Barcos Rabelos

O ninho dos rabelos

\\ Texto Filomena Abreu
\\ Fotografia Daniel Camacho

«Todas as embarcações que estão fundeadas junto às caves foram construídas aqui no nosso estaleiro»

Num cantinho da margem de Gaia mora, discreto, o único estaleiro de construção naval que existe ao longo de todo o curso navegável do rio Douro, desde a foz até Espanha. Graças a ele é possível perpetuar a existência de um dos maiores símbolos do Porto, os barcos rabelos. António Sousa, proprietário da empresa Socrenaval - Sociedade de Querenagem e Construção Naval do Rio Douro põe as mãos nos bolsos e um sorriso no rosto para explicar os anos de dedicação. «Este estaleiro tradicional tem muita história. Fez e faz, sobretudo, reparações em embarcações de madeira, quer sejam de pesca, quer sejam outras, já muito antigas, como os barcos à vela que vinham de países nórdicos e de Inglaterra». Mas a especialidade consiste na manutenção de uma das maiores marcas ligadas à história do Vinho do Porto. Foi neste «ninho» que se construiu grande parte dos tradicionais barcos que transportavam as pipas do afamado néctar, Douro acima, Douro abaixo. «Penso que temos um papel extremamente importante no que toca à construção e reparação de embarcações que sustentam o nosso património marítimo. E esse trabalho é uma mais-valia a nível nacional e internacional, porque consiste na preservação que fazemos dos barcos rabelos», explica António. 

Atualmente, devido à tradição da Regata de S. João, quase todas as caves sediadas em Gaia possuem um rabelo para competirem no evento, que tem lugar no dia de S. João. A atividade, que cada vez tem mais destaque nas festas da cidade e na divulgação do Vinho do Porto, faz com que os proprietários ali façam a manutenção dos seus barcos anualmente. «Todas as embarcações que estão fundeadas junto às caves foram construídas aqui no nosso estaleiro, há dez, 15, 20… 30 anos, ou até mais», afirma o proprietário. Um motivo de alegria que mantém viva a atividade de todas as mãos que ali operam. «Orgulhamo-nos muito do trabalho que aqui fazemos», assegura um dos trabalhadores. Aqui, já foram construídos mais de 50 barcos. Só os rabelos, de 17 metros de comprimentos, demoram entre três a quatro meses a serem erguidos. E se receberem reparações anuais podem navegar durante 30 ou 40 anos. «É extremamente gratificante porque cada embarcação que nós construímos é única. Muito embora haja moldes, formas e dimensões que se têm de cumprir, há sempre pequenas alterações que se fazem, meramente estéticas. E, como são embarcações feitas à unidade, acabam por refletir muito o estado de espírito de quem a está a construir. Isso faz com que sejam sempre distintas», garante António.

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