Assunção Cristas

«O meu objetivo é mobilizar o CDS»

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Nuno Noronha

Com apenas 42 anos, Assunção Cristas tem carimbadas no curriculum as profissões de jurista, professora e política. A ex-ministra da Agricultura e do Mar de Portugal é, ao mesmo tempo, mãe de quatro filhos, presidente do CDS-PP, além de ser candidata à Câmara Municipal de Lisboa. Numa entrevista difícil de conseguir, devido à sua apertada agenda, a líder do CDS explica que é na família que consegue apoio para cumprir a missão a que se propôs dentro do partido, algo que assume ser a sua causa maior, neste momento. Um legado herdado de Paulo Portas, o homem que a convidou, há nove anos, para dar os primeiros passos na política e com quem fala, de vez em quando. Dos valores católicos transmitidos pelos pais, às corridas que faz com regularidade para ficar em forma, este é um breve retrato de uma mulher que gosta de conquistar vida ao tempo. Vida essa que aproveita com rapidez, energia e ambição.

Como vê atualmente o país onde nasceu, Angola?

É um país ainda com muitos desafios, desde logo com a consolidação da própria democracia. Um país onde a pobreza e o desafio da diversificação e do crescimento económico é enorme. Creio que há muito trabalho a fazer, certamente alguma coisa já terá sido feita, mas há um longo caminho pela frente.

 

A família é o seu pilar em todas as coisas. Sente que nesta fase recebe mais do que aquilo que dá?

Sinto que há um desafio permanente, diário, em conseguir articular um trabalho intenso com a família, que é o pilar estruturante da minha vida. Isto faz-se procurando equilíbrios, procurando conjugar horários, partilhando tarefas com o meu marido.

 

Quais foram os principais valores que recebeu dos seus pais?

Creio que foram os valores da fé, da solidariedade, da generosidade, da abertura aos outros, da disponibilidade muito permanente, que eu vi no exemplo concreto da vida deles, mas também os valores da alegria, da esperança, da honestidade, da seriedade e do valor do trabalho.

 

Uma vez que o seu marido é do PSD, tem sido fácil viver ‘coligada’ com ele no que toca ao confronto de ideais políticos?

O meu marido costuma dizer, com graça, que é a pessoa do PSD que mais trabalha para o CDS, e é verdade. Desde logo, na partilha de trabalho que temos em casa e que me permite estar tão empenhada na política. Nós convergimos em muitos pontos de vista, embora ele continue a ser do PSD, mas um pouco mais adormecido, se quisermos assim dizer. E está sempre ao meu lado, e procurando que as coisas corram bem para mim e para o CDS, que neste momento é a minha grande causa. 

«O grande desafio é conjugar o partido, a exigência da política, com a minha família»

Quem exige mais de si: os filhos, o marido, o partido ou a própria Assunção Cristas?

As exigências são múltiplas, são permanentes, são simultâneas. Eu costumo dizer que eu fico para último lugar porque quando chega a mim às vezes já não há tempo. Mas o grande desafio é conjugar o partido, a exigência da política, com a minha família. Aqui, acho sempre que quem fica com a parte mais difícil é o meu marido. Porque dentro da esfera familiar a atenção tem de ser dada por mim e por ele, porque em primeiro lugar estão os nossos filhos. Mas eu vou procurando que as coisas também sejam equilibradas. Penso que o meu marido compreende e apoia. Tenho essa felicidade.

«O contexto da minha vida profissional, partidária e familiar é bastante intenso e rápido»

A forma como tem vindo a construir a sua carreira política tem deixado muita gente espantada consigo?

As pessoas acham que eu estou no CDS há pouco tempo e, de facto, eu estou no CDS há nove anos, e para mim já me parece muito tempo. Na política, as coisas têm sucedido a um ritmo rápido, mas para mim não foi só na política, já era assim antes. No meu trabalho, na faculdade, tudo foi muito rápido. Doutorei-me com 30 anos, fui monitora quando ainda era aluna do quarto ano, depois fui assistente de estagiária, depois comecei logo o programa de doutoramento… portanto, foi tudo muito rápido… passados três anos era professora associada… Se pensar na minha vida pessoal, casei com 23 anos, muito cedo para os padrões actuais. Aos 30 já tinha três filhos e agora, felizmente, tenho mais uma filha. O contexto da minha vida profissional, partidária e familiar é bastante intenso e rápido, e eu gosto disso.

O facto de começar a cuidar mais a sua imagem, de, por exemplo, ter começado a correr, é também uma forma de fazer campanha política?

Comecei a correr por uma questão de necessidade, porque ter um filho aos 26 anos ou aos 28 ou aos 30, como eu tive os primeiros, e ter uma filha aos 38, é muito diferente. Tive mesmo de me empenhar, se não queria ficar ‘bolinha’. Por isso, primeiro comecei a andar, e depois comecei a sentir vontade de correr, coisa que eu nunca acreditaria. Se me dissessem há dez anos, acharia impossível. Eu sempre detestei correr. 

Se ganhar a Câmara de Lisboa deixará a presidência do CDS?

Não vejo nenhuma incompatibilidade entre uma coisa e outra. Se um primeiro-ministro pode ser um líder do seu partido, eu não vejo porque é que um presidente da Câmara de Lisboa não pode continuar a ser líder do seu partido também. Aí está mais um exercício de equilíbrio e de articulação.

