmente na Vila de Cortegaça, em Ovar. Formou-se, inicialmente, em estilismo, em Guimarães, mas logo nas entrelinhas da costura percebeu que no mundo da moda não se iria realizar. Então seguiu artes gráficas. Mas o excesso de vida informática, a que todos têm acesso atualmente, é que a fez sentir «o clique» para a pintura. «Acordamos, temos jornais, a vida social e a vida profissional no computador e à noite repete-se», confessa Maria já cansadíssima de monitores.  Procurou algo mais táctil, o regresso ao passado, às telas preenchidas, intercalando sempre o design com a pintura. «Não dá para fazer só uma coisa. São duas formas de arte. Ambas são muito criativas», reconhece Beatitude.

Sente desespero, como qualquer artista, quando está muito entusiasmada com uma série, como a Dos Dias e Das Marés, era inverno e passava horas em frente ao mar, saía de lá e ia para o atelier pintar. Depois veio a Primavera, com aqueles nevoeiros do amanhecer, e aí pensou pintar Os Amanheceres. E pintou! «Seleccionei várias serras, daqui da região e passei lá algumas manhãs». Mais que a inspiração, esta que muito surge pelo clique, Maria passa a vida sempre a pensar em alguma coisa, mesmo sem ter noção. São muitas as séries que já deram cor às telas de Beatitude. A Fragilidade dos Dias, que são a série das mãos, em que o gesticular fala por si. Depois, inspirada num acordar matinal com as notícias do telejornal, fê-la sentir que as pessoas todas estão «adormecidas da realidade», fê-la querer pintar a série Acordar - Acordem da Apatia! -, e assim acordou Maria Beatitude para mais uma colecção de arte.

«Qualquer artista gostava de estar onde as suas obras pudessem ser vistas por muitas pessoas»

Maria vai dando pinceladas. E que bem ela pinta! «Mas um quadro é sempre algo inacabado», confessa a artista, acrescentando que tem obras que já as acabou várias vezes. «Digo: estão terminadas, mas no dia seguinte penso que precisam de mais um bocadinho de luz ali, um pouco de sombra acolá? mais uma pincelada». Maria Beatitude fica fascinada com a força das ondas e do mar de inverno. Gosta de sentir a humidade que há no mar e na atmosfera. Gosta de pisar a areia da praia deserta, sentir que ali apenas os poucos pescadores locais estão presentes. Fora isso, Maria observa o mar e com ele vêm muitas inspirações.

«Gosto quando olham para um quadro meu e os olhos brilham»

Apesar dos seus 39 anos, Maria Beatitude só mostrou o seu verdadeiro interesse pela pintura de há dois anos para cá. Recentemente esteve presente em exposições colectivas: duas obras da colecção Alienadas, Alucinação e Alienação, em Sabadell, Barcelona, na Galeria D?art Tàndem. Outra exposição teve lugar na Casa das Artes, em Famalicão, com o tema O Que Pensam Elas. E, no Museu Carmen de Miranda, em Marco de Canaveses, expôs a obra - Chica Boom -, que foi pensada especialmente na Carmen Miranda.

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