Chef Christian Rullan

Tudo por amor

\\ Texto Maria Amélia Pires
\\ Fotografia © PMC

Filho de pai espanhol e mãe francesa, Christian Rullan nasceu em Nancy, França, de onde saiu com apenas dois anos, indo viver para as Baleares, Espanha. Antes de iniciar a sua viagem pelo mundo dos sabores, foi técnico florestal, tendo estudado, para tal, no norte de Espanha, nos Pirenéus Aragoneses. Já como chef, e depois de formações em afamadas escolas de gastronomia, trabalhou em conceituados restaurantes e hotéis e foi num deles que conheceu Bárbara, a portuguesa que mudou o seu rumo.

Hoje, em Portugal, país que nunca antes o tinha cativado mas que agora admira, trabalha ao lado de Bárbara, no Le Babachris, em Guimarães, um projeto de ambos que é já uma referência gastronómica. A sua cozinha é fruto da técnica, da experiência, de muito trabalho, da liberdade e do amor. Um amor que faz com que se emocione perante os produtos, imaginando os sabores que com eles pode criar. Um amor que faz com que seja muito exigente consigo próprio. Um amor a Bárbara, sua parceira na vida e nos sonhos. 

«Portugal é espectacular e as pessoas são muito agradáveis e solícitas, muito embora às vezes não tenham noção do que de bom têm»

Decidiu ser cozinheiro, e já lá vão 14 anos. Estudou numa das melhores escolas de gastronomia do mundo, Lenôtre, em Paris, e a essa formação ainda adicionou outra de dois anos, em Palma de Maiorca. Estagiou nos melhores restaurantes da capital francesa, como o Le Pré Catelan, do Chef Frédéric Anton. Christian confessa que foi uma experiência enriquecedora, mas a muita pressão levava a uma competitividade nem sempre séria. De Paris, rumou a Palma de Maiorca, onde trabalhou em conceituados restaurantes de nouvelle cuisine. Foi chef de cozinha de um hotel de cinco estrelas, foi chef pessoal de um milionário em Madrid e, entre uns lugares e outros, acabou por trabalhar num hotel nos Alpes franceses, um local que viria a mudar a sua vida.

Foi aí que conheceu Bárbara, uma portuguesa que estava longe do país natal em busca de outras oportunidades. A distância da família, a solidão e também o frio – diz Christian com graça – depressa os juntou, num amor que dura até hoje. Christian ainda voltou a Madrid e Bárbara rumou ao sul de França, voltando, depois, definitivamente para Portugal. Porque estava a tornar-se incomportável namorar à distância, Bárbara propôs a Christian que abrissem um restaurante em Portugal. «Para mim Portugal era tabu, seria retroceder uns anos», diz Christian, concluindo, «Tive de morder a língua. Portugal é espectacular e as pessoas são muito agradáveis e solícitas, muito embora às vezes não tenham noção do que de bom têm». No dia 21 de Agosto de 2014 abriram o Le Babachris, um nome que revela a união e a sintonia entre os dois, no amor e nos projetos de vida. 

«Para chegar ao prato final, é preciso pensar, experimentar, combinar sabores; há uma memória gustativa que é preciso trabalhar»

Na zona histórica de Guimarães, instalado num espaço acolhedor, de cozinha de autor de raiz mediterrânica, onde os produtos frescos têm destaque, o Le Babachris é hoje uma referência da gastronomia. Esta é a gastronomia de Christian, cuja filosofia é fazer uma cozinha de qualidade com produtos básicos. Christian diz-nos que «20% é técnica e 80% resulta daquilo que faz mover o mundo, o amor, a inspiração, a liberdade de pensamentos» e acrescenta, «Para chegar ao prato final, é preciso pensar, experimentar, combinar sabores; há uma memória gustativa que é preciso trabalhar. A minha luta é passar esta ideia para os clientes». Mas há sempre margem para melhorar, por isso gosta de saber a reacção dos clientes. Atento às nossas pupilas, que se dilataram, Christian soube que os sabores apresentados – lombo de vitela, com molho de vinho do Douro, cantarelos, puré de cenoura, espargos verdes, batata e pêra; peixe-galo, com arroz de passas e alho, puré de beringela e mini cebolas; as entradas Mar e Montanha e Prato de Foie Gras; as sobremesas Doux Chocolat e Carpaccio de Abacaxi –, assim como os vinhos, eram irrepreensíveis.  

Emotivo e muito exigente consigo próprio, Christian revela que tem uma mulher a quem ama muito, mas que tem outra ‘mulher’ que é a sua cozinha. Acrescenta, porém, e porque Bárbara não está a 100% no restaurante uma vez que o amor deu frutos – a pequena Cloé -, que sem ela a tempo inteiro não é a mesma coisa, porque Bárbara é metade do carácter do Le Babachris.

No amor, na vida, nos sonhos, juntos, a tentar mostrar a Guimarães e ao país que saber comer é um ato de cultura.

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