As próximas eleições autárquicas vão dizer muito sobre o seu trabalho enquanto líder do CDS? Como acha que o eleitorado vai reagir nas urnas?

As eleições autárquicas são sempre um desafio difícil para o CDS. O partido está, neste momento, a reganhar algum espaço e o meu objetivo é mobilizar o CDS. Dizer-lhes que o caminho não é fácil, mas se fosse fácil nós também não estaríamos aqui. Temos de nos empenhar. Eu própria dou o exemplo, porque, em Lisboa, vejo muito por fazer e creio que posso protagonizar um projeto muito mobilizador para a cidade. Temos o dever de, em cada momento, darmos o máximo que pudermos. Há essas questões estruturais e históricas de grande primazia de outras forças políticas que são difíceis de ultrapassar, todos o sabemos, mas temos de estabelecer objetivos ambiciosos, por um lado, e realistas, por outro. 

Como está a relação entre o CDS e o PSD?

É uma relação cordata, em que dois partidos, que têm um percurso histórico conjunto significativo, têm a sua autonomia, a sua identidade, o seu trilho próprio e onde partilhamos, neste momento, de uma convicção de que sozinhos somos capazes de crescer mais, de afirmar melhor as nossas propostas. É esse o trabalho que estamos a fazer com lealdade e com respeito recíproco. No CDS, tenho-me empenhado para que se perceba exatamente isso. Nós crescemos pelo nosso pé, temos um desafio, olhamos em frente, temos a máxima ambição. Também sabemos que temos no PSD um parceiro natural e um aliado em muitas batalhas, como é notório, aliás, em matéria de autárquicas, por exemplo.

«CDS e PSD podem protagonizar uma alternativa ao Governo das esquerdas unidas»

CDS e PSD voltarão a concorrer coligados?

Estou confiante de que o CDS e o PSD podem protagonizar uma alternativa ao governo das esquerdas unidas, com o PS apoiado nas esquerdas radicais. É preciso construir o caminho para chegar a essa alternativa. Essa construção far-se-á, na minha perspetiva, de forma mais eficaz se for feita com autonomia.

Disse, em diversos momentos, que gosta de ouvir os outros. Quem são as pessoas de quem se rodeia para se aconselhar? Paulo portas faz parte desse grupo?

Falo muito com as pessoas da comissão executiva, que reúne a cada 15 dias, e com a comissão política nacional, que reúne todos os meses. Depois, falo com as pessoas que trabalham mais proximamente. Há um contacto diário com vários dirigentes do partido e parlamentares, a ponto de até falarmos significativamente através de um grupo de WhatsApp onde vários de nós estão ligados para irmos contribuindo com referências, com ideias, com notícias, com aspetos a sinalizar. O Paulo Portas está, neste momento, muito ocupado e muito entusiasmado com a sua vida. De vez em quando falo com ele, mas não com regularidade, nem diária, nem semanal.

Sente que era  a «menina dos olhos» de Paulo Portas?

Eu creio que o Paulo Portas tem uma grande qualidade que é conseguir retirar de todos o melhor, e isso é uma grande qualidade de um líder. No meu caso, deu-me sempre oportunidades que eu agarrei, trabalhando e empenhando-me, dando o melhor que sabia para que fosse bem-sucedida. Creio que o que Paulo Portas fez comigo, fez também com muitos que estão no CDS.

Está grata a Paulo Portas pelo rumo que a sua vida tomou?

Acho que sim, que tenho de estar grata ao Paulo Portas por me ter desafiado, e aquilo que eu hoje procuro fazer é não deixar de desafiar pessoas que sinto que podem ter algum papel a desempenhar na política. Acho que é uma obrigação de todo o partido.

Politicamente, qual foi o momento mais crítico que enfrentou?

Provavelmente foi a crise do governo em 2013 e a dificuldade que na altura se instalou, e a forma de a ultrapassar. Foi talvez o momento mais crítico, com impacto relevante no país. Pessoalmente, penso que aquele que mais me custou foi quando era deputada e houve a votação acerca do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Foi talvez para mim o mais difícil.

Enquanto ministra, sente que fez bem o seu papel e que as pessoas reconhecem o seu esforço?

Sinto que sim, que me empenhei em tudo o que podia, que trabalhei intensamente e com ânimo e alegria, que motivei as pessoas do sector e posso atestar isso um pouco por todo o país. Continuo a fazer visitas a feiras, continuo a visitar empresas desta área e as pessoas reconhecem-me com muito carinho e eu fico-lhes grata por isso. Às vezes as pessoas vêm ter comigo e falam de medidas que eu aprovei ou de decisões que eu tomei e que tiveram grande impacto no seu trabalho e nas suas vidas. Isso é uma noção de que os ministros às vezes não têm, porque a governação é um pouco distante e aplica-se a todo o país, e às vezes não se tem essa sensibilidade.

O que pode o CDS e o país esperar de si?

Em primeiro lugar podem esperar a entrega total. Tudo o que posso dar dou e, portanto, é isso que eu farei no CDS e ao serviço do país. O que isto vai significar concretamente, o tempo encarregar-se-á de dizer. Mas contarão sempre com muita energia positiva, com ambição e com muita responsabilidade.

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