João Viana

«Há filmes que podem mudar a nossa vida»

\\ Texto Maria Cruz
\\ Fotografia © PMC

Era homem feito quando o mundo cinematográfico entrou para a sua vida. O pai sonhava vê-lo a aplicar as leis. João Viana fez-lhe a vontade. Concluiu Direito, mas nunca fez disso carreira. Em 2004 inicia-se como realizador, com a sua primeira curta - Piscina. Seguiu-se Alfama, mais tarde Tabatô e a primeira longa metragem A Batalha de Tabatô. Agora chegou a vez da co-produção - Our Madness -, uma longa-metragem que está muito ligada à vida deste jovem realizador. Moçambique inspirou-o. O facto de o país estar politicamente em suspenso fez com que houvesse um espaço de criação artística. João não tem pensamentos derrotistas, apesar de achar que «o mundo pode ser bem melhor». Considera até o cinema tão importante quanto a saúde ou a justiça «porque há filmes que podem mudar a nossa vida». Tal como o crítico Serge Daney dizia: «o cinema é como um jogo de ténis, de resposta, espectador e filme».

Já se pode desvendar a história do Our Madness?

É um filme sobre Moçambique. Verdadeiramente africano. Tem a ver com uma mãe que está no hospital psiquiátrico do Infulene e há  um seu filho que a tira de lá, para a levar para o pai que está numa zona de conflito. 

 

A cinematografia africana está no bom caminho?

Há uma tradição de cinema africano que começou em 1966, com um grande nome - Ousman Sembène-, chamado o leão do cinema africano, que se estreou com o filme La Négre De. Há três tipos de cinema: o de Hollywood, que é puro cinema de entretenimento; o Cinema de Autor, de cariz mais profundo e mais interessante, e depois o terceiro cinema, Cinema Africano, que é entretenimento, mas ao mesmo tempo fala de coisas sérias.

 

Qual é o problema do terceiro cinema?

Não há dinheiro.  Em todos os sectores é a economia que comanda. E sem dinheiro não se pode trabalhar. 

 

Então para a concretização do Our Madness?

Temos de ser rápidos, flexíveis e multifuncionais.  

 

Trata-se de uma co-produção que abrange vários países? Moçambique, Guiné Bissau, França e Portugal. Que ligação têm?

Começa tudo na Europa porque ela está a ajudar o cinema africano. A União Europeia acha que a experiência que teve de união dos países é muito louvável, e no fundo é reproduzir essa ideia relativamente a África. A vantagem deste projeto é tratar-se de um angolano, que veio da Guiné Bissau e que agora está a filmar em Moçambique. A UE valoriza isso e a verdade é que juntos somos mais. E França porque é o país do cinema. 

 

Escolheu Moçambique para realizar o filme pelo facto de ter origens africanas?

África está no sangue, mas não só. No cinema devemos falar daquilo que sabemos. E o cinema vive de drama, de problemas dramáticos. O que acontece na Europa e nos Estados Unidos é que não há, ou inventam-se, problemas. Trata-se de sociedades alienadas onde os problemas básicos estão todos resolvidos. Nós aqui temos problemas para dar e vender. São problemas fortes e o resto do mundo precisa refletir sobre eles. A função de cinema é ajudar-nos a pensar.

João gostava de estrear Our Madness num festival de cinema importante.

Neste projeto fala da atualidade política e social. De que forma se pega nesses problemas e os retrata em filme?

Não de uma forma jornalística, mas de uma forma artística. Quer dizer, nós no fundo trabalhamos, eu e a Maria, do mesmo lado. Agora, nós artistas pegamos de uma outra forma. Enquanto vocês estão à frente a tentar oscular a verdade, porque só a verdade é que interessa, nós também, mas a nossa arte é a da grande ilusão. Há alturas em que o facto de estarmos a tentar contar a mesma verdade desvia-nos dessa verdade, e na ficção, às vezes, conseguimos ser mais verdadeiros que a própria verdade jornalística.  

 

E agora, numa vertente mais pessoal, de onde vem o gosto pela realização?

Tem a ver com o medo. Era uma criança muito medrosa e mentiroso. E no cinema onde toda a gente tinha medo, eu não tinha. Foi aí que pensei: é isto o que quero fazer.

  

De onde vinha o medo?

Por um lado, a imaginação. Depois das histórias que a minha avó e mãe contavam. E África, com toda a sua efervescência de vida, cria medo nas crianças. 

 

Mas, agora já crescido, ainda sente esses medos?

Sim. Nós somos o que éramos em crianças. A partir dos sete anos estamos formados. A Maria Cruz que tenho à minha frente, é a mesma que quando tinha sete anos. Claro que tem o pensamento mais estruturado, mas é a mesma pessoa em termos de sensibilidades profundas, em termos de afecto.

 

E era mentiroso?

Sim. Porque era uma criança e a mentira era muito mais interessante que a verdade. A verdade é mais difícil. Até com nós próprios, iludimo-nos muito. 

 

Já trabalhou com alguns cineastas reconhecidos, como Manoel de Oliveira?

São mestres absolutos, o Werner Schroeter, o Paulo Rocha e o Manoel de Oliveira. Trabalhei muito de perto e isso cria uma amizade. É muito difícil ser assistente sem ser amigo. Foi muito bom, mas eu, realmente, não aprendi muito com eles. Como era autodidacta, e os autodidactas são inseguros, então tentava perceber de onde lhes vinha aquela força. E mesmo com o Manoel não aprendi nada. Aprendi, sim, que eles tinham a sua loucura própria, e eram fieis a ela. Eu também podia ser fiel à minha. Tenho uma admiração enorme pelo Manoel, ele era uma pessoa do século XIX, e quando ele fazia aqueles filmes muito lentos, era assim naquele tempo, a vida passava devagarinho. O chá era uma coisa que podia demorar duas horas. Ele sabia do que estava a falar, porque era assim na casa dele. Havia tempo. Agora há falta dele.

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